Até que ponto vai um homem

Estou louca para escrever sobre um livro que terminarei de ler em breve. Mas por enquanto vou me segurar.

Desculpe-me a ausência. Acho que tive um bloqueio criativo. Porém, não deixei de ir a exposições (aliás, a do Caravaggio aqui em São Paulo é sensacional, apesar de pequena), ler livros e revistas e ver filmes e séries.

E não vou reclamar, porque a inspiração voltou. E quem a trouxe de volta para mim foi um químico doente e desenganado chamado Sr. White. Sim, estou falando de Breaking Bad, série norte-americana que já está na quinta temporada.

Walter White da série Breaking Bad

Para quem não conhece, Breaking Bad é sobre um químico com tudo para dar certo, mas que se torna um professor de colégio falido e pouco respeitado pelos alunos. Além disso, para complementar a renda, ele trabalha em um posto, muitas vezes lavando os carrões dos moleques. Bom, ele descobre que tem câncer de pulmão e pouco tempo de vida. Para piorar, sua esposa de quase 40 anos de idade está grávida do segundo filho (eles têm um adolescente de 17 anos com paralisia cerebral), ou seja, é possível que ele nem venha a conhecer o bebê. Em um beco sem saída, Walter White resolve se tornar produtor de metanfetamina e se associar a um ex-aluno traficante.

A série é bastante forte. O Sr. White e o tal ex-aluno, Jesse Pinkton, quase são mortos por traficantes concorrentes em diversos momentos. A esposa do primeiro começa a achar que ele tem uma amante, devido aos seus sumiços para produzir a droga. A cunhada é cleptomaníaca e o cunhado trabalha no Departamento de Narcóticos (a ironia maior). O filho não se conforma com sua postura diante da doença, de se entregar.

Acho que o que mais me atraiu em Breaking Badé ver alguém que sempre foi um cidadão-modelo, um homem correto e honesto, começar a chutar o balde (tema de Um Dia de Fúria, de 1993, com Michael Douglas). Ele incendeia o carro de um cara arrogante, que destrata os outros, e agride um rapaz que tira sarro de seu filho, por sua fala mole e andar de muletas (ele tem PC, lembra?). É o símbolo do homem levado ao seu limite. E diante da morte iminente, ele só pensa em guardar dinheiro para proporcionar um futuro relativamente confortável para sua família, custe o que custar. Mas fique claro que em nenhum ponto da narrativa Walt parece estar se vingando do sistema, de Deus, do mundo ou do que você quiser. Agora, para Walt, o fator público é irrelevante diante do privado, e não há uma questão ética (ele nem parece se preocupar com esse ponto — apenas produz a droga, independentemente de isso ser certo ou não). O químico, inclusive, passa a participar das negociações para a venda da met para os traficantes, porque vê que Jesse não tem habilidade para isso, e sua necessidade de acumular dinheiro é imediata. Ele faz tratamento, mas não sabe até quando vive.

Jesse e Sr. White

O protagonista é interpretado por Bryan Cranston, ator que fez o pai dos meninos terríveis do seriado Malcolm in the Middle. Quem via essa série dos anos 2000 (como eu) não consegue enxergar Hal, aquele pai maluco, em Bryan. Ele se transformou totalmente em Walter White, nem parece o mesmo ator dessa comédia que ganhou nove Emmys.

Aliás, uma pena Bryan não ter ganhado nenhum Emmy neste ano, sua atuação é incrível. Cada ruga em seu rosto parece ter sido feita pelos anos de uma vida difícil como professor de colégio. Mas não fiquei tão desapontada, porque Aaron Paul, que faz Jesse Pinkman, ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante em série dramática.

Mais uma série em que me viciei.

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6 Comentários

Arquivado em Séries

6 Respostas para “Até que ponto vai um homem

  1. Muito legal este tema, Gi. Acho que não precisamos ir muito longe, pra ver vários exemplos de pessoas indo até as últimas consequências. Creio que a linha que separa a “normalidade” da “loucura” é muito tênue.

    Toda vez que vejo alguém em uma situação limite, como por exemplo alguém que tenha cometido uma atrocidade, ou um morador de rua que um dia teve uma vida normal, fico me perguntando quais foram os passos que o levaram até aquele momento. Na maioria, senão sempre, não há conclusão, pois as variáveis são muitas, e cada um responde de forma singular ao que a vida lhe traz. Tem uma frase atribuída ao Sartre (procurei no Dualib mas não encontrei) que diz “A questão não é o que fazem conosco, mas sim o que fazemos com o que fazem conosco”. Creio que ela diz bastante.

    Beijos
    P.S.: Estou curioso pra saber que livro é este :p

    • Giovanna R.

      Leandro,
      Sem querer ser clichê, mas você tem razão, não podemos julgar as pessoas sem ao menos nos colocarmos na pele delas. Não conseguimos prever qual será a nossa atitude diante de uma situação limite, só vivendo-a mesmo, para saber.
      A frase está, sim, no app, mas com outra tradução: “Agora não importa o que fizeram de ti, mas o que tu vais fazer com o que fizeram de ti”.
      Ah, terminei o livro. Em breve, publico minha resenha.
      Obrigada pelo comentário! 🙂

  2. Henrique J. Pereira

    40 dias.
    960 horas.
    57600 minutos.
    3456000 segundos.
    Essas são as formas que encontrei de dizer quanto tempo seus fãs ficaram esperando um novo post. Prometa nunca mais atrasar tanto, por favor. Rsrsrs.

    • Giovanna R.

      Pelamordedeus, foi tudo isso? Você é bom com números, hein rs.
      Como eu falei no post, faltava inspiração, não assunto. Tanto que agora estou com coisa acumulada para escrever aqui 😛
      Obrigada pelo comentário (e pelos cálculos) 😉

  3. Essa série é bem elogiada e, felizmente, não comecei a acompanhar, pois tenho certeza de que ficaria viciada (trocadilho infeliz). Me lembra Weeds (nessa sim eu viciei), mas sem a pegada do humor.
    Ah… quando você fez o post do Méliès eu achei que já estivesse para acabar a exposição. Ainda bem que me enganei e consegui visitar. Realmente, valeu muito a pena!
    bjo

    • Giovanna R.

      Pois é, Michelle, eu demorei para assistir porque sabia que me viciaria facilmente. É bem dramática, e isso já é motivo para eu adorar rs
      Que bom que você curtiu a expo sobre o Méliès. Acabei indo mais uma vez, no último dia.
      Beijos!

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