O homem que nunca ri

Por algum motivo desconhecido, o cinema mudo fica me arrastando de volta para perto dele.

Na tentativa de largar meu vício, na quinta-feira me proibi de ver Doctor Who e decidi ver algum filme que estivesse passando na TV.  Escolhi uma película sobre a vida de Buster Keaton que o Telecine Cult passou.

Buster Keaton era um comediante do cinema mudo, da época de Chaplin. Alguns críticos comparam-no ao intérprete de Carlitos, inclusive, mas prefiro não fazê-lo, porque cada um é muito singular.

Keaton cresceu no vaudeville, o teatro de revista do começo do século XX. Nessas atrações, os artistas faziam acrobacias, montavam cenas e faziam coisas incríveis. Buster literalmente cresceu nesse ambiente, já que seus pais eram artistas que inclusive se apresentaram com Houdini — foi ele que deu o apelido “buster” ao menino, após vê-lo rolar de uma escada e cair intacto (a palavra se referia à queda que podia machucar uma pessoa, mas também quer dizer “demolidor”). Dizem que o pequeno Buster nunca se machucou ou quebrou nenhum osso nos anos de vaudeville.

Foi essa a experiência que levou para o cinema por volta de 1917. Ele começou com comédias curtas e depois passou para longas-metragens, muitos dirigidos por ele mesmo. Keaton era incrível, fazia as coisas mais loucas em cena e não usava dublês (isso causaria angústia nos diretores de seus filmes no final de sua vida), mas suas comédias não eram exatamente pastelão, pois não levavam ao riso fácil com cenas de gosto discutível. O mais legal era que Buster não ria. Nunca ria. Tanto que era conhecido como o “grande cara de pedra” e “o homem que nunca ri”. Conta-se que um dia amigos lhe perguntaram o motivo de sempre estar sério nos filmes. Ele mesmo nunca tinha reparado nisso. Mas dizem que, nos anos no vaudeville, Buster percebeu que o público não ria se ELE risse no palco. E no cinema, seu rosto impassível causava uma impressão estranha, não sei. Aumenta a graça da cena, pois sugere que ele é um maluco obcecado, alguém com uma paciência impossível, um homem imperturbável ou mostra, como James Agee notou no seu artigo de 1949, A grande era da comédia (publicado pela Revista Serrote nº 2 do IMS), “o quanto um ser humano pode estar morto mesmo estando vivo”. Acho que a postura dos personagens de Buster é o seu maior diferencial com relação a Chaplin, que fazia homens amáveis, humildes e que transmitiam suas emoções no rosto. Keaton tinha uma comédia basicamente física, não emocional como Chaplin. Era o mais mudo do cinema mudo.

O filme que vi no Telecine Cult (que me motivou a escrever este texto), O palhaço que não ri, é bastante superficial e romanceia demais a vida de Buster. Inclusive há fatos incorretos; apesar disso, o filme é legal por mostrar como era o cinema mudo por dentro, com seus atores e diretores. Prefiro indicar o YouTube, pois há bastante coisa com Buster Keaton lá, inclusive filmes inteiros, para quem ficou curioso. Nele encontrei uma cena de Luzes da Ribalta, o único filme em que Keaton e Chaplin atuam juntos, como músicos incompetentes que se apresentam juntos (ou pelo menos tentam). Os dois já estão mais velhos nessa película de 1952 e Keaton interpreta o pianista atrapalhado (repare na cara impassível dele) e Chaplin é o violinista: http://www.youtube.com/watch?v=8Lf7bzVC38k. Além dessa cena, recomendo os filmes The Boat, Sherlock Jr. e The General. Se quiser ver outros filmes, a Wikipedia tem a filmografia completa de Keaton. Já quem quer conhecer mais sobre a comédia muda, indico a Revista Serrote nº 2, que tem o artigo que mencionei acima, entre outros.

Em tempo: fiquem atentos, porque neste mês o canal Telecine Cult vai passar vários filmes do Buster Keaton 🙂

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