Arquivo do mês: junho 2012

A última gargalhada

Há tempos estava para assistir o grande clássico e “must see” A última gargalhada do cultuado diretor alemão Murnau. E concordo com o que vivem dizendo. É um filme obrigatório para quem curte cinema mudo.

O filme de 1924 conta a história de um senhor já de certa idade (representado pelo maravilhoso Emil Jannings) que trabalha como porteiro do hotel chiquérrimo Atlantic. Seu cargo desperta respeito em todos os seus vizinhos (ele mora em um daqueles cortiços do começo do século), e ele mesmo tem muito orgulho do que faz. Até que… (sempre tem um “até que” para o filme ser bom rs).

Um dia, o gerente do hotel vê o Porteiro (como ele não tem nome, vou me referir a ele dessa forma) sentado descansando, meio esbaforido. No dia seguinte, o senhor chega ao hotel, como de costume, mas há um outro homem trabalhando na porta. O gerente chama o nosso Porteiro e aí começa toda a desgraça: o funcionário mais antigo foi aposentado, e agora o Porteiro deveria assumir suas funções — trabalhar no banheiro masculino, engraxando sapatos, escovando ternos e dando toalhas para os hóspedes secarem as mãos.

Ele fica completamente arrasado com a notícia. Por isso, continua a voltar para casa com o uniforme de porteiro. Nessa noite, inclusive, sua filha se casa, então o prédio todo está em festa. E ele nada diz. No dia seguinte, já trabalhando no banheiro, sua esposa vai até o Atlantic lhe levar sopa quente para o almoço. Quando descobre a verdade, sai correndo, envergonhada. Agora o embaraço dele se soma ao da esposa.

Ao voltar para casa, nesse dia, a família o rechaça, e ele decide passar a noite no banheiro. Nesse momento, o vigia noturno do hotel acaba sendo a única pessoa do filme inteiro que o trata com compaixão, deixando-o lá sozinho.

A história parece muito boba, mas Murnau a transformou em algo profundamente dramático. Primeiro, apesar de ser um filme mudo, NÃO HÁ PLACAS COM FALAS. Sério. E o cara era um gênio tão gigante, que você entende TUDO o que se passa e até imagina as falas. Para não dizer que não há texto nenhum, aparece um bolo de casamento confeitado com as palavras “Para os convidados do casamento”, a carta avisando o Porteiro da mudança, uma tela falando sobre o epílogo da história e uma notícia de jornal. Só. Além disso, há cenas em que você praticamente consegue ouvir sons. Como no início, em que carros passam em frente ao hotel e a câmera dá um close no Porteiro, que assopra um apito. Você “ouve” o homem apitar.

Os atores têm uma expressão corporal inacreditável (e falo isso como fã do cinema mudo que já assistiu a muita coisa). A maior prova disso é a transformação que se dá na postura do Porteiro. Enquanto ele tinha essa função no hotel, apresentava um porte orgulhoso, com a cabeça para frente e a coluna ereta. Quando começa a trabalhar no banheiro, passa o tempo todo encurvado, o que demonstra seu desgosto e a humilhação que sente ao ser rebaixado. Em outro momento, quando o gerente lhe avisa da mudança, abre os braços e adota uma expressão que deixa muito claro o que diz: “Sinto muito, mas não posso fazer nada”. E quando as vizinhas fofoqueiras descobrem a verdade, o diretor dá close em seus rostos com a boca escancarada em gargalhadas.

O ambiente do filme também é bastante importante para entender o estado de espírito do Porteiro. No começo, apesar de ser noite, há bastante movimento na rua e a cena é clara. Já com a mudança de trabalho do protagonista, as cenas se enchem de sombras e tudo é muito escuro. Incrível.

Não sei porque demorei tanto a ver um filme desses. É uma obra-prima. Agora entendo porque Hitchcock trabalhou em filmes do Murnau e o tinha como mestre…

Bem, agora…

SPOILER

No final do filme, entra uma tela, dizendo que o espectador já podia imaginar o que o destino reservava ao pobre velho, mas que o autor teve compaixão por ele e escreveu um epílogo. Em seguida, o filme mostra uma notícia de jornal dizendo que um milionário solteirão colocara em seu testamento que seu herdeiro seria aquele que o segurasse nos braços no momento de sua morte. Adivinha? Sim, nosso Porteiro o segurou enquanto morria no banheiro do Atlantic. O filme termina com o Porteiro fazendo um banquete no restaurante do Atlantic junto com o vigia noturno do hotel (aquele que teve compaixão por ele). O homem sai distribuindo dinheiro para os funcionários, que se dobram quando ele passa. O final é clichê? Talvez, e não gosto de finais muito felizes, para ser honesta. Mas quando você conhece o Porteiro, vê que é um senhor bonachão que não faz mal a ninguém, que os vizinhos não demoram a humilhá-lo quando descobrem a verdade, e depois acompanha sua tristeza e humilhação durante o filme todo, você torce para que algo aconteça mesmo e melhore sua vida.

O título original, em alemão, é “Der letzte Mann”, ou seja, o último homem. Em inglês, “The Last Laugh”, a última gargalhada (como em português). Este é claro, mesmo antes de terminar o filme, porque você espera que ele rirá por último, ou seja, que se dará bem no final (o que acontece, e o Porteiro fica até melhor que o gerente que o prejudicou). O título alemão você entende apenas quando termina o filme. Ele é o último homem que o milionário vê antes de morrer, e é isso que muda toda a sua vida.

Murnau era um gênio mesmo.

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Bobo da corte

Tenho algumas bandas/músicos em uma lista do tipo “1001 bandas para ver antes de morrer”. Dentre elas está Schandmaul.
Essa banda formada em Munique (Alemanha) no verão de 1998 é muito peculiar. São seis músicos que tocam instrumentos que talvez não pareçam combinar muito: guitarra, acordeon, flauta, gaita de foles, bateria, hurdy-gurdy (conheço pelo nome inglês, mas também é chamado de realejo em português), baixo, violino… E o que acontece quando juntam tudo isso? Rock folk medieval germânico. Não se assuste. É bom.
A primeira música que compuseram é Teufelsweib (mulher do diabo), que você pode ouvir aqui — e foi por causa dela que me apaixonei por esses alemães. Ela tem bem a cara da banda. Se você gostar de Teufelsweib, com certeza vai curtir Schandmaul.
O nome Schandmaul (língua maliciosa, em alemão) foi escolhido no primeiro show deles, por causa de um bufão desenhado em um baralho. O bufão, ou bobo da corte, era uma figura que tinha toda a liberdade para falar mal de quem desejasse, já que, por ser considerado meio louco, não era levado muito a sério. Daí, foi um passo para chegar em Schandmaul, uma palavra depreciativa hoje fora de uso relativa a pessoas que dizem coisas consideradas rudes e ultrajantes.  E o símbolo da banda é um bobo meio sinistro.
As letras das músicas são muito bem escritas, contam histórias e falam de tudo o que sempre foi atual para a humanidade (nossa, isso foi profundo). Bem, há muitos sites com a tradução das letras para quem não fala o alemão, então dá para conhecer o conteúdo das músicas também.
Uma das que mais gosto é Grosses Wasser (ouça aqui), cuja letra fala daquele momento no qual não vale mais a pena continuar, e em que a fuga termina, quando se olha para frente e é preciso decidir ir adiante ou voltar. Já Walpurgisnacht (ouça aqui) fala sobre a festa de boas-vindas à primavera que acontece no dia 1º de maio no hemisfério norte. Essa comemoração (leia-se: festa de arromba) começou com os pagãos, mas algumas comunidades cristãs a celebram ainda hoje em honra à Santa Valburga (medo desse nome hahaha). É muito ligada à lua e à celebração de um novo tempo.
Em 2007 fui ao festival de metal Wacken (pronuncia-se “váquen”) na cidade de mesmo nome na Alemanha para vê-los ao vivo. Eles são realmente músicos e superprofissionais. Apesar de desconhecidos por aqui, na Alemanha eles têm uma verdadeira legião de fãs que lotam seus shows (um deles foi meu professor de alemão em Munique, que quase me abraçou quando eu disse despretensiosamente que amava a banda ahahaha). Tive a honra de conhecê-los pessoalmente e pegar um autógrafo. O Thomas Lindner, que é o vocalista, até me deixou pular a grade e tirar uma foto com ele (especialmente porque disse que vinha do Brasil para vê-los). Ele foi muito gente boa.

Já “converti” vários amigos brasileiros e, inclusive, minha mãe. Se quiser conhecer mais, visite o site deles (http://www.schandmaul.de/), que tem um monte de vídeos bacanas, ou Grooveshark, para ouvir suas músicas.

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Nem tudo é o que parece

Finalmente terminei de ler Freakonomics – O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta.

Esse livro foi escrito pelo economista Steven Levitt e pelo jornalista Stephen J. Dubner. Os dois aplicam estatísticas e testam teorias às vezes um pouco polêmicas para defender algum ponto de vista. Além disso, mostram como nem tudo é o que parece.

Calma, não é um livro maçante que só fala de números; tampouco busca polemizar de graça. Muito pelo contrário, é uma leitura até curiosa.

Provavelmente o capítulo mais polêmico é sobre a queda da criminalidade nos EUA na década de 1990. Segundo os autores, isso se dá por uma série de fatores, um dos quais é a liberação do aborto em alguns estados norte-americanos. É. Eles defendem que crianças que não recebem atenção, amor e educação por parte dos pais e que vivem em ambientes desestruturados (pai na cadeia, mãe muito jovem, mãe viciada em drogas, etc.) têm maior tendência à criminalidade. Portanto, as crianças que estariam em idade para cometer crimes na década de 1990 deixaram de nascer, pois adolescentes grávidas, mulheres solteiras com problemas ou família desestruturada abortaram essas crianças. Tenso, né? Mas Levitt e Dubner deixam claro que não querem incentivar políticas governamentais de controle de natalidade por aborto (o que eles admitem ser cruel), nem justificar essa forma de interrupção da gravidez. Segundo eles, isso são estatísticas e não têm qualquer objetivo além da análise em si.

Bem, outro ponto que os autores analisam é o motivo de os traficantes de crack atualmente morarem com suas mães. Daí eles contam como o aluno da Universidade de Chicago Sudhir Venkatesh se infiltrou na gangue Black Disciplines e conseguiu analisar a estrutura de uma “empresa” de tráfico de drogas. Essa parte é bem interessante, porque o universitário se enfia na gangue, quase sendo morto. Mas ele consegue ganhar certa confiança do líder e passa muito tempo entre eles e a universidade.

O livro conta que atualmente nos EUA não vale a pena traficar crack. Pois é. Segundo os autores, os traficantes dessa droga ganham muito pouco, pois o preço da cocaína foi caindo e o crack se popularizou. Com isso, os traficantes começaram a fazer concorrência de preços e então os lucros sumiram. Quem sofreu foram os pequenos traficantes, que começaram a ganhar menos. Portanto, não têm grana para morarem sozinhos – e ficam na casa da mãe.

Há coisas mais amenas no livro. Ou não.

Os autores dedicam um capítulo todo ao desejo dos pais de serem perfeitos. E colocam uma pergunta: você deixaria a pequena Mary brincar na casa dos Smith, que têm uma arma no armário, ou na dos Doe, que têm uma bela piscina no quintal? Imagino que, de cara, você possa responder que é mais seguro ficar com os Doe. Errado. Segundo Levitt e Dubner, cerca de 550 crianças com menos de 10 anos morrem afogadas nos EUA ao ano, enquanto 175 mortes de pequenos são causadas por armas de fogo.

Há um outro capítulo reservado à Ku Klux Klan, que compara o grupo a corretores de imóveis. Nele, os autores contam como Stetson Kennedy desmascara a Klan, divulgando pelo rádio códigos que seus membros usavam e informações sobre ela, desestruturando-a. O ponto é que quem detém a informação também possui o poder do medo. A Klan era bastante temida pelo sigilo do grupo e pelos códigos secretos que usava. Mas não quero falar muito sobre isso; você vai precisar ler Freakonomics.

Não são teorias da conspiração, nem ideias absurdas. Tudo é fundamentado em fatos e números. E ao ler Freakonomics percebi como somos ignorantes sobre o que nos rodeia.

É, nem tudo é o que parece.

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