Arquivo do mês: julho 2012

O homem que nunca ri

Por algum motivo desconhecido, o cinema mudo fica me arrastando de volta para perto dele.

Na tentativa de largar meu vício, na quinta-feira me proibi de ver Doctor Who e decidi ver algum filme que estivesse passando na TV.  Escolhi uma película sobre a vida de Buster Keaton que o Telecine Cult passou.

Buster Keaton era um comediante do cinema mudo, da época de Chaplin. Alguns críticos comparam-no ao intérprete de Carlitos, inclusive, mas prefiro não fazê-lo, porque cada um é muito singular.

Keaton cresceu no vaudeville, o teatro de revista do começo do século XX. Nessas atrações, os artistas faziam acrobacias, montavam cenas e faziam coisas incríveis. Buster literalmente cresceu nesse ambiente, já que seus pais eram artistas que inclusive se apresentaram com Houdini — foi ele que deu o apelido “buster” ao menino, após vê-lo rolar de uma escada e cair intacto (a palavra se referia à queda que podia machucar uma pessoa, mas também quer dizer “demolidor”). Dizem que o pequeno Buster nunca se machucou ou quebrou nenhum osso nos anos de vaudeville.

Foi essa a experiência que levou para o cinema por volta de 1917. Ele começou com comédias curtas e depois passou para longas-metragens, muitos dirigidos por ele mesmo. Keaton era incrível, fazia as coisas mais loucas em cena e não usava dublês (isso causaria angústia nos diretores de seus filmes no final de sua vida), mas suas comédias não eram exatamente pastelão, pois não levavam ao riso fácil com cenas de gosto discutível. O mais legal era que Buster não ria. Nunca ria. Tanto que era conhecido como o “grande cara de pedra” e “o homem que nunca ri”. Conta-se que um dia amigos lhe perguntaram o motivo de sempre estar sério nos filmes. Ele mesmo nunca tinha reparado nisso. Mas dizem que, nos anos no vaudeville, Buster percebeu que o público não ria se ELE risse no palco. E no cinema, seu rosto impassível causava uma impressão estranha, não sei. Aumenta a graça da cena, pois sugere que ele é um maluco obcecado, alguém com uma paciência impossível, um homem imperturbável ou mostra, como James Agee notou no seu artigo de 1949, A grande era da comédia (publicado pela Revista Serrote nº 2 do IMS), “o quanto um ser humano pode estar morto mesmo estando vivo”. Acho que a postura dos personagens de Buster é o seu maior diferencial com relação a Chaplin, que fazia homens amáveis, humildes e que transmitiam suas emoções no rosto. Keaton tinha uma comédia basicamente física, não emocional como Chaplin. Era o mais mudo do cinema mudo.

O filme que vi no Telecine Cult (que me motivou a escrever este texto), O palhaço que não ri, é bastante superficial e romanceia demais a vida de Buster. Inclusive há fatos incorretos; apesar disso, o filme é legal por mostrar como era o cinema mudo por dentro, com seus atores e diretores. Prefiro indicar o YouTube, pois há bastante coisa com Buster Keaton lá, inclusive filmes inteiros, para quem ficou curioso. Nele encontrei uma cena de Luzes da Ribalta, o único filme em que Keaton e Chaplin atuam juntos, como músicos incompetentes que se apresentam juntos (ou pelo menos tentam). Os dois já estão mais velhos nessa película de 1952 e Keaton interpreta o pianista atrapalhado (repare na cara impassível dele) e Chaplin é o violinista: http://www.youtube.com/watch?v=8Lf7bzVC38k. Além dessa cena, recomendo os filmes The Boat, Sherlock Jr. e The General. Se quiser ver outros filmes, a Wikipedia tem a filmografia completa de Keaton. Já quem quer conhecer mais sobre a comédia muda, indico a Revista Serrote nº 2, que tem o artigo que mencionei acima, entre outros.

Em tempo: fiquem atentos, porque neste mês o canal Telecine Cult vai passar vários filmes do Buster Keaton 🙂

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A Visita Cruel do Tempo

Na primeira semana de julho fui a Paraty conferir a 10ª Festa Literária Internacional. Esse ano o homenageado foi o grande Carlos Drummond de Andrade e estavam presentes alguns dos autores internacionais mais comentados. Não resisti à tentação de vê-lo.

Um desses autores é a norte-americana vencedora do Pulitzer Jennifer Egan. O último livro dela lançado no Brasil pela Intrínseca é o A Visita Cruel do Tempo. Já havia visto nas livrarias, mas com toda a falta de tempo em que ultimamente tem se resumido a minha vida, acabei não comprando antes. E me arrependi.

Com a autora na Flip, comprei esse livro e lhe pedi um autógrafo, que ela me deu entre uma mordida e outra de seu sanduíche, pois era uma da tarde e tinha diante de si uma fila imensa de fãs. Chegando em São Paulo, foi o primeiro livro que peguei para ler.

A Viagem Cruel do Tempo é sobre música, pessoas que trabalham direta ou indiretamente com música, sobre o passado recente e o futuro próximo. E a música é tão importante, que a própria Egan contou na Flip que escreveu o livro inteiro ouvindo algumas bandas antigas e outras atuais. Mais para o final, descobrimos algumas das pérolas que fizeram parte da escrita de A Viagem: Young Americans (aquela boa sonoridade gingada do David Bowie), Good Times Bad Times (incrível do Led Zeppellin), The Time of the Season (amo essa do Zombies), Foxey Lady (clááássica do Jimi Hendrix) e Roxanne (tão final dos anos 70 do Police), entre outras.Para fazer jus ao livro, estou ouvindo essas mesmas músicas ao escrever este post.

Os personagens são os mais variados possíveis. Um produtor musical que vive profundamente o estilo “sexo, drogas e rock’n’roll”, uma cleptomaníaca que passou anos vivendo em cortiços em Nápoles, uma RP, cinco adolescentes da década de 70, punks, uma menininha de 9 anos que chama a mãe pelo primeiro nome, um jornalista preso por tentar estuprar uma estrela do cinema, um ditador sanguinário de algum regime oriental. E cada capítulo parece autônomo, pois é dedicado a um personagem, mas, não, não é como a série Game of Thrones, de George R. R. Martin. Em A Viagem, há diversos “protagonistas”, e a alguns é emprestada voz, a outros, um narrador onisciente. No início, você acha que Egan quer traçar um panorama das vidas ligadas à música, mas, no final do livro (sem spoiler), você consegue entender a rede de relações que unem essas personagens aparentemente desconectadas.

Mas descobrimos que o verdadeiro protagonista, no final das contas, é o tempo, que inclusive aparece no título. Ao passar das páginas, vemos o que ele “fez” com as personagens, como levou algumas à decadência (moral, corporal) e outras, à redenção.

Só um adendo: a Intrínseca teve a feliz ideia de chamar o quadrinista Rafael Coutinho para fazer a capa. O trabalho dele ficou incrível, captou com perfeição a ideia do livro, de biografias interpostas, com traços de rostos misturados, e aquele clima meio rock’n’roll de caos visual. Amei.

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