Violência, Darwin e livros usados

Capa de Passageiro do Fim do DiaToda vez em que decido escrever um artigo, coloco música. Mas desta vez, o silêncio é merecido.

Acabei de ler Passageiro do Fim do Dia, do escritor e tradutor carioca Rubens Figueiredo. E o que restou foi um incômodo e, ao mesmo tempo, admiração pelo talento desse autor.

O livro, de pouco menos de 200 páginas, acompanha uma viagem de ônibus de Pedro do centro de uma cidade grande até o Tirol, bairro pobre em que a namorada, Rosane, mora.

Apesar de se tratar de uma viagem, nosso olhar é pouco direcionado para fora, para a paisagem poeirenta do caminho. Acompanhamos as lembranças e os pensamentos de Pedro, que percorre os eventos de seu passado e suas impressões sobre a vida à volta.

Há quatro pontos centrais nesse passeio pela mente de Pedro:

– a lembrança de quando foi pisoteado por um cavalo, ao ficar no meio de uma briga entre ambulantes e guardas há alguns anos;

– Rosane, sua família e conhecidos, seu corpo ossudo e seus planos;

– um livro de Darwin que ele carrega na mochila, contando a viagem do cientista à região onde hoje fica a cidade em que Pedro mora;

– o sebo especializado em livros jurídicos que o rapaz tem no centro da cidade.

Todas as reflexões e pensamentos de Pedro partem basicamente desses pontos e se estendem para outras coisas, muitas vezes se interligando. Um fator comum entre todos eles é a violência, que parece ser a coadjuvante do livro.

Rosane vive nesse bairro periférico bastante pobre, sem infraestrutura e assolado pela violência. Pense em um bairro desse tipo da sua cidade e você terá o Tirol, local que abriga desde trabalhadores com poucas perspectivas a traficantes de drogas e matadores de aluguel. Por isso, todas as lembranças que Rosane têm (e que são evocadas por Pedro, porque enxergamos tudo somente a partir de seus olhos) são ligadas à violência: o menino esfarrapado e meio animalizado sentado no meio-fio quando Pedro e Rosane passam; a amiga dela que perdeu o bebê aos 17 anos por causa de um tiro acidental de um ladrão; o amigo do pai de Rosane, o guarda-vidas, que desistiu da carreira militar em razão dos sucessivos abusos que sofria dentro do quartel à época da ditadura militar.

Darwin aparece repetidamente como um personagem secundário da trama. No dia em que Pedro tem o calcanhar pisoteado pelo cavalo da polícia, em meio à confusão, ele vê um livro sobre a viagem do naturalista inglês ao Brasil sendo destroçado na correria. Coincidentemente, anos depois, um ex-juiz habitué de seu sebo encontra o livro em sua lojinha e comenta que a introdução daquela edição era muito boa. Pedro pega o livro e começa a lê-lo no caminho para o Tirol. O que mais o impressiona (eventos que sempre voltam à narrativa) são duas cenas presenciadas por Darwin: o embate entre uma vespa e uma aranha, e o escravo que conduz o cientista em um barco e se assusta quando ele levanta a mão, achando que o inglês ia agredi-lo.

Em seu sebo, Pedro recebe a visita de muitos advogados, já que o seu foco são livros jurídicos. Lá acontece uma cena aparentemente banal, mas que achei carregada de significado.

Há uma lan house do outro lado da rua, em que dois meninos de classe média ficam entretidos no computador com um jogo muito violento (que parece ser o Grand Theft Auto) e são observados por garotos de rua. Os meninos com uniforme escolar parecem jogar sempre, porque conhecem os cheat codes e sabem o que fazer para conseguir pontuações altas (o que inclui agir com frieza e matar sem motivo). O interessante é o contraste entre a realidade dos meninos de classe média (do conforto, sendo o jogo uma diversão, ficção) e dos garotos de rua (a violência é algo trivial, e não parecem saber a diferença entre certo e errado).

Passageiro do Fim do Dia recebeu o prêmio São Paulo de literatura em 2011, e não é por menos. Virei fã do Rubens Figueiredo escritor, pois já admirava o tradutor, com suas traduções bem trabalhadas. 

E não dá para largar esse livro. Ele não tem capítulos, é texto corrido, o que achei uma escolha incrível de Figueiredo. Esse recurso mantém a fluidez dos pensamentos de Pedro de forma que nos sentimos dentro da mente da personagem.

Ah, o incômodo. Ele não me abandonou até a última linha, confesso. A causa acho que foi a presença constante da violência e da injustiça social. Há uma angústia em ver como aquilo tudo não vai mudar e que as pessoas que vivem naquele cenário não têm muitas perspectivas de melhorar de vida. É uma rua sem saída.

Por fim, quero agradecer a Renata, a culpada por eu ler um livro tão bom 🙂 Obrigada, Rê!

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2 Comentários

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2 Respostas para “Violência, Darwin e livros usados

  1. Renata

    De nada, Gi!
    Na verdade, o que me impressionou ao ver a entrevista do Rubens Figueiredo lá na FLIP, foi a simplicidade dele. Além de tradutor renomado e de autor premiado, ele é professor de Português de curso supletivo noturno da rede estadual do Rio de Janeiro, e o que o inspirou a escrever esse livro foram as viagens diárias de ônibus que ele tinha que fazer para chegar até a escola em que lecionava, localizada na periferia da cidade (um trajeto de 40 min.). Provavelmente essas histórias são baseadas em fatos e injustiças que ele presenciou ou ouviu de relatos desses alunos, que nem sei se têm noção do quão qualificado é o professor deles. Atualmente ele leciona em uma escola mais próxima da residência dele, e o trajeto ele faz de bicicleta. Quem sabe essa não vai ser a temática de seu próximo livro?

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