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Heróis impróvaveis

Punishment

Um grupo de pessoas que mal fala sua língua, um herói nacional, o maior poeta, preconceito, amigas das quais seria melhor manter grande distância, um casamento desfeito e um Natal solitário. Esses podem parecer elementos para um grande drama de lavar a alma com lágrimas, mas Peter Luisi conseguiu juntá-los e fazer a excelente comédia Heróis Improváveis (2014).

O filme, exibido na (minha amadíssima) 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi minha grata surpresa desse festival. Na verdade, uma comédia dramática (ok, enganei vocês um pouquinho) de superação dirigida pelo suíço nascido em Zurique Peter Luisi, Heróis Improváveis acompanha a história de Sabine, a maravilhosa e até então desconhecida (para mim) Esther Gemsch, mulher que se vê forçada a começar uma nova vida. Após se dedicar à família por 15 anos, período em que deixa de lado seus interesses e suas atividades, seu marido pede-lhe o divórcio. Dispondo de tanto tempo livre e com a filha já criada, Sabine começa a ter aulas particulares de direção teatral. Sua professora não deposita um grama de fé nela, mesmo sem lhe dar oportunidade para mostrar o que aprendeu.

O Natal se aproxima e, como aconteceu na última década, Sabine prepara-se para passar a data acompanha de casais de amigos no interior da Suíça, até que esses amigos lhe comunicam uma mudança de planos – e substituem-na por outra pessoa. Infeliz com a ideia de passar a data sozinha (a filha está viajando com o pai e a madrasta), a mulher sai para caminhar e é derrubada por um homem que corre na neve sem camisa, com a cara lambuzada de creme de barbear e com policiais em seu encalço. Sabine é orientada a procurar o abrigo para refugiados do parque para receber o valor do celular quebrado. Lá, ela descobre que o voluntário que sempre passa o final do ano com os estrangeiros não poderá ir.

CasalInduAo encontrar as “amigas” sem querer em um café (elas haviam marcado o encontro e não a convidaram), ela lhes diz, por orgulho, que dirigirá uma peça no abrigo local. Apesar de as peruas velhas zombarem dela, Sabine sai triunfante. A alegria dura somente até a primeira aula com o grupo.

Os refugiados formam um grupo de pessoas das mais diversas nacionalidades e graus de domínio da língua alemã. Há Punishment, do Zimbábue, e mais outros poucos que a entendem. Seu objetivo, na realidade, era usar psicodrama para ajudá-los a lidar com sua situação, mas eles não se soltam. No terceiro dia, quase desistindo, Sabine propõe-lhes que interpretem heróis de seus respectivos países. Ninguém aparece com nenhuma ideia, até que um deles começa a falar de Guilherme Tell. A professora fica pasma quando o grupo decide que quer interpretar a clássica peça sobre o herói suíço escrita pelo maior poeta da língua alemã, Friedrich Schiller. Então começa a saga de Sabine.

Sabine e seu padrinho

Ela enfrenta resistência por todos os lados, desde sua professora até seu padrinho, um grande ator de teatro que aceita ajudá-la com a condição de que não cite seu nome (ele repete isso durante o filme inteiro e sinaliza os momentos em que se comove e reconhece o esforço hercúleo da afilhada). Quando a mídia local descobre que um grupo de refugiados que mal fala alemão vai interpretar uma das maiores obras em língua alemã, há tiros e rosas;  parece, no entanto, que, quanto mais Sabine se envolve nas vidas e nas histórias de seus atores improvisados, mais ela obtém forças das profundezas de seu espírito. Chega um momento em que até a instituição que cuida do abrigo exige que ela cancele a peça (a poucos dias da estreia). No final, as pessoas que mais a apoiam são uma funcionária do abrigo, sua família, a mulher de seu ex e seu padrinho, que chega a dar uma aula para os aspirantes a atores.

Heróis Improváveis consegue intercalar momentos graves com cenas cômicas. Nele, a política europeia para refugiados é apresentada com crueza. A sociedade e o governo fingem que estão ajudando, mas a farsa acaba quando se trata de conceder auxílio real e humano. Tratados podem ter sido assinados, mas, na prática, não há preocupação pelas pessoas. O motivo para o pedido de cancelamento da peça, por exemplo, é que as autoridades não querem que os refugiados se integrem à sociedade suíça, que eles sejam deixados à parte. O máximo que fazem é promover cursos de alemão, apenas, para ocuparem-nos. Quando isso fica claro para Sabine, há um choque. Apesar de ser um grande obstáculo, ela toma a execução da peça como questão de honra para ela e para aquelas pessoas que fogem de uma vida impossível em seus países natais. Há uma mãe viúva que perdeu os filhos, há um pai que deixou a família para tentar melhorar de vida e levá-los, há histórias de pobreza e morte na vida de todos eles. E a chegada da correspondência que lhes negará o refúgio é iminente. Alguns já a receberam, mas não têm para onde ir e permanecem na Suíça até serem pegos pela polícia.

Gessler

Ao longo do filme, o espectador percebe que não se trata apenas da superação de Sabine, mas de todas aquelas pessoas marginalizadas que vivem em um lugar onde os outros mal querem saber de sua existência (tanto que o abrigo fica no alto de uma montanha, isolado da cidade).

Não tem como não torcer por Sabine. E tenho certeza que você também vai torcer por ela se tiver a sorte de cruzar com esse filme por aí.

Info:

Trailer de Heróis Improváveis: http://youtu.be/XOZahzexFMM

Trilha do texto: Guilherme Tell, ou Guillaume Tell, de Rossini: http://grooveshark.com/album/Guillaume+Tell/6784571

Site oficial da 38º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: http://38.mostra.org/br

Artigo curtinho da Revista Superinteressante sobre o herói suíço: Guilherme Tell existiu mesmo?

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O conquistador do inútil

(…) agarrei-me a uma visão, a imagem de um grande barco a vapor atravessando uma montanha – o barco na névoa sendo puxado, por si só, por uma roldana morro acima, dentro da selva, e atravessando uma natureza que aniquila igualmente os lamentosos e os fortes (…)

As primeiras linhas do Prólogo de Conquista do inútil, do diretor de cinema alemão Werner Herzog, resumem mais do que eu imaginava a aventura narrada nesse diário do cineasta, escrito entre junho de 1979 a novembro de 1981. Nele, Herzog conta desde os primeiros passos do projeto de Fitzcarraldo até a filmagem de fato.

Herzog Fitzcarraldo

Herzog nas filmagens de Fitzcarraldo

Quando ganhei o livro de dois amigos em meu aniversário, imaginei que se tratava do relato das filmagens, como um making of do premiado filme. Nas primeiras páginas, ficou claro que Conquista era muito mais do que isso.

Herzog começa contando que se instala na floresta, próximo da cidade peruana de Iquitos, às margens do rio Amazonas, com parte da equipe para dar início a Fitzcarraldo, filme que ganharia o festival de Cannes e seria indicado para outros prêmios importantes do cinema.

Apesar do diretor-autor dizer nas primeiras páginas de Conquista que aquele não era um diário de filmagem, mas “algo como paisagens internas nascidas do deliro da selva”, não tem como falar do livro sem ao menos mencionar a película.

Fitzcarraldo narra a história de Brian Sweeney Fitzgerald (Fitzcarraldo pela pronúncia dos nativos), um fã de ópera cujos projetos fracassados de construir uma ferrovia na região amazônica, a Transandina, e fazer gelo no clima equatorial do Peru lhe renderam o apelido de Conquistador do Inútil. Seu novo sonho é construir um teatro de ópera em Iquitos e, para tanto, decide financiar a ideia com a extração de borracha de uma área ainda inexplorada. A questão é que a região é tomada por índios misóginos e o acesso a ela pelo rio é extremamente perigoso. A saída é transportar um navio por cima da montanha para alcançar as terras e conseguir explorar as seringueiras. É um sonho quase impossível a ser concretizado por métodos ainda mais improváveis.

KinskiHerzog

Grande Otelo, Herzog e Klaus Kinski

O livro mostra a relação de Herzog com os atores, a equipe e os índios, que participaram das filmagens e viveram boa parte do tempo com os estrangeiros no acampamento de Camisea e na central de Iquitos. Nele, descobri como Klaus Kinski, ator alemão admiradíssimo que já trabalhou diversas vezes com Herzog, era um… Ele tinha frequentes ataques histéricos de estrelismo no meio da selva e criava caso com tudo. O diretor era o único que sabia controlá-lo e lidar com ele com uma calma que parecia assustar a todos. Em dado momento, no final do livro, Herzog conta que os índios chegaram a ele e lhe perguntaram se queria que matassem Kinski, tal a dimensão dos problemas que o ator gerava. Fiquei pensando como o diretor aguentava isso. O filme me deu a resposta muito claramente: Kinski é um ator incomparável. A criatura é um monstro em dois sentidos – um intérprete assombroso e uma pessoa desumana. Interessante que a fúria da natureza encontra eco na cólera de Kinski, do mesmo modo que os dias calmos da floresta se veem refletidos na serenidade de Herzog.

O diretor alemão também fala da sua amizade com Mick Jagger, o líder dos Rolling Stones (precisava apresentar?). O titã participaria do filme, mas precisou sair do projeto porque a turnê da banda logo teria início. O diretor também menciona Francis Ford Coppola e os brasileiros Cacá Diegues, Grande Otelo e José Lewgoy. Os dois últimos inclusive trabalham no filme.

A postura de Herzog diante da floresta indomável varia entre reverência, medo e identificação. Depois de algum tempo na selva, abandona seu par de sapatos e anda descalço, como os nativos. Ele parece não buscar tratamento preferencial, mas se mistura aos demais.

Herzog e o navio içado pela montanha ao fundo

Herzog e o navio içado sobre a montanha ao fundo

Nem tudo é poesia. Herzog narra as diversas vezes em que comida, equipamentos e combustível são roubados do acampamento, os ataques à flecha de índios amehuaca a três pessoas da equipe, as chuvas e secas intermináveis, que atrapalhavam a filmagem, os percalços com as autoridades peruanas, os problemas de financiamento do projeto, a presença de doenças e a insalubridade que, às vezes, os assola. Um amigo seu da equipe, cujo nome ele preserva, tem um ataque de demência, pinta-se como um índio e toma como reféns funcionárias de uma agência de turismo na cidade. Ele menciona que seu amigo fotógrafo Werner Janoud teve tifo durante as gravações e descobri que confusão mental é um sintoma da doença. Bem, mas apesar de toda dificuldade, Herzog é um homem incrivelmente determinado. Como Fitzcarraldo, talvez.

Naquele ambiente tão afastado do mundo “civilizado”, muitas vezes Herzog se vê mergulhado dentro de si e se pergunta se, na verdade, não está se tornando Fitzcarraldo, o protagonista em busca de algo no qual apenas ele acredita. Ao ver o filme, entendi esse sentimento e também percebi como a história segue as linhas da vida real, com uma diferença: nos dois casos, há grandes sacrifícios em prol de um sonho, mas apenas no filme o protagonista fracassa e adapta o sonho à realidade. Herzog, por sua vez, teve êxito e parece ter conseguido fazer a película da forma que pretendera.

Mesmo com os inúmeros obstáculos no dia a dia, há momentos muito sublimes no diário. Em 13/2/1981, ao observar o rio Camisea carregar na correnteza pedaços de árvores, sujeira e pedras, Herzog anota: “Rolar de pesadas pedras no fundo do rio. Alguém já ouviu pedras suspirarem?”. Em outra circunstância, diz que se sentia tão solitário que, ao terminar uma leitura, enterrou o livro no chão da selva perto de sua cabana.

Quando as filmagens se iniciam, aparecem narrativas bem estranhas no diário. Herzog começa a contar uma cena, mas depois de algumas poucas linhas percebemos que são sonhos que ele teve à noite. Em geral, o cenário é a própria selva (que circula nas veias do diretor) e as situações são, no mínimo, surreais.

Uma coisa muito bacana de ter lido Conquista do inútil e visto o filme Fitcarraldo é que me senti parte de tudo aquilo, por ter acompanhado o processo no diário. Foi muito legal reconhecer os nomes nos letreiros e me lembrar de quem era cada pessoa em particular. No filme, descobri também que o cantor Milton Nascimento faz uma ponta como funcionário do Teatro Amazonas, em Manaus, teatro que, aliás, inspiraria Fitzcarraldo a construir uma casa de ópera em Iquitos, no Peru.

Fechei 2013 com um livro incrível e encerro, aqui, com as palavras finais de Conquista do inútil:

Olhei em volta, e com o mesmo ódio latente se encontrava a floresta, furiosa e fumegante, enquanto o rio, com indiferença majestosa e condescendência irônica, menosprezava tudo: a fadiga dos homens, o peso dos sonhos e os tormentos do tempo.

Info:
Trilha do texto: a ária O soave fanciulla, de uma das minhas óperas preferidas, La Bohéme, na voz de Enrico Caruso, ídolo de Fitzcarraldo e Herzog: http://grooveshark.com/s/O+Soave+Fanciulla+From+La+Bo/55Rgne?src=5

O filme, Fitzcarraldo, completo e com legendas em português no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=Nlhx52HMlZ8

O livro: Conquista do inútil, de Werner Herzog. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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Cosplay incidental

Dana ScullyApesar de nerd desde a infância, eu nunca tinha feito cosplay.

O meu sonho na adolescência era me vestir como a Dana Scully de Arquivo X, meu ídolo maior. Ela era incrível, séria, inteligente, bonita, baixinha como eu… Mas eu era uma menina, não tinha aqueles  longos sobretudos e tailleurs de Scully. Na época, não pude realizar meu desejo.

Muuuuitos anos depois (e não estou usando uma metáfora), acordei no meio de uma noite de quinta-feira pensando: “Uhm, acho que tenho o que é preciso desta vez”. Na sexta, fui para o trabalho com aquilo em mente. Fiz umas pesquisas sobre o figurino que queria e minha ideia parecia promissora. Quando cheguei em casa, vasculhei meus armários e, sucesso, eu tinha peças muito parecidas com as imagens que vira na Internet. Revi um episódio e acertei os detalhes.

Sábado, ansiosa, fui para o curso de espanhol, voltei correndo e me vesti. Um corpete com renda preta, mangas transparentes, uma saia bem longa de mesma cor, sapatos de salto altíssimos, um diário azul, a maquiagem certa, um hematoma (falso) no pulso direito. Bom, precisei vestir o corpete com ajuda de um espelho, para fechá-lo, pois era trançado nas costas. Mas consegui, deu tudo certo. Lá vou eu.

MelodyEntão, tive uma das experiências mais legais de minha vida adulta nerd. Fui ao Cinemark do Shopping Eldorado para assistir ao episódio  especial de 50 anos de Doctor Who, a série britânica que já faz parte de minha vida, mesmo nessa correria louca que meus dias se tornaram. Escolhi uma das personagens mais enigmáticas e interessantes do seriado, a Dra. River Song, no figurino que você pode ver acima.

Lá, havia fãs vestidos como o protagonista, o Doctor, em suas várias regenerações, outras vestidas como suas companions, como Martha, Amy Pond e a atual, Clara, mais alguns como personagens não fixos da séries, mas superlegais, como o Capitão Jack Harkness, e uma menina (fofíssima) como Dalek, um dos piores antagonistas do Doctor. Para a minha alegria, eu era a única River Song. E isso tornou as coisas ainda mais divertidas, porque, da mesma forma que sai caçando Doctors, companions e diversos personagens para tirar fotos com eles, outros fãs também vieram atrás de mim. O mais engraçado foi chamar as pessoas pelos nomes dos personagens, até nos apresentarmos de fato.

Para quem nunca fez cosplay, essa conversa toda deve parecer louca e talvez ingênua. Mas é um exercício muito interessante vestir-se como outra pessoa, especialmente se é fictícia e você a admira. Porque, para o fã, deparar-se com alguém nas vestes desse personagem é quase como encontrá-lo de fato. Provavelmente Freud explica, mas o que é divertido nem sempre precisa ser explicado. É um atestado de insanidade, como disse meu amigo Raul.

Doctors50No final, acabamos fazendo amigos. É quase como um networking (alerta, linguagem chata adulta), mas sem a pressão de vender nada, nem impressionar ninguém.

Não sei se poderei repetir a experiência, mas valeu muito a pena.

Para finalizar, se tiver curiosidade, no site Omelete você pode conferir, no primeiro grupo de imagens da página, algumas fotos minhas e de outros fãs de Doctor Who.

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Fôlego

GravityNesta sexta, 11 de outubro, estreou nos cinemas Gravidade, drama (ou ficção científica?) com Sandra Bullock e George Clooney. Já aviso que não contarei o final, mas, infelizmente, não tem como deixar de dar alguns spoilers. Então, vou sinalizá-los para quem não quiser estragar as surpresas do filme.

A Dra. Ryan Stone (Bullock) está resolvendo um problema em um satélite na órbita do planeta Terra acompanhada de Matthew Kowalski (Clooney) e outros três astronautas. Enquanto os dois estão fora da nave, Houston informa que devem sair dali com urgência, pois em alguns segundos serão atingidos por escombros de um satélite destruído intencionalmente pelos russos, mas que causou uma reação em cadeia, desmantelando outros equipamentos em órbita. Stone não consegue se soltar e é atingida pelos destroços. Então começa o pânico para ela (e para nós, espectadores desavisados em nossos óculos 3D): a cientista se afasta da nave, girando pelo espaço. Se você acabou de jantar, nesse momento o conteúdo do seu estômago pode voltar e lhe dar um oi. A sensação é terrível, ouve-se a respiração acelerada de Stone em desespero e vê-se o espaço girando ao seu redor. O oxigênio começa a se esgotar em seu traje de astronauta, mas Kowalski aparece e a salva.

De volta à nave, descobrem que os outros três tripulantes morreram com o impacto dos destroços. Stone e Kowalski estão sem comunicação com a NASA e à deriva. Ela, em sua primeira viagem ao espaço e com a reserva de oxigênio em 10%, se desespera. Ele, mais experiente, enxerga a estação espacial norte-americana e decide flutuar até lá (nem sei se podemos usar esse verbo para o espaço sideral) com Stone para pegar um veículo e dirigir-se à estação chinesa, que se encontra a uns cem quilômetros dali (o que é perto, no padrão dele) para retornar ao planeta. O problema é que eles têm apenas 90 minutos, até que os escombros deem a volta pela Terra e os atinjam de novo. No caminho, conhecemos um pouco mais sobre Stone. Como o seu nível de oxigênio está muito baixo, Kowalski conversa com ela doutora, para mantê-la atenta. Descobrimos, por exemplo, que perdeu a filha de quatro anos, que faleceu em um acidente tolo, ao bater a cabeça em uma pedra. Stone parece não ter muitos motivos para viver. Já Kowalski faz questão de sobreviver e não perde a esperança de ser salvo. Agora vem o spoiler maior. Pare de ler aqui e retorne abaixo, se não quiser saber sobre o filme todo.

[spoiler]

No momento em que se aproximam da Estação, Kowalski perde a propulsão de seu traje e não consegue se segurar em nada. Stone prende o pé em alguns cabos e tenta puxar o colega, que está preso a ela por uma amarra. Ele a convence a deixá-lo ir, pois, caso contrário, os cabos que a seguram vão se soltar, pela pressão contrária que o homem faz. Kowalski se solta e Stone diz que vai buscá-lo de alguma forma. Depois disso, ela consegue penetrar na Estação. Aqui, vem uma das cenas mais lindas do filme (que não são poucas, já que temos como pano de fundo a Terra vista do espaço).

Quando ela entra, livra-se de toda aquela roupa pesada e do capacete. Stone flutua por alguns segundos em posição fetal, recuperando as forças e o ar. Há cabos por perto, e o lugar é redondo e extremamente silencioso. A cena deixa a impressão muito forte de renascimento, os cabos fazendo as vezes de cordão umbilical e Stone voltando à vida que quase lhe fugiu por entre os dedos. O espectador, também, pode aproveitar para respirar fundo e se recompor.

Bullock

A partir daí, é a luta da cientista para fazer a pequena nave de fuga funcionar e levá-la à estação espacial chinesa. Quando acha que não tem saída, porque descobre que o veículo está sem combustível, tenta se comunicar com Houston. Tudo o que consegue é falar com um homem de língua estranha. Apesar de ela dizer “Mayday”, ele não entende o seu pedido de socorro e parece conversar normalmente. Primeiro, Stone fica irritada, depois, ao desistir de lutar e decidir sucumbir à morte inevitável, pede-lhe (por meio de latidos, porque os dois não se entendem verbalmente) que coloque os seus cachorros ao microfone, como fez quando a comunicação foi iniciada entre os dois. Algum tempo depois, pode-se ouvir o som de um bebê, e o homem começa a cantar uma canção de ninar. Stone está entregue à morte, mas tudo o que deseja no momento é escutar os sons da Terra, do que há de mais inocente neste planeta. O filme não termina aí, mas não contarei mais. [fim do spoiler]

Gravidade tem imagens belíssimas. O diretor, Alfonso Cuarón, passou quatro anos e meio fazendo pesquisas, testes, animações e filmando, até chegar no resultado que vemos na tela. Mas a ausência de gravidade, que se vê em 99% do filme, pode afetar de forma negativa os espectadores mais sensíveis. A tela gira, escombros voam contra os seus olhos, os personagens lutam para manter a direção e o equilíbrio, o áudio varia entre o silêncio completo e sons gritantes. Não recomendo MESMO ver esse filme com dor de cabeça ou após uma refeição. Antes, eu havia comido apenas um sorvete e bebido água. Sai zonza e com um pouco de dor de cabeça. Passou logo; no entanto, o incômodo foi claro para mim.

Não sou muito fã do cinema hollywoodiano (como se vocês não soubessem ahahaha), e não me simpatizo particularmente com Sandra Bullock (sei que ganhou Oscar, acho que o meu problema é de “santo” mesmo), mas, olha, não tenho do que reclamar. Preciso concordar com a crítica que Gravidade é um dos melhores filmes (os críticos mais afoitos o consideraram O MELHOR) do ano. Muito tenso, de tirar o fôlego. E a atuação de Bullock faz o espectador se sentir naquele traje pesado, sem ar e direção.

Não conhecia Cuarón. Após uma rápida pesquisa, descobri que esse diretor mexicano foi responsável por Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, que recebeu boas críticas na época. Mas o fato curioso é que foi expulso do curso de Cinema em seu país, porque gravou um curta, Vengeance Is Mine, em inglês. Vou procurar outras obras dele, que ainda são poucas.

Bem, espectadores de estômago sensível, melhor passarem longe de Gravidade por motivos de saúde. Os demais, assistam em 3D. Aviso que o final não é muito surpreendente, mas a forma como é colocado faz a película valer a pena.

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Os mestres no Velho Oeste

TheGoodTheBadAndTheUgly-Poster

Sim, finalmente um post sobre The Good, The Bad and The Ugly (o Bom, o Mau e o Feio), ou Três Homens em Conflito (no Brasil), um dos filmes mais incríveis feitos neste planeta. Hoje pago uma dívida que tenho com meus leitores, que conhecem a minha paixão por faroeste e pelo Clint (alguém reparou no meu sobrenome no Twitter?).

(Estou me controlando ferozmente, para não sair escrevendo como uma louca aqui. Há tanto o que dizer!!)

Ah, você não curte faroeste? Nem o Sr. Eastwood? Tudo bem. Mesmo assim, acho que vou dar inúmeros motivos que te farão assistir a esse clássico.

 

Os avisos

Antes de tudo: trilha (obrigatória) para ler este post: http://grooveshark.com/album/The+Good+The+Bad+And+The+Ugly/1870857 (apenas elimine a terceira música da lista, que não sei o que diabos está fazendo ali).

Usarei o nome original da película, The Good, The Bad and The Ugly, neste texto, mas aproveitarei os apelidos traduzidos dos personagens empregados na versão dublada, que soam muito mais legal para os nossos ouvidos brasileiros (especialmente com a dublagem do final dos anos 60).

A abertura

Logo no início do filme é impossível não dizer “Não acredito! Essa música!”. The Good, The Bad and The Ugly tem um dos temas do cinema mais conhecidos do mundo. Não tem como falar de faroeste e não pensar na trilha desse filme, composta pelo incrível (ídolo supremo) Enio Morricone, que dispensa apresentações.

Passada a emoção do reconhecimento e a apresentação dos nomes (enquanto rola o tema e ouvimos o som de tiros), nossos olhos param em uma típica cena do Velho Oeste: uma cidade com aspecto de abandono, poeira para todo lado, sol escaldante no céu e um cão vagabundo no chão. Agora são quase dez minutos de filme sem diálogo, só ação. Então somos introduzidos ao Feio.

As introduções

GBUCor

O Bom, o Mau e o Feio, protagonistas do nosso clássico, são apresentados magistralmente. Em um momento significativo da ação, nos primeiros minutos do filme, é congelada a cena com o personagem e surge uma legenda identificando-o (“The ugly”, “The good” e “The bad”). O Mau acabara de assassinar um homem por dinheiro; o Feio atravessa o vidro do saloon após o local ser invadido por bandidos; o Bom lança aquele seu olhar, com sua característica cigarrilha no canto esquerdo da boca.

Os atores

O Mau, conhecido como Olhos de Anjo ou Sentenza, é Lee Van Cleef, figurinha conhecida dos apaixonados por faroeste.

O Feio, chamado de Tuco, é Eli Wallach, que não era tão feio quanto Van Cleef, e fez outro clássico do gênero, Sete Homens e Um Destino.

O Bom, chamado apenas de Loirinho por Tuco, é Clint Eastwood, como não poderia deixar de ser. Ele não é tão bom assim, mas é honrado (dotado daquela honra do Velho Oeste).

A trama

Tuco (o Feio) e Loirinho (o Bom – gente, adoro o apelido dele) têm um acordo um pouco arriscado para ganhar dinheiro. O Bom entrega o Feio para xerifes de cidades distantes, recebe a recompensa pelo homem e, na hora em que o condenado será enforcado, atira na corda e foge com ele. Um dia, quando o Bom percebe que o “passe” do Feio não aumentará mais, vai embora e desfaz o acordo. Tuco o persegue e, prestes a lhe dar um tiro na cabeça após quase matá-lo de desidratação sob o sol do Oeste, se depara com uma carruagem descontrolada. Ao parar os cavalos, encontra homens assassinados e um quase morto. Este suplica por água e lhe promete 200 mil dólares, que estão enterrados em um cemitério. Descobrimos que é Bill Carson, homem perseguido pelo Mau (sabemos disso no começo do filme). Quando Tuco vai buscar a água, Loirinho se aproxima e obtém mais informações de Carson, que morre em seguida. O Feio não pode mais matar o Bom, porque ele sabe a metade do segredo. Sem ele, não conseguirá encontrar o dinheiro.

Em meio à Guerra de Secessão dos EUA, os três vão em busca do tesouro: o Bom e o Feio sabem juntos onde está. Já o Mau, que ainda não encontrou Carson e ignora que ele esteja morto, se alista do lado da União e paralelamente empreende uma caça ao homem.

A técnica

close extremo no rosto dos personagens quando falam é fundamental para transmitir suas emoções em cena e especialmente para mostrar as caras feias que Tuco faz. Há muitos closes ao longo do filme, repare. É uma característica do diretor.

ilbuonoilbruttoO diretor

O grande Sergio Leone é diretor da trilogia com Clint Eastwood composta pelos filmes Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965, também com Lee Van Cleef) e The Good, the Bad and The Ugly (1966). Esse italiano é conhecido como um dos mestres dos faroestes spaghetti. Neste filme, você vai achar o que há de melhor no gênero.

Os elementos clássicos

A fonte do letreiro com os créditos do filme, a trilha impossível de não assobiar, a cigarrilha no canto esquerdo da boca, o fósforo aceso na sola da bota, as moscas, os cenários áridos, os cadáveres quase sem sangue, os tiroteios, a briga no saloon, o som de tiros, os dubladores brasileiros da década de 70, os closes extremos, bandidos versus mocinhos, as caras de mau, a caça ao tesouro, a terra sem lei, a segurança e impaciência de Clint (mesmo quando o seu personagem está todo ferrado e prestes a morrer). Aliás, só do Sr. Eastwood eu poderia fazer uma lista longa.

The Good, The Bad and The Ugly é um filme para ser visto muitas vezes, e a cada assistida encontramos coisas novas. Se você ainda não viu, faça um favor e veja. E sem desculpas, porque há uma versão completa no YouTube.

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Animação para adultos!

Anima Mundi 2013Neste domingo terminou a edição paulista do festival Anima Mundi. Neste ano, consegui ir em apenas três sessões, uma pena. Mas vamos lá para as animações que vi!

Na sexta, 16/08, vi o Curtas 2. Adoro Curtas, porque dá para votar. Uma coisa que aprendi em tantos anos de festival é deixar para dar nota depois da última animação, porque a gente acaba se empolgando na hora e dá um “excelente” para um curta, mas em seguida vem o melhor que você já viu na sua vida inteira, e olha que falta de critério que fica registrada na sua cédula rs. Bem, então falarei das animações da nota mais alta que dei para a mais baixa:

– Choir Tour (Letônia): um coral de crianças está com sua maestra em tour. Na ausência dela, elas aprontam todas (e nunca param de cantar). É bacana que a animação transformou as crianças do coral em uma massa cantante com carinhas. Divertidinho. Dei a nota “bom”.

– The day I killed my best Friend (Espanha): uma garotinha e sua amiga imaginária se trancam no banheiro para um banho, mas acontece uma coisa assustadora! A animação é bem caótica, como deve ser a cabeça da menina, e a melhor cena é a mãe entrando no banheiro com visão de Robocop, classificando os objetos da bagunça de acordo com o que precisará fazer (o secador de cabelo ligado: desligar, uma poça no chão: limpar etc.). Dei a nota “bom” também.

– Lost & Found (EUA): memórias que aparecem como imagens e se desfazem em areia. Bonito. Quando comecei, já pensei “Ai, meu Deus, lá vem abstração sem pé, nem cabeça”, mas gostei bastante. Dei a nota “bom” também, porque sou chata pra caramba.

Historia

– Història d’Este (Espanha): história de um cara que acorda, bebe um café, um conhaque, uma cerveja. Um café para curar a ressaca,  um conhaque porque faz bem, uma cerveja para desinchar. E assim ele vai bebendo a mesma sequência e justificando com razões as mais loucas. Muito engraçado, mas podia ter um final melhor. Foi um anticlímax. Acho que dei a nota “muito bom”. Estou em dúvida.

– Dozhd Idyot (Rússia): um dia que começou tranquilo e ensolarado para a mãe e seu filhinho se transforma em um inferno que os separa para sempre. Lindo, lindo, belos traços, trilha linda, delicadíssimo. O final é o total oposto do início da animação. O título em português é Está Chovendo. Há rima visual entre a chuva de água, pacífica e frágil, e a de fogo, da violência e da guerra. Mereceu um “excelente” e uma reverência de minha parte. Meu amigo discordou.

– Ceux den Haut (França; Bélgica; Suíça): adaptação de um conto de Guy de Maupassant. Uma hospedaria fica totalmente isolada do mundo no alto dos Alpes durante o inverno. Um de seus ocupantes some e o outro é assombrado pelo medo e pela solidão. Muitíssimo bem feito, os traços transmitem perfeitamente o gélido e cruel inverno a que os personagens foram submetidos. “Excelente” merecidíssimo.

Já no domingo, vi as sessões Animação em Curso 5Panorama 8 (DOC). Como são muitas animações, destacarei apenas algumas, ou este post ficará longo demais.

Na Animação em Curso 5, as mais bacanas foram:

– Histoire Courte et Absurde du Suicide dun Bourreau (França): como o título diz, é a história curta e absurda do suicídio de um carrasco. Ele é o carrasco mais eficiente e temido da cidade, descendente de uma linhagem de homens que acabavam com a vida de condenados. Um dia, chega em casa mais cedo e encontra a esposa na cama com um juiz. Na impossibilidade de matar a autoridade, a saída que encontra é o suicídio, e agora precisa decidir um método dentre os muitos existentes. Parece pesado, mas é muito engraçado e ágil. O traço é divertido.

– Porcelain (Dinamarca): o capitão de um barco é rejeitado pelo vilarejo por ser o único a voltar de uma pescaria. Ele tem uma coleção de porcelanas com a imagem de uma mulher com uma boia de salvamento. Parece uma santa. O homem tenta voltar ao convívio dos demais e diz que a imagem é milagrosa e protege os pescadores do infortúnio. Gostei da melancolia que sempre encontro nas produções escandinavas. É um pouco niilista, pois há certa religiosidade ligada à imagem, mas se percebe que é tudo questão de sorte, não há céus que protejam os pescadores.

One More Beer!

– One More Beer! (Brasil): incrível. Curtíssimo, mas ótimo. Um viking brutamontes chega na taberna e pede um drinque. Só isso. A surpresa está em ver qual é a bebida que ele pede, apesar de sua expressão e tamanho intimidadores.

Já o Panorama 8 (DOC) apresentou apenas animações documentais sobre pessoas reais ou fatos históricos. Amei todas, e cada uma tinha algo de especial. Meus destaques:

– Bajo la Almohada (Espanha): feito com as vozes e os desenhos de crianças com HIV que vivem em uma clínica indiana. Muito delicado e inocente. Crianças são crianças em qualquer lugar do mundo, em qualquer situação.

Portraits

– Portraits de Voyages BRÉSIL: Candomblé (França): uma série documental animada, muito bacana. Escolheram o capítulo sobre o Candomblé e um outro sobre o México para o Panorama. O capoeirista entrevistado explica em francês o candomblé e a capoeira no episódio brasileiro.

– Mademoiselle Kiki et les Montparnos (França): conta a vida de Kiki de Montparnasse, musa de grandes pintores da vanguarda. Torna-se pintora, desenhista, escritora e cantora de cabaré. O bacana desta animação é a mudança de traços que vai acontecendo ao longo da narrativa, como se várias pessoas desenhassem a história de Kiki.

– Old Man (EUA): entrevista dada por Charles Mason por telefone a partir da prisão. A sua fala é ilustrada com animações muitas vezes loucas, refletindo bem o homem maluco que assassinou a esposa do Polanski, Sharon Tate.

No site do Anima Mundi, você pode consultar gratuitamente o catálogo com as animações deste ano clicando aqui.

Encontrei algumas animações completas na Internet, mas nem todas têm legendas em português. Vejam (como sou boazinha em procurar para vocês ahahaha):

– The day I killed my best Friend: http://vimeo.com/49182050 

– Història d’Este: http://vimeo.com/groups/stopmotion/videos/33071172

– Dozhd Idyot: http://vimeo.com/50286054

– Histoire Courte et Absurde du Suicide dun Bourreau: http://www.artilinki.com/fr/media/show/jeremy-balais-histoire-courte-et-absurde-du-suicide-d-un-bourreau

– Porcelain: http://www.animwork.dk/en/student_presentation.asp?UserId=100407

– One More Beer!: http://vimeo.com/50522981

– Portraits de Voyages BRÉSIL: Candomblé: http://www.youtube.com/watch?v=7f2xdMIonmI

– Mademoiselle Kiki et les Montparnos: http://videos.arte.tv/fr/videos/mademoiselle-kiki-et-les-montparnos-d-amelie-harrault–7564328.html

Espero que tenham curtido a minha seleção. Também foi no Anima Mundi? Conta para mim nos comentários!

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Tudo está nos detalhes

Tesis Sobre Un HomicidioJá que ando no clima de escrever sobre cinema (vocês provavelmente dormiriam se soubessem das minhas leituras atuais), hoje vou falar de mais um filme. Agora, um suspense, para variar.

No final de julho, chegou às telas brasileiras Tese Sobre um Homicídio, novo thriller argentino com o meu querido Ricardo Darín. Admito que escolhi o filme pela presença pelo cast, mas não me decepcionei (ufa!).

Roberto Bermudez é um especialista em direito criminal que oferece um seminário na Universidade de Direito. Dentre seus alunos está Gonzalo Ruiz Cordera, um jovem advogado que voa da Espanha para a Argentina somente para acompanhar essas aulas.

O professor acaba de lançar um livro sobre a estrutura da justiça argentina e, na noite de autógrafos, Gonzalo aparece e lhe expõe sua teoria. O rapaz tenta lhe provar que não existe justiça, já que a noção de crime é muito relativa. Para ilustrar sua ideia, diz que se matar uma borboleta qualquer, não será preso. No entanto, se destruir a borboleta da coleção de um milionário, certamente ele será processado. Bermudez não dá importância à tese de Gonzalo, dizendo que poderia derrubá-la com uma dezena de contra-argumentos.

Em sua segunda aula, Bermudez fala algo que precisaremos manter em mente a partir daí e que será o mote da trama: “Detalles. Todo está en los detalles”. Em seguida, uma moça é encontrada morta no estacionamento da universidade em frente à janela da sala onde está a turma de Bermudez. O professor vai até a cena do crime e começa a observar tudo atentamente. O fato de o corpo ter sido deixado onde ele poderia ver o incomoda e faz com que se envolva na investigação.

Ao conversar com o legista e analisar o cadáver, Bermudez percebe que a moça, que descobrem ser Valeria, garçonete do bar em frente à Universidade, usava um pingente de borboleta no pescoço. O que o intriga é que ela foi estrangulada, mas o colar não deixara marcas em sua pele. Bermudez leva embora o pingente sem o legista ver e começa uma investigação paralela, inclusive conversando (e se envolvendo) com a irmã da vítima, Laura.

Darin y sus detalles

O protagonista se concentra nos detalhes do crime e tudo parece indicar que o assassino é Gonzalo. Mais adiante descobrimos que o rapaz, na verdade, é sobrinho de Bermudez, e o admira a ponto de ter se tornado advogado por causa do tio.

O que me agradou bastante em Tese Sobre um Homicídio é a forma pela qual o diretor Hernán Goldfrid apresenta as hipóteses e descobertas. O filme tem muitas cenas silenciosas, em que o espectador é convidado a participar das investigações de Bermudez com os olhos. Os personagens não exprimem tudo verbalmente e, em diversos momentos, você é obrigado a tirar as suas próprias conclusões.

O silêncio em si me agrada, pois não é excessivo a ponto de tornar o filme sonolento. Por outro lado, os diálogos que existem entre os personagens não são gratuitos e também revelam muitos elementos importantes – é preciso ficar atento, porque, caso contrário, você perde informações valiosas.

Outra coisa positiva da película é a cena em que Bermudez segue Gonzalo até o museu e o observa à distância. Nesse momento, todas as pessoas à volta estão desfocadas, e apenas vemos claramente o protagonista e o rapaz. A sua obsessão parece fazer com que enxergue somente o alvo de suas suspeitas, nada mais importa.

Darín, que está em cartaz em São Paulo com outros dois filmes, Um Conto Chinês (uma comédia dramática excelente, recomendo!) e Elefante Branco, convence no papel de homem obcecado e consegue fazer o espectador tomar seu partido. Foi engraçado que, ao comentar sobre Tese com algumas pessoas, descobri que o ator tem mais fãs ao meu redor do que eu podia imaginar.

Outro ator que está  igualmente bem é Alberto Ammann no papel de Gonzalo – bem, a ponto de ficar com vontade de lhe dar um soco na cara rs. Ele conseguiu fazer o advogado prepotente e irritante que o roteiro exigia.

Fazia tempo que não via um bom suspense cujo protagonista me envolvesse tanto, a ponto de eu não ter absoluta certeza da verdade. Não darei spoilers, então, assistam!

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