Ah, Werther

Werther Theatro S. Pedro

No início do mês, dia 2 de dezembro, fui com minha amiga Renata assistir a ópera Werther, de Massenet. Se você não entende ou não curte ópera, não tem problema. Mas dê uma chance.

Pois, sim, a bela Werther é baseada na obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, do mestre alemão Goethe. Para quem não conhece a história, Werther é um jovem que se apaixona por Charlotte, mas com aquela paixão louca e tempestuosa que os personagens do romantismo alemão bem sabiam expressar. O problema é que não pode ser correspondido pela moça, que já está prometida a outro. Mas a peculiaridade desse livro de 1774 é ser um romance epistolar: é construído a partir de cartas escritas por Werther. Peculiar porque (sem querer dar spoiler, mas…) ele se mata no final. O efeito prático desse desfecho sobre o público da época é que muitos leitores seus se mataram. De verdade.

Mas não quero falar do livro. Leiam-no, ou consultem uma tese de mestrado incrível que tive a honra de revisar, Subjetividade e Experiência em Die Leiden des jungen Werthers e Wilhelm Meisters theatralische Sendung de J. W. Goethe, de Felipe Vale da Silva (FFLCH-USP, 2012).

A ópera de Massenet apresenta algumas diferenças em relação ao livro, claro. Uma das que mais senti foi o momento em que Werther se identifica (romanticamente) com Charlotte. No livro, eles estão em um baile, ela olha a tempestade pela janela e diz, simplesmente, “Klopstock!” (poeta alemão da época de Goethe admirado por sua geração). É um momento muito mágico – como quando você acabou de conhecer uma pessoa e ela diz gostar de uma banda que você achava ser o único fã do planeta. Já na ópera, Klopstock é celebrado pelo pai de Charlotte.

Werther no São Pedro

A montagem feita no Theatro São Pedro (SP) foi bastante cuidadosa, enfatizando a relação da história com a Natureza por meio do cenário, que representava o passar das estações. Havia longas cortinas translúcidas que pendiam do teto e faziam as vezes de paredes ou pilares. Em um momento em que Werther canta que a morte é só um atravessar de cortina, foi incrível quando o tenor foi para trás do tecido e cantou de lá. Lindo.

Mas e os cantores? Sim, os cantores. Werther foi encarnado pelo apaixonado (e apaixonante) Fernando Portari. Dos tenores que conheço na ativa no Theatro São Pedro e no Municipal, achei uma boa escolha para o papel. Portari chorou e caiu de joelhos no chão. Tudo o que meu Werther faria. Bem, não fiquei particularmente apaixonada pela Charlotte, Luiza Francesconi, mas por Sophia, interpretada por Gabriella Pace, tão doce.

Se o espectador não derramara uma lágrima sequer durante os 3 primeiros atos, não passou ileso do ato final (especialmente se era um apaixonado por Goethe como eu). No momento em que Werther morre diante de Charlotte, ele “sai” do corpo e o que vemos (sim, estou arrepiada de lembrar. Sou uma rata boba de Teatro) é Fernando Portari sair de trás das cortinhas translúcidas vestido com trajes da época do mestre alemão (apesar dessa montagem da ópera ter como ambiente o começo do século XX). Aquele momento em que você cobre a boca com as mãos. Então me lembrei das casas de nascimento e de morte de Goethe. Em seu lar em Weimar, há um quadro na parede de um dos cômodos com sua silhueta, parecida com a de Portari na cena derradeira da ópera. Achei uma homenagem sensível e imaginativa. Mesmo sabendo que no livro Werther morre, no fundo torci para que sobrevivesse, pois agora me doeu mais a sua morte.

Quando a ópera terminou, os cantores principais surgiram de trás da cortina vermelha com o semblante grave que a cena exigia. Bravos, bravíssimos, palmas, caminho de volta para casa, aglomerações, garoa. E aquele sabor agridoce me acompanhando por um ou dois dias.

(P.S.: se ficou pelo menos curioso para ouvir a ópera, o Grooveshark tem um álbum com Andrea Bocelli que você pode acessar aqui)

(P.S.2: desculpem-me as poucas referências ao livro, mas ele está emprestado…)

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2 Comentários

Arquivado em Leituras, Música

2 Respostas para “Ah, Werther

  1. Renata

    Eu sempre recomendei que lessem Goethe, depois passei a recomendar a ópera. Agora, recomendo este post também.

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