Arquivo do mês: junho 2013

Orwell pelas ruas de Paris – Down and Out I

Cafe em Paris

Nas minhas férias, enquanto estava na enorme livraria Waterstones em Piccadilly, deparei-me com uma autobiografia de George Orwell. Já li A Revolução dos Bichos e 1984 desse mestre da distopia e fique muito curiosa para ler algo autobiográfico, ainda mais no original. Tomei em minhas mãos e fui para o caixa.

É incrível. Sou muito suspeita, por ser fã de suas obras. E o que mais despertou a minha atenção foram os breves capítulos em que Orwell se dedica a curtas críticas sociais a partir do que vivencia durante a sua estadia miserável em Paris e Londres. Por isso, acho que esse livro merece duas resenhas, cada texto dedicado a uma cidade e aos respectivos comentários do autor.

Down and Out in Paris and London (hoje editado pela editora Penguin) conta os dias de extrema pobreza que Orwell viveu quando tinha vinte e poucos anos. Tudo começa quando é roubado na capital francesa por um jovem italiano hospedado no mesmo hotel barato em que ele se encontrava. Ao ler a ótima introdução escrita por Dervla Murphy, sabemos que, na realidade, não havia italiano algum: Orwell foi roubado por uma namorada que fugiu após o crime. A partir daí começa a aventura do inglês pelo submundo.

No início de sua fase miserável, Orwell passa dias a fio sem comer e sem vontade de fazer nada. Decide encontrar um amigo russo, muito doente, mas que já fora garçom em restaurantes caros franceses, para pedir uma indicação de emprego ou algo que o ajudasse a ganhar o suficiente para comprar comida. Os dias que passam em busca de trabalho são terríveis: ficamos entre o quarto sujo e cheio de insetos e as caminhadas longas e famintas em busca de emprego.

Nesse ínterim, Orwell nos faz retratos das pessoas que encontra pelo caminho. Um deles é Charlie, um rapaz que conta, com orgulho, a quem se aproximar sobre sua maior conquista amorosa: uma menina que estuprou. Orwell tenta ser imparcial, especialmente nesse caso, mas é possível sentir seu asco nas entrelinhas.

Pois que, enfim, Orwell consegue o emprego de plongeur. Na função, ele lava de pratos e prepara chá em um hotel de alta classe em Paris. Após algumas semanas, deixa esse trabalho para assumir outro em um restaurante recém-aberto, função na qual fica por pouco tempo. Então, o autor é chamado por um amigo para trabalhar na Inglaterra cuidando de uma criança com séria deficiência intelectual. Aí está um dos pontos altos do livro.

Ao deixar a Cidade Luz, o autor pede licença ao leitor para expressar a sua opinião sobre a vida de um plongeur em Paris e faz um ensaio muito lúcido sobre a situação do trabalhador no início do século XX, mas que, acredito, seria de grande valia para pensarmos o trabalho no nosso tempo.

Orwell classifica o lavador de pratos de escravo do mundo moderno, ao dizer que o único aspecto que o diferencia do escravo é o fato de não ser comercializado. Outros pontos em comum são o trabalho servil, uma renda suficiente para sobreviver, a impossibilidade ou dificuldade de casar (o salário é tão baixo que, se o plongeur tiver uma esposa, ela também deve trabalhar) e a ausência de alternativas – não se consegue sair dessa vida, exceto se for preso.

O que sentimos em seus dias no subsolo quente e sujo do hotel é um tédio pegajoso, um correr de tempo que não permite saber em que dia se está. O resultado que esse trabalho tem sobre Orwell (e ele reconhece muito bem isso) é anestesiante, pois não pensa mais em nada – apenas em dormir e acordar para voltar ao hotel. O autor culpa esse efeito pelo fato de os trabalhadores nunca terem se unido em sindicatos para reivindicar melhores condições.

Em seguida, o escritor tenta entender o motivo dessa escravidão persistir e traça uma crítica social audaz. Orwell afirma que as pessoas costumam dizer que mesmo os empregos horríveis e desgastantes são indispensáveis para a “civilização” (palavra que emprega). Mas o que ele questiona é se especificamente o trabalho de plongeur é de fato fundamental para a sociedade, colocando em dúvida, antes de tudo, a necessidade de restaurantes caros e grandes hotéis que empregam centenas de pessoas. Sob seu ponto de vista, ao invés de fornecer um luxo (comida boa e pronta), esse tipo de estabelecimento proporciona tão somente uma simulação de luxo. Ao trabalhar na cozinha do hotel, ele percebe a falta de higiene que envolve a preparação de pratos cujos preços são, muitas vezes, exorbitantes. Orwell critica, ainda, a estrutura ineficiente dos hotéis e restaurantes caros de Paris. Para ele, se houvesse organização e o trabalho fosse mais eficaz, o pobre plongeur poderia trabalhar seis ou oito horas diárias, não dez ou quinze, como ele vivenciou.

Não satisfeito, Orwell vai além e tenta achar um motivo mais humano para a questão do trabalho estafante e inútil. A resposta? As classes dominantes temem a turba (“mob”) e consideram mais seguro mantê-la ocupada em um trabalho que não lhe deixe tempo livre para pensar em sua situação. Essa ordem das coisas é adequada para os mais ricos e, por isso, assim deve permanecer.

Ele critica esse medo da turba, dizendo que é supersticioso. Para Orwell, esse temor se fundamenta na ideia de que existe uma diferença misteriosa entre ricos e pobres, como se pertencessem a raças diferentes. Não há sentido nessa teoria, diz ele, porque o que distingue o rico do pobre é somente sua renda, e talvez suas vestimentas. Aí o autor reprova os ricos que, por serem mais educados e inteligentes, deviam ter ideias mais liberais. No entanto, a realidade, segundo Orwell, é que esses indivíduos nunca se misturam com os pobres, por considerá-los perigosos, ou talvez simplesmente por puro desconhecimento (tememos o que não conhecemos). Sempre assustadoramente atual.

Assim, Orwell encerra os seus dias parisienses e fecho este texto. Da próxima vez, falarei sobre Londres. Não a minha, mas a dos mendigos que o autor de Down and Out in Paris and London conheceu.

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Noite de libertinagem

Tem gente que gosta de ópera por causa da música, tem gente que gosta das histórias. Tenho um pouco dos dois tipos em mim, e a escolha desta vez foi pelo enredo.

Rakes Progress

No domingo (16/06), fui ao Theatro Municipal de São Paulo ver The Rake’s Progress. Essa ópera de Stravinsky conta a história de Tom Rakewell, um jovem preguiçoso e apaixonado por Anne Trulove. Um dia, ele recebe a visita de Nick Shadow, que conta que um tio riquíssimo lhe deixou uma herança, a ser recebida em Londres. Tom se separa de Anne com a promessa de buscar a moça e seu pai depois de se instalar na capital inglesa. O que vemos a partir daí é a recorrente história do ingênuo que se afasta do “caminho correto”, entregando-se a excessos. Esse enredo imediatamente me chamou à memória o Fausto de Goethe, que “vende” a alma ao diabo Mefistófeles em troca de conhecimento e prazer.

E bem adequada a escolha dos sobrenomes dos personagens: Anne Trulove simboliza o amor puro. Tom se torna um “rake”, um libertino (tanto que a tradução para o título da obra é A Carreira do Libertino), pelo contato com Nick, uma sombra, figura do mal. Aliás, meu amigo Vismar veio me perguntar se gostei da tradução do título e então disse que ainda não sabia responder. Pois respondo: sim, gostei, pois achei conveniente, apesar de a ópera não exatamente narrar a trajetória de Tom, mas apenas nos mostrar poucos fatos.

Stravinsky teve a ideia para a ópera ao visitar um museu de Chicago, em 1947, onde viu cópias de uma série de quadros do pintor inglês William Hogarth. Eram oito imagens intituladas The Rake’s Progress, que narravam a ascensão e o fracasso de Tom Rakewell. Você pode ver os quadros e suas descrições no site do museu que os abriga, o Soane Museum de Londres (clique aqui para acessar).

A montagem foi belíssima e bem cuidada. Gosto muito da voz de Rosana Lamosa (que fez Anne) e achei que o tenor norte-americano Chad Shelton combinou bastante com o papel de Tom. Agora, destaque total para o baixo Savio Sperandio, que deu voz a Nick Shadow. Incrível a sua presença de palco e sua atuação. Na verdade, ele sempre me surpreende.

Tom Rakewell

Apesar de meu elogio, há algo nas montagens do Jorge Takla que me incomoda um pouco, não no mau sentido. Takla tem criado uma estrutura cênica realmente minimalista, e acredito ser isso o que me tira de minha zona de conforto rs. Porque comecei a assistir óperas ao vivo e em DVD’s com cenografias riquíssimas em detalhes e elementos, e agora me vejo diante de palcos quase vazios, mas tão complexos e carregados de sentidos! Exige-se mais da imaginação da plateia e muita coisa fica nas entrelinhas.

Há momentos tensos do libreto que acabam, na verdade, perdendo parte da sua gravidade pela maestria de Stravinsky e pela própria montagem. Primeiro que Nick convence Tom a se casar com a mulher barbada do circo, Baba, a Turca. E ele o faz. Mais tarde, depois do fracasso de uma máquina que transforma pedras em pães, Tom acaba indo à falência e os objetos que deixa na mansão, ao fugir, são leiloados. O leiloeiro é praticamente um showman.

A coreógrafa Sabrina Mirabelli também fez um belo trabalho com os bailarinos, criando duplos de Anne e Tom que se encontram em alguns momentos da história, apesar dos personagens originais viverem distantes. É como se um não saísse da mente do outro e o amor ainda existisse entre eles.

Vocês já devem ter notado que sou apaixonada mesmo pelas obras dramáticas, com aquele espírito de Romeu e Julieta, nas quais pessoas que se amam (namorados, pais e filhos etc.) são separadas pela morte, por uma injustiça, ou pela burrice de um dos personagens (lembrei-me de Elsa de Brabante em Lohengrin, aquela estúpida hahaha). Pensei em uma frase agora, de Ed Gardner: “Ópera é quando uma pessoa recebe uma punhalada nas costas e, em vez, de sangrar, canta.” OK, é uma definição superficial e quase preconceituosa desse gênero, mas acho muito engraçada, porque resume o que gosto de ver em óperas (calma, sou uma pessoa pacífica). Por isso, gostei de The Rake’s Progress, mas não o bastante para vê-la novamente. Gostaria, sim, de aprender alguma das árias de Anne, que são lindas.

Bem, se tiver curiosidade, no YouTube você encontra diversas montagens, inclusive uma de 1951, esta apenas com o áudio.

(Imagens: Cacilda – Blog de teatro)

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Fora do eixo – Edimburgo, Dublin e os londrinos

Já faz duas semanas que voltei de viagem e, nesse meio-tempo, decidi que precisava encerrar esse meu “salto inglês”, como diz Enrique Vila-Matas em seu Dublinesca, aqui no Silence Reports.

Vista dos Queen Street Gardens

Vista dos Queen Street Gardens

A surpresa desse mês britânico foi realmente a bela Edimburgo. Fui mais por sugestão de uma amiga do que por escolha própria, e a cidade me deixou boquiaberta. Da Princes Street, vê-se o castelo e o parque Queen Street Gardens, com seus esquilos. Anda-se pelo centro “novo” (entre aspas, porque não é tão novo) e se ouve alguém tocando gaita de foile. É engraçado, porque lá é possível encontrar homens com o traje escocês completo (aqueles kilts lindos, que vontade de trazer um!) tocando essa gaita típica em troca de uns pounds (libras).

Em Edimburgo (ou “Edinbru”, como dizem por lá), aprendi que os homens apenas usam o traje típico completo em ocasiões muito especiais, como casamentos e eventos oficiais. A exceção vai para os dias de futebol e rúgbi, em que os rapazes se reúnem em pubs vestindo kilts para torcer pelos seus times.

A capital escocesa possui um dos melhores museus nacionais que já visitei. Para ter uma ideia, passei quatro horas entre suas galerias e não vi tudo. Há peças históricas, artefatos arqueológicos, obras de arte e coisas que vão deixar qualquer criança de 6 ou 60 anos bem ocupada. E, em minha humilde opinião, achei a exposição egípcia muito mais organizada e interessante do que a do British Museum, de que tanto falam.

Sol na Ha'penny Bridge em Dublin

Sol na Ha’penny Bridge em Dublin

Outra parada foi Dublin. Confesso que minha visita à Escócia reduziu a força de minhas memórias da capital irlandesa, mas posso dizer que adorei o lugar. Os dublinenses, ao contrário dos escoceses, são faladores e alegres. Quando precisei descobrir qual ônibus  pegar no aeroporto para ir até o hostel no centro da cidade, fui auxiliada por um casal de idosos, que me mostrou o mapa e fez-me perguntas até acharmos a melhor opção. E a culinária irlandesa é uma alegria. Ao contrário dos ingleses, a Irlanda possui uma cozinha típica, muito saborosa, por sinal.

Dublin é a capital da Irlanda e da Guinness, a senhora cerveja que tem um gosto bem diferente em sua terra natal. A fábrica, ou storehouse, vale a pena ser visitada pelos amantes de cerveja, pois se tem a chance de conhecer o processo de feitura da bebida, a começar pela escolha da água. E, como não podia deixar de ser, no final pode-se tomar um pint (pouco mais de meio litro) de Guinness no bar envidraçado no alto do prédio, com vista para a Catedral de São Patrício, entre outros.

Algo que me irritou em Dublin foi o tempo. Sempre ouvi que o clima lá era “miserável”, mas eu o classificaria de louco mesmo. Porque dentro de dez minutos choveu, caiu gelo e abriu sol. Eu não acreditei nisso. Tudo bem, quem me conhece sabe que podem cair blocos de gelo, que eu não me importo e vou para a rua curtir a cidade hahaha. Não sou uma boa companhia de viagem para preguiçosos.

Mas voltemos a Londres. Mais especificamente aos londrinos.

Como filha de um país em desenvolvimento (olha o eufemismo), estou acostumada (não conformada) com certas coisas, como ruas esburacadas, oferta pública de lazer insuficiente, falta de segurança. O que via frequentemente na Inglaterra é a insatisfação das pessoas diante de certos assuntos. Por exemplo, eles se queixam de ser caro possuir um automóvel em Londres em razão do preço da gasolina, dos estacionamentos, do trânsito e do pedágio que você precisa pagar ao circular por certas áreas da cidade. No entanto, os londrinos têm acesso a um metrô que funciona muito bem e com uma malha gigante (desafio: tente encontrar rapidamente uma estação menos conhecida apenas olhando o mapa do tube). É caro? Pode ser, mas existem cartões especiais, com os quais você paga uma tarifa menor. E se você quer sair de balada sem pagar táxi, há os night buses que circulam entre meia-noite e quatro da manhã. Eles não cobrem todas as zonas londrinas, claro, mas já são uma ajuda para chegar na casa de algum amigo.

Em Londres, juro que não vi um pedinte, ao contrário do que aconteceu em Dublin e Edimburgo. Estou lendo uma autobiografia do George Orwell em que ele conta os dias de miséria que viveu na capital inglesa, no início do século XX (aguardem a resenha em breve). Não sei se aí estaria uma explicação para o que observei em Londres, mas ele diz que havia uma lei na época proibindo as pessoas de pedir esmolas nas ruas. Quem burlasse a lei, podia ser preso.

A Inglaterra enfrentou as turbulências da crise financeira como muitos países europeus, mas os seus efeitos sobre o cotidiano das pessoas não me pareceram proibitivos. Adoro conversar com taxistas, pois eles conhecem muita gente e veem a vida nas ruas, não só na televisão e nos jornais. Em meu último dia no país, um argelino me disse que não há crise, é tudo propaganda para os governos conseguirem o que desejam. Não concordo com ele, não seria radical a esse ponto, mas acredito que hoje os ingleses não sofram privações como os gregos ou os espanhóis padeceram nos últimos tempos.

Veja bem, não estou dizendo que os ingleses desconhecem o que é uma vida difícil, nem tenho moral para isso. Eles são um povo que passou pelas dificuldades e pelos terrores de muitas guerras (se tiver a oportunidade, visite o Museum of London e suas exposições bacanas com objetos e relatos de moradores da cidade que enfrentaram os bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial), mas, como todo ser humano, os londrinos olham apenas para os problemas, apesar de possuírem tantas coisas positivas. Confesso que houve momentos em que me cansei das queixas, mas não posso me esquecer de que eles têm um padrão de comparação imensamente diverso do nosso aqui no Brasil. E isso me fez ver como as pessoas (independentemente da nacionalidade) muitas vezes reclamam de barriga cheia. Meu incômodo, acredito, seja devido especialmente aos acontecimentos em São Paulo, com a nossa Polícia Militar que, ao invés de nos defender do crime, covardemente ataca pessoas pacíficas que estavam trabalhando ou protestando contra uma situação que não mais se sustenta.

Da próxima vez, vou ainda falar da questão da mídia no caso do suposto atentado terrorista no sul de Londres em maio. Aguardem 🙂

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