A espiã que não gosta de poesia

Serena não é um livro sobre espionagem.

OK, é. Mais ou menos, na verdade. O novo livro de Ian McEwan lançado na Flip deste ano (antes mesmo de ser publicado na Inglaterra, país de origem do escritor) conta a vida de Serena Frome, uma bela matemática formada em Cambridge (sem mérito) apaixonada por literatura (muitas vezes barata) que consegue um emprego (bem ruinzinho) no MI5, o serviço de inteligência britânico. Como você pode perceber, sua vida tem vários elementos de suposto glamour que simplesmente não funcionam assim. Tudo é bastante ordinário, tanto que consegue o emprego por indicação de um professor de sua universidade com quem tem um caso e que lhe ensina sobre política internacional por causa da entrevista do MI5. Serena começa a se interessar por assuntos mais densos, mas é curiosa a forma com a qual lida com eles, como se tudo fosse uma brincadeira distante dela.

Pois estamos em 1972, época da Guerra Fria, de uma Grã-Bretanha diante de uma séria crise econômica e abalada com os ataques do IRA, o Exército Republicano Irlandês. A nossa protagonista narra em primeira pessoa seu tempo no MI5. Seu trabalho basicamente era de uma secretária mal remunerada, até que, por seu gosto por literatura, é indicada para trabalhar na operação Tentação. Seu objetivo era financiar (por meio de uma fundação de fachada, mas com dinheiro público) escritores britânicos afinados com a ideologia ocidental (lembre-se que estamos na Guerra Fria, e havia uma “guerra de ideias” entre os países capitalistas e a URSS). Mas ela se envolve com Tom Healy, o jovem professor universitário designado a Serena na Tentação – o que não torna o livro em um romancinho fraco, calma.

Bom, mas não quero mais falar sobre o enredo.

Comecei dizendo que Serena não é um livro de espionagem. Porque não é mesmo. Então, se você espera algo à la James Bond e companhia, é melhor procurar outro. Pois aqui a literatura é o ponto central, assim como a música era em A Visita Cruel do Tempo (leia essa resenha aqui). E o tempo todo existe um conflito entre realidade e ficção, vida e literatura. Mas o engraçado é Serena ser liberal quanto a suas leituras. Contra todas as expectativas. Daí você percebe que foi muito duvidoso colocarem justamente ela na operação Tentação, alguém não muito atualizada sobre os conflitos político-ideológicos do momento, sendo que o foco da missão era fortalecer essa “guerra ideias” a favor do capitalismo. Nesse momento, confesso ter sentido que ia dar tudo errado.

Algo que me chamou atenção é o nome da missão, lembra? Tentação. Tentação de escrever sobre o outro lado da Cortina de Ferro? Ou tentação de ser pago por 3 anos com dinheiro público (detalhe que os escritores desconhecem, claro) para não trabalhar, apenas escrever exaltando o belo sistema capitalista? Pois cai muito bem para a história pessoal de Serena, que é tentada a arriscar seu disfarce ao ter um caso com Healy. Só que, depois de uma pesquisa, descobri que o nome da missão no original (que é o título do livro em inglês) é “sweet tooth”. Essa é uma expressão que se refere a quem é obcecado por doces. Pensou em uma explicação para o nome? Bom, sei que provavelmente não compraria o livro logo de cara se o nome em português fosse algo como “Tara por doces”. Ou mesmo se fosse “Tentação”. Parece literatura barata ahahahaha.

Na Flip, um brasileiro perguntou e Ian McEwan se Serena também manipularia o leitor, como seus livros anteriores. Achei engraçado aquilo, mas quando terminei esse lançamento, entendi. Não darei spoiler, pode deixar. Mas o fato é que você lê Serena inteiro acreditando em algo, mas a verdade é outra. O autor espalha algumas dicas muito singelas ao longo do texto, mas eu não peguei a ideia.  Deixe um comentário caso tenha lido esse livro e descoberto a verdade antes do final.

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5 Comentários

Arquivado em Leituras

5 Respostas para “A espiã que não gosta de poesia

  1. Fiquei intrigada agora. Eu gosto de histórias de espionagem sem o glamour hollywoodiano. E ainda tem como foco a literatura…
    Com tanta dica de livros bons, minha fila de leitura não termina nunca!
    bjo

  2. Renata

    Eu li Serena, mas como vi (uma parte) da palestra na FLIP, eu ficava tentando adivinhar quem seria a pessoa que teria feito o que o Ian falou. Eu ficava intrigada com certos detalhes que só teriam sido dados pela narradora, mas no fim eu compreendi que ela deve ter rabiscado e acrescentado vários trechos naquele embrulho que deixaram pra ela. Bom, não posso dizer muita coisa, você sabe, senão entrego a história.
    Outro aspecto que prendia minha atenção durante a leitura era o fato de ela estar na posição de uma mulher “moderna e independente”, mas nunca de fato ter tido controle sobre suas escolhas (pelo menos até o momento em que a história é narrada), o que de certa forma gera uma submissão e mostra como foi difícil para as mulheres chegarem à posição de hoje.
    Sobretudo, o estilo de narração, o vocabulário e as construções das frases são muito bons, eu não conhecia a literatura do Ian. Achei um alívio saber (melhor, ter a certeza renovada) de que ainda há boa literatura nos dias de hoje, em que a especulação de best-sellers e as adaptações para o cinema visando à arrecadação da bilheteria tornam as nossas escolhas um tanto duvidosas, especialmente a nossa capacidade de julgamento do que é boa literatura.

    • Giovanna R.

      Pois é, Renata, também ficou muito forte em mim essa impressão de a protagonista ser, de uma forma ou de outra, controlada. Tanto que ela logo na adolescência desiste do sonho de cursar Letras por causa da pressão da mãe, que quer sua filha formada em uma profissão de respeito entre os homens.
      Eu ouvi algumas críticas sobre o livro, mas acho que fiquei como você, feliz de gastar tantas horas em páginas que valiam a pena ser lidas 🙂
      Beijos e obrigada pelo comentário!

  3. Oi, Gi!
    Voltei só para dizer que terminei de ler Serena esta semana e que também fui enganada pelo autor. Mesmo depois de ter lido sua resenha e outras alertando para o final surpreendente, não consegui antever o desfecho. Simplesmente incrível!
    bjo

    • Giovanna R.

      Mi, que legal que você também foi enganada! Ahahahaha
      O autor é bom mesmo, né? Eu li outro dele, mas ainda vou resenhar aqui. Achei Serena muito mais surpreendente do que esse, Amsterdam.
      Beijos!

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