Neve, mar e carvão

Na aula de espanhol, no sábado, meu professor me perguntou se eu já vira algum filme russo. Isso me fez lembrar de um dos mais belos longas que já vi.

Era 2007 e, para variar, estava correndo de cinema em cinema para ver meus escolhidos da 31a. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nem me lembro de como o escolhi, mas sei que deve ter preenchido um de meus requisitos para filmes da mostra (como: filme que nunca verei em um cinema brasileiro e dificilmente conseguirei baixar).

Pois bem.

A Ilha (Ostrov) é um filme de 2006 do diretor russo Pavel Lounguine que conquistou seis prêmios da Academia Russa de Cinema (filme, direção, ator, ator coadjuvante, fotografia e som). A figura central é um monge bastante estranho que vive em um monastério ortodoxo perdido no norte da Rússia. Esse lugar é praticamente um conjunto de pequenas ilhas interligadas por pontes de madeira. Então, imagine: um lugar frio e muito úmido. O vento sopra quase todo o tempo, fica-se rodeado pelo mar e o branco do gelo se faz presente como um branco sujo. A fotografia da película se alterna entre o branco sujo (neve sobre a terra), o azul escuro e o preto. Este vem do carvão, que é incessante e loucamente jogado no forno pelo monge para aquecê-lo naquele clima tão hostil.

O religioso é alvo de chacota e rancor por parte dos colegas, pois é procurado dia após dia por pessoas que vêm até ele atrás de milagres, já que é tido como santo. Mas, apesar de ajudar muita gente, ele é bastante humilde e até mesmo agressivo. E é no passado desse homem tão singular que encontramos as respostas e entendemos o porquê de seu comportamento e sua obsessão pelo carvão.

É um filme sobre culpa, fé e caridade. Culpa que muda todo o curso da vida do homem (que acaba por se tornar monge), fé para dar um sentido à existência, e caridade para ajudá-lo a pagar por seus erros do passado. E não se deixe enganar pela equação lugar hostil, carvão bruto e agressividade, pois se trata de uma película delicada sobre a relação de um homem com seu passado que não ficou para trás.

Terminado o filme, um senhor idoso na minha frente chorava, silencioso. E ele não estava sozinho.

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2 Comentários

Arquivado em Cinema

2 Respostas para “Neve, mar e carvão

  1. Não conhecia esse filme. Fiquei curiosa. Vamos ver se consigo assistir.
    bjo

  2. sumara ramalho

    Também não conheço, mas vou tentar assistir pela internet. Bjks

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