Arquivo do mês: maio 2012

Neve, mar e carvão

Na aula de espanhol, no sábado, meu professor me perguntou se eu já vira algum filme russo. Isso me fez lembrar de um dos mais belos longas que já vi.

Era 2007 e, para variar, estava correndo de cinema em cinema para ver meus escolhidos da 31a. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nem me lembro de como o escolhi, mas sei que deve ter preenchido um de meus requisitos para filmes da mostra (como: filme que nunca verei em um cinema brasileiro e dificilmente conseguirei baixar).

Pois bem.

A Ilha (Ostrov) é um filme de 2006 do diretor russo Pavel Lounguine que conquistou seis prêmios da Academia Russa de Cinema (filme, direção, ator, ator coadjuvante, fotografia e som). A figura central é um monge bastante estranho que vive em um monastério ortodoxo perdido no norte da Rússia. Esse lugar é praticamente um conjunto de pequenas ilhas interligadas por pontes de madeira. Então, imagine: um lugar frio e muito úmido. O vento sopra quase todo o tempo, fica-se rodeado pelo mar e o branco do gelo se faz presente como um branco sujo. A fotografia da película se alterna entre o branco sujo (neve sobre a terra), o azul escuro e o preto. Este vem do carvão, que é incessante e loucamente jogado no forno pelo monge para aquecê-lo naquele clima tão hostil.

O religioso é alvo de chacota e rancor por parte dos colegas, pois é procurado dia após dia por pessoas que vêm até ele atrás de milagres, já que é tido como santo. Mas, apesar de ajudar muita gente, ele é bastante humilde e até mesmo agressivo. E é no passado desse homem tão singular que encontramos as respostas e entendemos o porquê de seu comportamento e sua obsessão pelo carvão.

É um filme sobre culpa, fé e caridade. Culpa que muda todo o curso da vida do homem (que acaba por se tornar monge), fé para dar um sentido à existência, e caridade para ajudá-lo a pagar por seus erros do passado. E não se deixe enganar pela equação lugar hostil, carvão bruto e agressividade, pois se trata de uma película delicada sobre a relação de um homem com seu passado que não ficou para trás.

Terminado o filme, um senhor idoso na minha frente chorava, silencioso. E ele não estava sozinho.

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Algemas, castigos e suspense

Quando fiquei sabendo que o Museu da Imagem e do Som começaria um curso de um mês sobre o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, pensei: “Uhm, não sei se gosto muito dos filmes dele, mas quem sabe?…” E me inscrevi. Uma coisa totalmente diferente é você assistir a um filme ciente das artimanhas do diretor. Mesmo que a película não agrade de todo, você reconhece esses elementos narrativos típicos e dá o devido mérito. E foi meio o que aconteceu depois desse curso, que terminei ontem (18/05/2012).

O curso foi ministrado pelo crítico Marcelo Lyra. Ele dava aulas a partir de montagens feitas com pedaços dos filmes de Hitchcock. Vimos desde seus filmes mudos (pois é, ele tem filmes mudos, e alguns excelentes, por sinal) passando pelos feitos para a TV, até Torn Curtain (Cortina Rasgada), de 1966 (não deu tempo de ver os 2 últimos). Aprendemos muitas coisas, não só sobre a técnica do diretor, mas também sobre a pessoa Alfred Hitchcock.

Conta-se que o pai de Hitchcock era amigo do delegado de um posto policial próximo à sua casa. Um dia, como o pequeno Alfred fez uma malcriação, seu pai pediu para o amigo policial prendê-lo, só para assustá-lo. Isso faria grande diferença na vida desse menino – e principalmente em seus filmes. Repare: em todas as suas histórias, a polícia nunca resolve nada, às vezes até atrapalha. Em The Lodger (O Pensionista, ou O Inquilino – 1927), há um serial killer de loiras que escapa o tempo todo da polícia, a qual, inclusive, acaba prendendo um inocente (o tal inquilino) como suspeito dos crimes. Em Vertigo (Um Corpo que Cai – 1957), logo no início há uma perseguição. O criminoso escapa e um dos policiais cai do telhado. E morre.

Outro ponto sobre essa história da polícia é que o diretor quase não usava algemas em seus filmes. Parece ser uma imagem muito forte para ele. Em The Wrong Man (O Homem Errado, 1956) uma das cenas mais impactantes é quando algemam um músico inocente por um crime que ele não cometeu. Você, espectador, sabe que ele é inocente, mas a polícia diz o contrário e tudo conspira contra o pobre homem. Aí, as algemas se tornam um símbolo de injustiça.

Outra história também vem da infância. Alfred estudou em um internato de padres. Quando um dos meninos aprontava alguma, os padres deixavam a criança escolher o horário em que ela seria castigada. O nosso diretor percebeu (já naquela idade, hein), que pedir para o castigo acontecer no último horário possível criava uma expectativa, uma tensão nele, que aumentava a dimensão da punição (olha que coisa mais perversa). Nesse momento, ele entende o efeito da ansiedade e, quando adulto, vai abusar do expediente. Em Sabotage (Sabotagem, 1936), um menino carrega um pacote para o seu padrasto. Ele não sabe, mas há uma bomba-relógio dentro que deve explodir na mão do remetente (que é um adulto). O menino fica preso no trânsito dentro de um bonde. Você começa a se desesperar, porque o menino sabe que tem que chegar numa determinada hora ao destino, não sabe sobre a bomba e o tempo está passando. Ele consegue ver o relógio da igreja, percebendo que está perto de se atrasar. Mas não tem o que fazer. Tudo acontece para atrasá-lo (e para deixar você agarrado na cadeira, de tanta tensão). Esse é só um de muitos exemplos da filmografia de Hitchcock.

Bem, tenho muuuuita coisa para falar sobre ele, pois o assunto é muito rico!

Agora deixa eu assistir o próximo filme da minha lista do Mestre do Suspense.

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Fidelidade

Traduzir também é criar.

Discordo totalmente das Escolas que dizem que o tradutor deve permanecer na penumbra, oculto pelo nome do autor e identificado em letras pequenas em algum lugar do livro. Ele pode, sim, deixar sua marca, simplesmente porque é obrigado a fazer escolhas.

Não estou dizendo que o tradutor pode pegar um original e alterar a seu bel-prazer. Isso seria desrespeito com o autor e uma deturpação de seu trabalho.

Mas a força criadora da tradução está justamente nas escolhas que é preciso fazer.  Nas traduções literárias, e até mesmo em legendas, fica mais fácil perceber essa criatura misteriosa no texto, o tradutor. Existe uma co-criação (no sentido de ser colaborativa e conjunta).

Acho que o bom tradutor consegue ser “visto” em seu trabalho. Na Faculdade de Letras, na Universidade de São Paulo, tive o privilégio de ser aluna de tradutores que respeito muito. Entre eles, estava João Azenha Jr. Ele é o responsável pelo texto em português d’O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder. Quando li o texto após conhecer Azenha, comecei a sorrir. Porque era inegável sua presença ali. Não eram exatamente apenas expressões ou palavras que ele costumava usar. Era a forma de estruturar as frases, o zelo e o capricho.

Também já vi trabalhos que refletiam o tradutor – mas no pior dos sentidos. Textos mal escritos, ou sem revisão, com erros de entendimento da língua estrangeira. Os problemas são inúmeros, e todos representavam um profissional descuidado, despreparado e que estava lá simplesmente para fazer o serviço. Ou seja, servir de filtro humano para duas línguas diversas.

Respeito muito o original. Não usarei gírias em um artigo científico, claro. Porém, a tradução é ainda feita por seres humanos (nem venham me falar do Trados e companhia rs, porque existe uma pessoa por trás organizando e revisando as frases). E tudo que tem toque humano é criativo e vivo. Por isso, não acredito na tese de “tradução fiel” que algumas vertentes pregam. Não há fidelidade completa quando estamos lidando com trabalho feito por profissionais de carne e osso.

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Mudança de ares

Sim! Mudei o nome do blog!

Este é o antigo Tentativas de Tradução.

Faz alguns meses que o nome do blog começou a me incomodar profundamente. Ele limitava a temática de meus posts e eu queria escrever sobre literatura e outras coisas que me interessam.

Hoje, resolvi tomar coragem: abri um novo blog e importei o conteúdo do Tentativas. E aqui estamos.

Agora uma explicação para o nome.

Como escolher um nome mais inspirado e abrangente? Entrei em um daqueles geradores automáticos de nome para blogs (Weblog Name Generator, muito simples e divertido, por sinal) e li “Silence Community”. Achei o nome forte, mas ainda não era o que eu queria. Clicando um pouco mais, encontrei Black Reports. Juntei um com o outro e deu nisto.

E por que silence (silêncio, em inglês)?

Apesar de minha mente estar o tempo todo criando e trabalhando, meu trabalho é feito no silêncio. Por isso, este blog são relatórios desses momentos de silêncio, em que penso em literatura, música, tradução e revisão.

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