Arquivo do mês: janeiro 2013

Poesia do Oriente

Numa noite dessas, peguei o Poemas do incrível (e simpático) poeta sírio-libanês Adonis, publicado pela Companhia das Letras, para alegrar a vida.

Separei uns versos do belo “Guia para viajar pelas florestas do sentido” para vocês. É um poema publicado no livro de 1988, Índice das ações do vento. São como que adivinhas.

Espero que vocês gostem!

 

“O que é o vento?

alma que não quer

habitar o corpo.

 

O que é o anoitecer?

discurso de despedida.

 

O que é a memória?

casa habitada só

por coisas ausentes.

 

O que é a língua?

trem

que ao mesmo tempo

é caminho, viagem, chegada.”

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Moonrise Kingdom

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Enfim, o primeiro post de 2013!

Tive a oportunidade de ver Moonrise Kingdom, o novo filme do Wes Anderson (diretor dos aclamados Os Excêntricos Tenenbaums Viagem a Darjeeling, que admito não ter visto. Ainda), indicado para o Oscar de Melhor Roteiro Original de 2013.

Sabe quando você não está com vontade de assistir nada pesado ou complexo demais? Esse filme é exatamente para esse momento (e me veio em boa hora, depois de ver o grave O Homem que Não Vendeu Sua Alma).

É a fábula de um escoteiro órfão (Sam) e de uma garota solitária e meio estourada (Suzy) que começam a trocar cartas e decidem fugir. Apesar de ele ser bastante normal, não tem amigos, e sua família adotiva não quer recebê-lo de volta. Já ela é a filha mais velha de uma família que a considera problemática. Elementos perfeitos para um dramalhão. Mas se é isso o que você procura agora, esqueça. Porque o filme de Anderson é outra coisa.

A narrativa é bem-humorada, mesmo com esse histórico de disfuncionalidade das crianças. As personagens chegam a ser caricatas como em um conto infantil. Tem o Bill Murray (siiiim, ele, o homem que só faz filmes inesquecíveis) no papel do pai da menina, um advogado que parece estar trabalhando o tempo todo; Bruce Willis como o bom policial de cidade pequena que lidera a busca do casalzinho e Edward Norton no papel de chefe dos escoteiros (daqueles bem metódicos, que adoram tudo em ordem).

As crianças se conhecem em uma apresentação da ópera A Arca de Noé, de Benjamin Britten, na igreja da cidade, em que Suzy participa como corvo (papel que lhe é muito adequado). Sam entra no camarim das meninas, vê a garota com a fantasia, e é amor à primeira vista.

Moonrise Kingdom posterSe leio a resenha de um filme com crianças e me aparece “então, eles descobrem o amor/sexo”, admito que fujo, porque me parece um argumento de quinta categoria para alguém ver um filme. Ainda bem que não li nada sobre Moonrise Kingdom antes de assisti-lo. Porque, quando os dois fogem, acabam tendo um envolvimento mais romântico. Mas antes que você pense “argh, mas são crianças” (como eu geralmente faço nesses casos), a abordagem é bem inocente e deixa a história mais interessante, porque Suzy e Sam agora decidem que querem ficar juntos (bem, não que eles tenham muito a perder, com a rejeição da família adotiva dele e a indiferença da família da menina).

O visual da película é muito bonito. As cores têm forte presença, a começar pela casa de Suzy, que é vermelha. Aliás, tudo ligado a ela é bem colorido: sua maleta amarela, o toca-discos portátil azul, o vestido rosa. A fotografia é quente, exceto quando chega a tempestade na ilha em que se passa a história.

A trilha é ótima, mais voltada para a música clássica, com Leonard Bernstein e a Filarmônica de Nova York e Britten. Aliás, bacana o diretor dar destaque ao compositor inglês, pois agora em 2013 é comemorado o centenário de seu nascimento.

Uma coisa curiosa sobre o filme é que Suzy sempre carrega consigo um binóculo. Sam pergunta o motivo, e ela simplesmente diz “Acho que é para ver mais de perto o que está longe de mim”. 🙂

Outro ponto é o narrador, que aparece apenas no começo e no final. Ele não tem nome e nunca ficamos sabendo quem é. Quem também não tem nome é a Serviço Social, responsável pelo caso de Sam. Ela sempre é chamada de “Serviço Social”, inclusive nos créditos de Moonrise Kingdom, totalmente desumanizada, pela posição que ocupa na história (e na sociedade) de decidir o destino de um garoto abandonado como se fosse mais um número nas estatísticas.

É uma fábula, mas a narrativa não é infantilizada. É bonita, bem engraçada e vale a pena ver Bill Murray, Edward Norton e Bruce Willis juntos em um filme tão diferente do que eles geralmente fazem.

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