Arquivo do mês: julho 2013

Vampiros e sombras em Portugal

O BarãoNa abertura da II Mostra de Cinema Português Contemporâneo, fui conferir O Barão, ficção de 2011 do diretor Edgar Pêra.

Com um enredo resumido em “Remake neuro-gótico dum filme fantasma. A narrativa, expressionisticamente hipnótica, conduz o Inspector-Narrador-Espectador até o castelo do Barão”, fiquei em dúvida se cairia no sono ou acharia esse filme um dos melhores que vi neste ano. Tomei coragem e fui até o Centro Cultural da Caixa na Praça da Sé para ver no que ia dar.

Vamos começar do princípio. Nos minutos iniciais, ficamos sabendo da suposta história misteriosa da película. O Barão, baseado em uma obra de Branquinho da Fonseca, foi rodado por uma equipe norte-americana em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial em português e inglês. Posteriormente, o filme de terror (com aquele ar de filme B) foi proibido pelo ditador em razão de seu conteúdo, a equipe que o filmou foi obrigada a fugir da Europa e os atores acabaram em um campo de concentração. Achava-se que havia sido perdido para sempre, mas foi encontrado e restaurado pelo diretor Edgar Pêra. História incrível, mas verdadeira? Honestamente, decidi não pesquisar se é realmente um “filme fantasma”, porque essa introdução cria um mistério que prefiro deixar associado em minha mente a O Barão.

O filme é falado em português europeu e legendado em inglês. Claro que a legenda me salvou algumas vezes de perder uma ou outra fala por minha falta de intimidade com o português de Portugal, mas frequentemente era diferente da fala a ponto de complementá-la! Outro ponto de destaque eram os momentos em que as palavras das personagens se perdiam no silêncio, e a legenda, por sua vez, esmaecia na tela. Um recurso tão ignorado pelos cineastas, acabou completando muitas cenas desse filme luso.

Pois bem, O Barão conta a história do tal “Inspector-Narrador-Espectador” sem nome (como os demais personagens masculinos da película) que vai visitar um vilarejo português no meio do nada para inspecionar o seu sistema de ensino. O filme, em preto e branco, tem ares de Drácula (de Bram Stoker, ou, se preferir, Nosferatu, não aquelas películas bizarras de vampiro que brilha no sol), com o Inspe(c)tor dentro de uma carruagem se dirigindo ao povoado acompanhado de outros dois homens respeitáveis e uma senhora com dois meninos.

No caminho, o filme mostra a que vem. Em um misto de delírio e realidade, vemos, à margem do caminho, figuras sinistras e distorcidas em fachos de luz que percorrem rapidamente a vegetação, em um esconde-esconde lúgubre. O Expressionismo mencionado no resumo do enredo se apresenta logo nos primeiros minutos.

CenaBarao

O Barão e sua empregada, Idalina

O pobre homem chega ao anoitecer no lugarejo e é recebido pela professora responsável pela educação das crianças do local. Ela logo lhe aponta o Barão, que se introduz dizendo algo que o caracterizará ao longo do filme: “Quem manda aqui sou eu”. E manda mesmo, como veremos adiante. Mas ainda mais importante que esse fato é o momento em que o Barão aparece. Seu rosto sobrepõe, na tela, a face do Inspetor, dando-nos a sensação de hipnose que tomou conta deste pela presença do Barão, homem que ocupa todos os espaços, sombras e silêncio.

Ah, Inspetor! Se você soubesse a roubada em que ia se meter ao conhecer o Barão! Mas não vamos estragar o prazer e contar o final. Porque isso é o de menos.

O homem que manda ali o convida para passar a noite em seu castelo, deixando claro que não se alimenta, apenas bebe. O Barão e o Inspetor sentam-se em uma longa mesa, cada um em um extremo. O desconforto é evidente e tão intenso, que nos sentimos incomodados com aquela figura forte, de rosto cruel, interpretada pelo ótimo (excelente, maravilhoso) Nuno Melo. A postura do ator me impressionou e me surpreendi ao descobrir que começou a sua carreira no teatro, mas fez televisão a vida toda (inclusive participou da brasileira Senhora do Destino).

O esfomeado Inspetor permanece sentado, ouvindo as histórias do Barão, que se movimenta pela sala de paredes de pedra que mais se parece com um palco de teatro. Está sempre presente o jogo de trevas e luz, dando ênfase a certos elementos em detrimento de outros em prol das sensações provocadas pelas histórias do senhor do lugar. Estas, aliás, fazem o Inspetor e o espectador transitarem entre a pena e a repulsa. É claro que o Barão deseja testar o homem e brincar com os seus sentidos, já meio entorpecidos pela fome. Mas toda a ambientação, a voz dura de Nuno, suas histórias e o jogo de sombras criam uma espécie de claustrofobia, que vai tomando conta da sala de cinema.

Esses são apenas os momentos iniciais do filme, mas, como

Quem Manda

(ahahaha não podia deixar passar essa), prefiro parar agora. Se tiver a oportunidade, assista O Barão e veja como um filme de terror (sim, afinal é terror mesmo) não precisa ter dedos decepados, tripas espalhadas ou almas penadas para ser bom.

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Mendigo-monstro – Down and Out (final)

Casual Ward

Pessoas aguardam para entrar no albergue da Thomas Street, 1902.

Tentei pensar em uma trilha para este texto. Se colocasse músicas tristes para escutar, era capaz de deixar o post de hoje, que fala de algo tão delicado, algo sufocante. Então coloquei no shuffle e rolou até Alice in Chains 🙂

Nas semanas anteriores, escrevi como foi a vida de George Orwell em Paris e Londres contada no ótimo Down and Out in Paris and London. Hoje encerro com as reflexões do autor sobre o que viu nas ruas da capital inglesa. Se você chegou agora, leia aqui a resenha sobre os dias parisienses de Orwell ou aqui sobre a temporada em Londres.

Em dado momento da narrativa, Orwell decide refletir sobre a posição social dos mendigos. Após viver semanas como um, o autor não consegue entender a postura da sociedade diante dessas pessoas. Primeiramente, ele sente que existe uma distinção entre mendigos e trabalhadores “normais” que, na realidade, não existe, nem faz sentido. “Eles são seres humanos normais”, diz Orwell.

A sociedade inglesa, segundo o autor, rejeita mendigos como se fossem criminosos e parasitas, sem valor algum. Mesmo assim, eles são tolerados somente porque a Inglaterra de sua época é “mais humana”; as coisas ainda poderiam ser piores.

Em defesa desses miseráveis obrigados a viver andando sem descanso, Orwell debate o significado de trabalhar, porque ele percebe que o desprezo se deve ao fato de os mendigos não trabalharem. Diz que contadores trabalham somando números, construtores de canais trabalham brandindo picaretas, e mendigos trabalham ficando de pé ao relento sob sol ou chuva e contraindo bronquite e varizes. O trabalho do mendigo é bem inútil, admite Orwell, mas muitas profissões têm atividades igualmente inúteis. Em seguida, ele mostra como a sua sociedade é cruel ao raciocinar que o mendigo paga pelo pouco que consegue da sociedade (alojamentos praticamente inóspitos e uma alimentação insuficiente) com o seu sofrimento.

Orwell conclui essa reflexão dizendo que o desprezo social se deve ao fato de esses homens não ganharem dinheiro suficiente que lhes permita ter uma vida decente. A questão aqui não é a utilidade do trabalho ou o que ele produz de concreto, mas a sua lucratividade. Mendigos não ganham dinheiro – portanto, não merecem respeito da sociedade em que estão inseridos.

Como no relato parisiense, mais adiante Orwell dedica um capítulo inteiro apenas a reflexões sobre o grupo do qual fez parte durante um mês. Nele, o autor conta que já na infância se aprende que mendigos são homens vis (ou salafrários, palavra tão em desuso quanto o termo do original, blackguards): criaturas (note: criaturas, não pessoas) repulsivas e perigosas que preferem morrer a trabalhar ou tomar banho e que gostam de mendigar, beber e roubar galinheiros. E porquê (diabos, acrescento eu) alguém se tornaria vagabundo? Para fugir do trabalho, mendigar com mais facilidade, praticar crimes ou porque simplesmente gosta de vagabundear. Na realidade, Orwell mostra que o único motivo para uma pessoa se tornar mendigo é a lei. Sim, porque se o homem não tem dinheiro e sua comunidade não o mantém, ele é obrigado a viver nos alojamentos públicos, o que, consequentemente, o mantém em permanente movimento (lembre-se, ele não pode ficar mais de uma noite no mesmo spike).

Voltando ao mendigo-monstro, Orwell afirma que a realidade é completamente diferente (como poderíamos facilmente deduzir). Para começar, os mendigos são pessoas pacíficas. A prova disso são os spikes, que nem existiriam se eles fossem violentos. Segundo, mendigos não eram alcoólatras, porque cerveja era uma bebida cara e eles mal tinham dinheiro para comprar uma xícara de chá. Terceiro, não é da índole do inglês ser parasita; portanto, mesmo que se tornasse miserável, uma pessoa dessa nacionalidade não se tornaria aproveitador.

A figura do mendigo-monstro me fez lembrar de uma matéria que li há alguns anos, não sei se na Revista Ocas”. É uma pena não ter certeza. Mas a questão é que o texto apontava para o fato de a sociedade brasileira ter uma opinião completamente distorcida da população em situação de rua. Muitos têm uma visão generalista, acreditando que todos os moradores de rua são loucos, drogados, alcoólatras. É certo que há inúmeros escravos de vícios, mas não são todos, e cada um tem a sua história – na verdade, muitas histórias para contar. Eu gostava de conversar com os vendedores da Ocas” na frente do então Espaço Unibanco de Cinema, na rua Augusta. Eles são ex-moradores de rua treinados pela revista. Alguns eram mais tímidos, outros mais falantes, todos eram educados. Faz tempo que não os vejo.

Bem, voltando ao Orwell e à sua Inglaterra (muitas vezes parecida com o nosso Brasil), ele trata inclusive de um tema muito delicado, a sexualidade dos mendigos. O autor afirma que é praticamente impossível um homem nessa situação se envolver com uma mulher. Primeiramente, era raríssimo encontrar mendigas – Orwell atribui a isso o fato de o desemprego afetar menos as mulheres e, como último recurso e se forem apresentáveis (mancada, Orwell), elas ainda podiam se unir a um homem (provedor). Dessa forma, os homens em situação de rua são submetidos a um celibato involuntário, o que faz com que se envolvam sexualmente com outros homens ou cometam estupros. E ele acrescenta: como o impulso sexual é algo tão básico, a privação de sexo para essas pessoas pode ser tão desmoralizante quanto a falta de comida. O fato de o mendigo não ter possibilidade de casar o afeta profundamente.

E o que fazer para diminuir o sofrimento do miserável? Orwell sugere começar pelos albergues, tornando-os habitáveis. No entanto, a questão central para ele é como fazer com que o mendigo deixe de ser uma pessoa semiviva, ociosa e entediada e se torne um ser humano com respeito próprio – e a solução não está apenas em lhe proporcionar conforto. O autor entende que a saída é encontrar uma ocupação para ele. Uma opção seria os spikes disporem de pequenas fazendas ou jardins em que se pudesse trabalhar. A produção poderia ser convertida para o benefício dessas pessoas, alimentando-as com algo melhor que pão-com-manteiga-e-chá. Assim, não seria criado nenhum ônus para o governo e a vida de muitos poderia ser melhorada. Orwell faz essas sugestões de forma humilde, mas com a propriedade de quem conhece bem o assunto.

Aqui terminam as reflexões de Orwell e o meu texto. O que vocês acharam? Muito próximo da nossa realidade? Compartilhe suas impressões com a gente aqui no blog!

Imagem de abertura: foto de Peter Higginbotham (The Workhouse – Whitechapel).

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A Londres de Orwell – Down and Out II

Londres Antiga

Nesta segunda parte da resenha de Down and Out in Paris and London, vamos acompanhar George Orwell pelas ruas de Londres. Se você não leu sobre os meses em Paris, clique aqui.

Ao contrário do que planejava, precisei subdividir a parte londrina do livro de Orwell. A resenha ficou muito mais longa do que eu esperava. Por isso, nesta falarei de aspectos mais práticos da vida do autor nas ruas londrinas. Já o próximo texto será dedicado apenas às reflexões e críticas de Orwell.

Bem, quando começa o relato da volta para Londres, em uma conversa com um casal de romenos no barco, Orwell oferece uma pista do que virá pela frente, dizendo “A Inglaterra é um ótimo país se você não é pobre”. Nesse momento, ele está muito animado com a perspectiva de um trabalho fixo e bem remunerado: cuidar de uma criança com necessidades especiais. Tudo parece bem, até descobrirmos que a família para quem trabalharia viajou e ele só poderia assumir o emprego dali a um mês. Com quase nada nos bolsos e envergonhado em pedir para o amigo um pouco de dinheiro, Orwell decide guardar seus pertences no armário da estação e trocar um casaco por roupas baratas – quanto pior, melhor, segundo ele. Honestamente, eu estaria em pânico nessa situação, mas acho que o autor: a) se acostumou com a pobreza; b) não conhecia Londres tão bem; ou c) voluntariamente queria ter a experiência da miséria em Londres. Ele chega a dizer que é praticamente impossível morrer de fome na cidade e que, se precisasse, mendigaria. Mal sabia ele que as coisas seriam piores na Inglaterra do que na França.

Algo que corrobora a minha terceira teoria (c), é que Orwell troca seu casaco por roupas “com uma aura de sujeira antiga”. Ele as veste e, na rua, vê um mendigo vindo em sua direção. Quando se dá conta, olhava para o próprio reflexo em uma vitrine. A sujeira já parecia tomar conta de seu rosto, diz. Orwell inclusive evita falar com as pessoas, com medo de elas perceberem a disparidade entre suas roupas e seu sotaque. Mais adiante, percebemos que a grande maioria dos mendigos é composta de ingleses com baixo nível de escolaridade. Por isso a sua preocupação.

Orwell era uma pessoa muito observadora. Assim, nesse primeiro dia em vestes de vagabundo, ele percebe que a atitude das mulheres muda de acordo com a roupa. O autor conta, por exemplo, que, quando um homem mal vestido passa por uma mulher, ela não disfarça a sua repugnância, como se visse um animal morto na rua. “Roupas são algo poderoso”, diz, ao notar como se sente envergonhado naqueles trajes.

Então, ele começa a “via crucis”, indo de alojamento a alojamento. No início, ele se hospeda em albergues baratos, mas sujos, gelados e com cheiro de urina. Depois, descobre os spikes, uma espécie de alojamento muito simples exclusiva para pobres. Nesses locais, a pessoa chegava no final da tarde e só podia sair de manhã, e a refeição padrão eram duas fatias de pão com manteiga e uma xícara de chá.

Fiquei curiosa com o termo que Orwell emprega, spike, e descobri que era uma gíria usada pelos mendigos. Uma provável explicação era que as camas desses lugares pareciam serem feitas de pregos (spikes em inglês). Aliás, em vários momentos de Down and Out, Orwell se dedica a investigar o jargão e os termos usados pelos andarilhos de Londres.

Os tais spikes eram terríveis. Havia um espaço muito pequeno entre as camas, contribuindo para a disseminação de doenças e tornando o sono difícil. Além disso, existia outro problema: era proibido se hospedar no mesmo lugar no prazo de um mês. Dessa forma, os sem-teto ingleses fatalmente se tornavam andarilhos, percorrendo milhas de um alojamento a outro. Não podemos esquecer que a dieta desses homens era composta exclusivamente, salvo raras exceções, de pão com manteiga e chá. Caminhar nessas condições devia ser ainda mais cansativo.

Nas semanas pelas ruas de Londres, Orwell acaba fazendo amizade com um mendigo irlandês, Paddy, e um “artista de calçada”, Bozo. O autor descreve Paddy com uma humanidade comovente e, na verdade, involuntária. Vê como a miséria não tira de um homem a sua dignidade, ao observar o zelo do irlandês com suas roupas já surradas, mesmo assim tentando manter um ar de respeitabilidade. Paddy morria de vergonha de ser vagabundo, apesar de ter todas as características de um.

Já Bozo é extraordinário. Orwell se surpreende com o seu conhecimento sobre arte e as estrelas, além de sua coerência. Como não podia deixar de ser, o autor dedica boas páginas a esse personagem tão singular.

A história de Bozo é trágica. Após ter servido na Índia e na França durante a guerra, tornou-se pintor de casas em Paris e ficou noivo de uma francesa. Tudo ia bem, até que a moça foi atropelada por um ônibus e morreu. Inconformado, passou uma semana bebendo. Ao retornar ao trabalho, ainda abalado, despencou de uma obra e a queda destruiu o seu pé direito. Depois disso, voltou para a Inglaterra e tentou diversos empregos. Como nenhum deu certo, passou a desenhar nas calçadas em troca de moedas.

No final do livro, Paddy, Bozo e Orwell se separam e seguem seus caminhos. Algum tempo depois, um conhecido lhe diz que o amigo irlandês havia sido atropelado e morto, mas Orwell não dá muito crédito à história. Quanto a Bozo, o autor fica sabendo que estava preso por quatorze dias em Wandsworth  por pedir esmola.

Orwell encerra dizendo que ainda gostaria de viver mais um tempo na miséria, para explorar esse mundo e saber o que se passa nos espíritos de pessoas como Paddy e outros mendigos com quem conviveu nas ruas.

Algo que me surpreendeu é a série de proibições que existiam contra os mendigos na Inglaterra do início do século XX. Além da regra dos spikes, era proibido mendigar e dormir ao relento, sob a pena de prisão ou trabalho forçado. Na verdade, desde o século XIV, havia leis na Inglaterra relacionadas exclusivamente aos pobres. Além de regulamentar o que os mendigos podiam fazer, elas tratavam de todo o sistema que os atendia, incluindo os spikes.

É curioso que, apesar de o pobre inglês da época não mais mendigar por força da lei, Orwell emprega a palavra beggar para se referir aos homens com quem convive. Esse termo em inglês, segundo o Dicionário Michaelis, apresenta as seguintes traduções: mendigo, pedinte e indigente. Como esta última opção é pouco empregada (salvo nas situações em que pessoas são sepultadas sem identificação no Brasil), decidi por mendigo, que, neste caso específico, parece mais adequado do que pedinte.

No próximo post, falarei sobre as reflexões de Orwell sobre a vida e o significado dos mendigos para a sociedade inglesa.

(Imagem: Survey of British Literature)

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