Arquivo do mês: agosto 2012

Magia e outras coisas

Cena do filme Viagem à Lua, de Georges Méliès

Estava pensando nestes dias, visitei a incrível exposição Georges Méliès, O Mágico do Cinema no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e nem contei para vocês.

Apesar do meu interesse (e amor) pelo cinema mudo, confesso que não sabia quase nada sobre esse francês. Shame on me, eu sei. E fiquei extasiada com a exposição do MIS. O homem era, na verdade, um multi-homem: desenhista, mágico, decorador, diretor de teatro, ator, técnico, produtor, diretor e distribuidor dos seus mais de 500 filmes. E esse aspecto de Méliès fica muito evidente no MIS, por meio dos inúmeros rascunhos de figurinos, esquemas de cenários e maquinário, planos de efeitos especiais, o pouco material (original, claro) salvo e diversos filmes que ficam passando ininterruptamente no Museu.

Um deles, A Conquista do Polo (1912), conta a história de exploradores cujo avião cai no Polo. Eles logo se deparam com um gigante que sai do chão e tenta atacá-los. Fiquei parada, em pé, olhando aquilo. Não se esqueça, estamos no comecinho do cinema, no início do século XX, e George Lucas estava muito longe de nascer. Eu, mulher do século XXI, com meu iPod e celular a tiracolo, preocupada com o trânsito, dona de minha vida, incomodada com aquela imagem. Méliès era tão mágico (e no sentido daquele que domina as artes maravilhosas), que achei aquilo real a ponto de me transportar para o filme e sentir o choque das personagens. Nessa mesma sala, encontrei o esquema criado pelo diretor para aquele boneco gigante. Não vou contar, vá lá conferir você mesmo.

O Museu também exibe A Viagem à Lua (1902), o mais conhecido filme desse francês e que inspirou o clipe Tonight, Tonight do Smashing Pumpkins (só me dei conta disso ao assistir a película francesa). Aqui, o MIS fez algo superbacana: criou uma nave espacial parecida com a usada em A Viagem e exibe o filme dentro dela. Amei a ideia.

George Méliès em sua loja

Mas a vida desse homem não foi só sucesso. Chegou uma hora em que as pessoas se cansaram dos efeitos especiais de seus filmes e ele acabou indo à falência. Seu lindo estúdio de vidro (juro, de vidro, e tem fotos dele. A luminosidade das cenas era controlada por venezianas) se despedaça (sem metáfora aqui). Méliès acaba abrindo uma lojinha de brinquedos na estação de trem. E a foto dele ali encerra a exposição (deixando-me melancólica, admito). Sim, essa é uma das primeiras cenas de A Invenção de Hugo Cabret, filme incrível com Sir Ben Kingsley no papel desse cineasta faz-tudo. Quando vi essa cena no filme, meus olhos se encheram de lágrimas. Reproduziram-na lindamente. Ufa.

Hugo Cabret, aliás, faz uma grande homenagem ao começo do cinema e a Georges Méliès. Mas se você não curte cinema mudo, não importa. A atuação dos atores e a fotografia do filme não vão te decepcionar, garanto.

Bom, se você gosta de cinema, mágica e de efeitos especiais, veja a exposição no MIS (que fica na Av. Europa, 158), que vai até 16 de setembro e custa humildes R$ 4,00, e assista o filme em seguida. Depois me conte 😉

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A espiã que não gosta de poesia

Serena não é um livro sobre espionagem.

OK, é. Mais ou menos, na verdade. O novo livro de Ian McEwan lançado na Flip deste ano (antes mesmo de ser publicado na Inglaterra, país de origem do escritor) conta a vida de Serena Frome, uma bela matemática formada em Cambridge (sem mérito) apaixonada por literatura (muitas vezes barata) que consegue um emprego (bem ruinzinho) no MI5, o serviço de inteligência britânico. Como você pode perceber, sua vida tem vários elementos de suposto glamour que simplesmente não funcionam assim. Tudo é bastante ordinário, tanto que consegue o emprego por indicação de um professor de sua universidade com quem tem um caso e que lhe ensina sobre política internacional por causa da entrevista do MI5. Serena começa a se interessar por assuntos mais densos, mas é curiosa a forma com a qual lida com eles, como se tudo fosse uma brincadeira distante dela.

Pois estamos em 1972, época da Guerra Fria, de uma Grã-Bretanha diante de uma séria crise econômica e abalada com os ataques do IRA, o Exército Republicano Irlandês. A nossa protagonista narra em primeira pessoa seu tempo no MI5. Seu trabalho basicamente era de uma secretária mal remunerada, até que, por seu gosto por literatura, é indicada para trabalhar na operação Tentação. Seu objetivo era financiar (por meio de uma fundação de fachada, mas com dinheiro público) escritores britânicos afinados com a ideologia ocidental (lembre-se que estamos na Guerra Fria, e havia uma “guerra de ideias” entre os países capitalistas e a URSS). Mas ela se envolve com Tom Healy, o jovem professor universitário designado a Serena na Tentação – o que não torna o livro em um romancinho fraco, calma.

Bom, mas não quero mais falar sobre o enredo.

Comecei dizendo que Serena não é um livro de espionagem. Porque não é mesmo. Então, se você espera algo à la James Bond e companhia, é melhor procurar outro. Pois aqui a literatura é o ponto central, assim como a música era em A Visita Cruel do Tempo (leia essa resenha aqui). E o tempo todo existe um conflito entre realidade e ficção, vida e literatura. Mas o engraçado é Serena ser liberal quanto a suas leituras. Contra todas as expectativas. Daí você percebe que foi muito duvidoso colocarem justamente ela na operação Tentação, alguém não muito atualizada sobre os conflitos político-ideológicos do momento, sendo que o foco da missão era fortalecer essa “guerra ideias” a favor do capitalismo. Nesse momento, confesso ter sentido que ia dar tudo errado.

Algo que me chamou atenção é o nome da missão, lembra? Tentação. Tentação de escrever sobre o outro lado da Cortina de Ferro? Ou tentação de ser pago por 3 anos com dinheiro público (detalhe que os escritores desconhecem, claro) para não trabalhar, apenas escrever exaltando o belo sistema capitalista? Pois cai muito bem para a história pessoal de Serena, que é tentada a arriscar seu disfarce ao ter um caso com Healy. Só que, depois de uma pesquisa, descobri que o nome da missão no original (que é o título do livro em inglês) é “sweet tooth”. Essa é uma expressão que se refere a quem é obcecado por doces. Pensou em uma explicação para o nome? Bom, sei que provavelmente não compraria o livro logo de cara se o nome em português fosse algo como “Tara por doces”. Ou mesmo se fosse “Tentação”. Parece literatura barata ahahahaha.

Na Flip, um brasileiro perguntou e Ian McEwan se Serena também manipularia o leitor, como seus livros anteriores. Achei engraçado aquilo, mas quando terminei esse lançamento, entendi. Não darei spoiler, pode deixar. Mas o fato é que você lê Serena inteiro acreditando em algo, mas a verdade é outra. O autor espalha algumas dicas muito singelas ao longo do texto, mas eu não peguei a ideia.  Deixe um comentário caso tenha lido esse livro e descoberto a verdade antes do final.

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