Orwell pelas ruas de Paris – Down and Out I

Cafe em Paris

Nas minhas férias, enquanto estava na enorme livraria Waterstones em Piccadilly, deparei-me com uma autobiografia de George Orwell. Já li A Revolução dos Bichos e 1984 desse mestre da distopia e fique muito curiosa para ler algo autobiográfico, ainda mais no original. Tomei em minhas mãos e fui para o caixa.

É incrível. Sou muito suspeita, por ser fã de suas obras. E o que mais despertou a minha atenção foram os breves capítulos em que Orwell se dedica a curtas críticas sociais a partir do que vivencia durante a sua estadia miserável em Paris e Londres. Por isso, acho que esse livro merece duas resenhas, cada texto dedicado a uma cidade e aos respectivos comentários do autor.

Down and Out in Paris and London (hoje editado pela editora Penguin) conta os dias de extrema pobreza que Orwell viveu quando tinha vinte e poucos anos. Tudo começa quando é roubado na capital francesa por um jovem italiano hospedado no mesmo hotel barato em que ele se encontrava. Ao ler a ótima introdução escrita por Dervla Murphy, sabemos que, na realidade, não havia italiano algum: Orwell foi roubado por uma namorada que fugiu após o crime. A partir daí começa a aventura do inglês pelo submundo.

No início de sua fase miserável, Orwell passa dias a fio sem comer e sem vontade de fazer nada. Decide encontrar um amigo russo, muito doente, mas que já fora garçom em restaurantes caros franceses, para pedir uma indicação de emprego ou algo que o ajudasse a ganhar o suficiente para comprar comida. Os dias que passam em busca de trabalho são terríveis: ficamos entre o quarto sujo e cheio de insetos e as caminhadas longas e famintas em busca de emprego.

Nesse ínterim, Orwell nos faz retratos das pessoas que encontra pelo caminho. Um deles é Charlie, um rapaz que conta, com orgulho, a quem se aproximar sobre sua maior conquista amorosa: uma menina que estuprou. Orwell tenta ser imparcial, especialmente nesse caso, mas é possível sentir seu asco nas entrelinhas.

Pois que, enfim, Orwell consegue o emprego de plongeur. Na função, ele lava de pratos e prepara chá em um hotel de alta classe em Paris. Após algumas semanas, deixa esse trabalho para assumir outro em um restaurante recém-aberto, função na qual fica por pouco tempo. Então, o autor é chamado por um amigo para trabalhar na Inglaterra cuidando de uma criança com séria deficiência intelectual. Aí está um dos pontos altos do livro.

Ao deixar a Cidade Luz, o autor pede licença ao leitor para expressar a sua opinião sobre a vida de um plongeur em Paris e faz um ensaio muito lúcido sobre a situação do trabalhador no início do século XX, mas que, acredito, seria de grande valia para pensarmos o trabalho no nosso tempo.

Orwell classifica o lavador de pratos de escravo do mundo moderno, ao dizer que o único aspecto que o diferencia do escravo é o fato de não ser comercializado. Outros pontos em comum são o trabalho servil, uma renda suficiente para sobreviver, a impossibilidade ou dificuldade de casar (o salário é tão baixo que, se o plongeur tiver uma esposa, ela também deve trabalhar) e a ausência de alternativas – não se consegue sair dessa vida, exceto se for preso.

O que sentimos em seus dias no subsolo quente e sujo do hotel é um tédio pegajoso, um correr de tempo que não permite saber em que dia se está. O resultado que esse trabalho tem sobre Orwell (e ele reconhece muito bem isso) é anestesiante, pois não pensa mais em nada – apenas em dormir e acordar para voltar ao hotel. O autor culpa esse efeito pelo fato de os trabalhadores nunca terem se unido em sindicatos para reivindicar melhores condições.

Em seguida, o escritor tenta entender o motivo dessa escravidão persistir e traça uma crítica social audaz. Orwell afirma que as pessoas costumam dizer que mesmo os empregos horríveis e desgastantes são indispensáveis para a “civilização” (palavra que emprega). Mas o que ele questiona é se especificamente o trabalho de plongeur é de fato fundamental para a sociedade, colocando em dúvida, antes de tudo, a necessidade de restaurantes caros e grandes hotéis que empregam centenas de pessoas. Sob seu ponto de vista, ao invés de fornecer um luxo (comida boa e pronta), esse tipo de estabelecimento proporciona tão somente uma simulação de luxo. Ao trabalhar na cozinha do hotel, ele percebe a falta de higiene que envolve a preparação de pratos cujos preços são, muitas vezes, exorbitantes. Orwell critica, ainda, a estrutura ineficiente dos hotéis e restaurantes caros de Paris. Para ele, se houvesse organização e o trabalho fosse mais eficaz, o pobre plongeur poderia trabalhar seis ou oito horas diárias, não dez ou quinze, como ele vivenciou.

Não satisfeito, Orwell vai além e tenta achar um motivo mais humano para a questão do trabalho estafante e inútil. A resposta? As classes dominantes temem a turba (“mob”) e consideram mais seguro mantê-la ocupada em um trabalho que não lhe deixe tempo livre para pensar em sua situação. Essa ordem das coisas é adequada para os mais ricos e, por isso, assim deve permanecer.

Ele critica esse medo da turba, dizendo que é supersticioso. Para Orwell, esse temor se fundamenta na ideia de que existe uma diferença misteriosa entre ricos e pobres, como se pertencessem a raças diferentes. Não há sentido nessa teoria, diz ele, porque o que distingue o rico do pobre é somente sua renda, e talvez suas vestimentas. Aí o autor reprova os ricos que, por serem mais educados e inteligentes, deviam ter ideias mais liberais. No entanto, a realidade, segundo Orwell, é que esses indivíduos nunca se misturam com os pobres, por considerá-los perigosos, ou talvez simplesmente por puro desconhecimento (tememos o que não conhecemos). Sempre assustadoramente atual.

Assim, Orwell encerra os seus dias parisienses e fecho este texto. Da próxima vez, falarei sobre Londres. Não a minha, mas a dos mendigos que o autor de Down and Out in Paris and London conheceu.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Orwell pelas ruas de Paris – Down and Out I

  1. Putz Gi! Que legal. Eu fui lendo teu texto e me lembrando de várias coisas que aparecem no 1984. Dá pra perceber que vários dos temas abordados e a forma como foram tratados surgem, em parte, nas reflexões que ele faz sobre estes tempos. Em especial, me lembrei de como ele descreve os proles e diz que eles não se revoltariam nem em um milhão de anos. Lembrei também da parte do “pêndulo da história”.

    E me ocorreu que ver 1984 como uma crítica apenas ao comunismo é fazer uma leitura superficial da obra.

    • Giovanna R.

      Pois é, Le, à medida que lia essa obra do Orwell, não tinha como deixar de pensar em 1984. No Down and Out, mesmo com sua linguagem jornalística, fica muito evidente o desconforto de Orwell com a sociedade em que vive. Em breve, publico a resenha sobre os dias de mendigo que ele viveu em Londres. A crítica social aí é ainda mais interessante!

  2. Vem pra rua, vem, contra o desemprego!

  3. Que texto incrível, Gi!
    Fui transportada para a Paris do Orwell e senti o incômodo da proximidade com nossa realidade. Mais um grande livro que eu não conhecia e que agora preciso ler. Já estou ansiosa para saber mais sobre Londres.
    bjo

    • Giovanna R.

      Oi, Mi!
      O texto do Orwell é realmente incômodo. E fica bem pior em Londres, onde ele viveu como mendigo por algumas semanas. Mas conto tudo no próximo post 🙂
      Beijos!

  4. Pingback: A Londres de Orwell – Down and Out II | Silence Reports

  5. Pingback: Mendigo-monstro – Down and Out (final) | Silence Reports

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