Arquivo da categoria: Leituras

Visita à amiga

franzen_SebastianLucre

Minha querida companheira de aventuras e editora Priscila Silva me convidou para contribuir na edição de julho da Revista Escrita Pulsante. Os textos que as editoras publicam são bem escolhidos e amo o visual da Revista. Nem preciso dizer que fiquei superfeliz.

E sobre o que mais escreveria? Sobre literatura, claro! Bem, na verdade, sobre o escritor Jonathan Franzen e “nossa” relação conturbada.

Meu texto você pode ler aqui, mas vale a pena ler a edição toda também.

Espero que curtam. 🙂

Foto: Sebastian Lucre

1 comentário

Arquivado em Leituras

Mistério em areias catarinenses

Garopaba.jpg

O episódio 131 do podcast 30:MIN sobre o aclamado livro de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, deixou-me curiosa. Apesar de já ter ouvido falar bem de Barba, dois participantes do cast não pareciam muito empolgados com o livro. Tinha terminado um outro livro e estava sem nada para fazer (ahã, até parece), então resolvi ver por mim mesma qual é a desse cara.

O romance traz a história de um professor de educação física cujo nome nunca conhecemos. Ele se muda para Garopaba, no litoral catarinense, compelido a desvendar o mistério de seu avô, o qual teoricamente foi assassinado há muitos anos na cidade. O protagonista tem uma condição neurológica que o impede de lembrar o rosto das pessoas. O autor usa recursos bem interessantes para mostrar como o professor faz para reconhecer os demais – o andar, o cabelo, tatuagens, acessórios. Ele precisa manter uma foto de si com uma legenda, tal é a seriedade de sua condição.

O que foi bastante criticado no cast foi o desenvolvimento das personagens femininas. De fato, as mulheres retratadas são bastante estereotipadas, superficiais: há a jovem inconsequente, a universitária intelectual, a velha doida, a prostituta, a ex; por isso tive mais empatia com a cachorra Beta do que com qualquer uma dessas mulheres. Essa relação do autor com suas personagens femininas me incomodou, mas, para ser honesta, após um tempo de leitura, isso foi minimizado, porque entrei no protagonista e adotei o olhar dele. Como ainda não li outros trabalhos de Galera, não posso afirmar que lhe seja inata a dificuldade para desenvolver personagens femininas ou se, em “Barba”, a apresentação delas se deve muito à própria natureza do protagonista, um rapaz jovem e um pouco bronco (a relação dele com Viviane deixa isso evidente).

A narrativa faz com que você viva em Garopaba até a derradeira página. Aliás, essa é uma grande qualidade do livro. Fica claro que Galera conhece bem a cidade catarinense e seu entorno, o que coloca o leitor com os pés na areia. A proximidade do mar, que assusta e fascina o professor de educação física, é uma ameaça constante e silenciosa.

Por outro lado, as descrições de alguns eventos do qual o protagonista participa são enfadonhas. Em determinado ponto, há uma apresentação no circo que pulei sem dó. Corria os olhos pelas linhas até encontrar novamente o protagonista. No entanto, há momentos inspirados, como no início, quando o narrador fala de uvas “transpirando açúcar após meses de seca e calor”.

Enfim, o livro tem alguns problemas, mas diverte. Não é uma obra excepcional da literatura contemporânea, mas vale pelo talento de Galera com as palavras. O enredo é bastante simples, mas o mistério acerca da morte do avô vai prendendo o leitor, enquanto litoral catarinense é descortinado. Certamente procurarei outros romances do autor, que tem quatro publicados (incluído Barba).

Barba

Info:

Leia aqui um trecho do livro.

Mais info sobre o autor e suas obras aqui.

Podcast 30:MIN – episódio 131.

Foto da abertura: Embratur.

1 comentário

Arquivado em Leituras

As femmes (não tão) fatales do Fantasma

Cinco longos meses longe do blog. Não, eu não tenho vergonha na cara, mas tenho saudades de escrever sobre coisas não relacionadas a política externa, história e afins; por isso arranjei uma boa desculpa para escrever aqui.

E meu retorno dá-se para trazer mulheres maravilhosas, sedutoras, inteligentes e más, muito más, que, apesar de todas essas qualidades, não conseguem ganhar o coração de um homem imortal que caminha pelas florestas. Estou falando das femmes fatales dos quadrinhos do Fantasma, o herói mascarado de Lee Falk e Ray Moore. Para começar, dois avisos: não vou falar especificamente sobre a “banda desenhada”, como dizem nossos amigos lusitanos, nem analisá-la, mas me concentrarei nas mulheres presentes na saga Piratas do Céu, publicada recentemente pela Ediouro em uma edição bem bacana. Além disso, não leio muitos quadrinhos de heróis, pois prefiro as graphic novels, então não entrarei em certas discussões.

Para quem não conhece o personagem, o Fantasma, na verdade, são várias pessoas no papel de um só herói.phantom No século XVI, Christopher Walker Jr. sobrevive a um ataque de piratas e promete combater esse tipo de criminosos para o resto da vida, tornando-se o Espírito que Anda. Seus descendentes vão assumindo a tarefa de uma geração para outra até nossos dias. Pode-se perceber que são homens comuns, sem superpoderes, mas ágeis e muito habilidosos e que sabem tirar proveito do mito.

No caminho do misterioso herói de uniforme roxo, surgem mulheres lindas, perversas (se pervertidas, não sei) e espertas. Em Piratas do Céu, a primeira a aparecer é a sedutora Sala, que, independentemente de estar na selva ou em um pântano, sempre está vestida como uma diva (fico pensando em como deve ser frustrante correr com uma roupa dessas, mas quem sou eu, em meu jeans e camiseta). Em seguida, conhecemos aquela que disputará o coração do herói com Sala: a Baronesa. Ela não é tão bonita quanto a outra, mas veste-se da mesma maneira. Elas lutam por ele, mas ele já é de outra, meninas.

Greta Garbo

Greta Garbo

Tirando a brincadeira, interessei-me pela forma pela qual as personagens femininas são apresentadas na história. Exceto por Diana Palmer, socialite por quem o Fantasma está apaixonado, as demais compartilham uma fraqueza moral que as leva para o crime e uma leviandade causada pela paixão desenfreada e repentina que desarticula seus grupos e quase as mata. São um misto de Mata Hari e  heroína virgem e pura do Romantismo, mas com um toque de histeria. Essa superficialidade delas será instrumento nas mãos de Lee Falk para tornar o enredo mais emocionante, já que, como todos sabem, não se deve mexer com uma mulher apaixonada (ainda mais se ela não tiver o que perder). Sim, porque essa impetuosidade das mulheres que cercam o Fantasma resultará em riscos para ele (e para elas), ao mesmo tempo em que cria oportunidades ao herói para as manipular e realizar seu intento.

Marlene Dietrich

Marlene Dietrich

Apesar de terem um ar de femme fatale, as personagens de Piratas do Céu vestem-se de maneira mais bem comportada. Essa história foi publicada entre 1936 e 1937, o que pode justificar essa decência toda em termos de vestimenta. Elas são perfeitos produtos da época, com os cabelos à la Marlene Dietrich ou Greta Garbo e seus vestidos justos em corpos magros. Na segunda história, A Volta das Piratas do Céu, as mulheres aparecem ainda mais sexy, em vestidos curtos e roupas decotadas e cabelos mais longos com um ar de pin up. Essa continuação foi publicada entre 1941 e 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, época de auge da diva Rita Hayworth.

Rita Hayworth

Rita Hayworth

Enfim, a história é bem legal, daquelas que você não quer largar até a última página. O Fantasma é um herói bem interessante, com essa história de justiça pelas próprias mãos passada de pai para filho e com suas habilidade bastante humanas. Cria-se todo um mistério à sua volta e ele consegue mantê-lo bem, resistindo, inclusive, a tiros. Boa leitura para fugir um pouco do dia a dia.

Info: Trilha do texto: The Shocking Miss Emerald da talentosa Caro Emerald

PS: não coloquei imagens das personagens dos quadrinhos de propósito. Usem sua imaginação 😉

3 Comentários

Arquivado em Leituras

O conquistador do inútil

(…) agarrei-me a uma visão, a imagem de um grande barco a vapor atravessando uma montanha – o barco na névoa sendo puxado, por si só, por uma roldana morro acima, dentro da selva, e atravessando uma natureza que aniquila igualmente os lamentosos e os fortes (…)

As primeiras linhas do Prólogo de Conquista do inútil, do diretor de cinema alemão Werner Herzog, resumem mais do que eu imaginava a aventura narrada nesse diário do cineasta, escrito entre junho de 1979 a novembro de 1981. Nele, Herzog conta desde os primeiros passos do projeto de Fitzcarraldo até a filmagem de fato.

Herzog Fitzcarraldo

Herzog nas filmagens de Fitzcarraldo

Quando ganhei o livro de dois amigos em meu aniversário, imaginei que se tratava do relato das filmagens, como um making of do premiado filme. Nas primeiras páginas, ficou claro que Conquista era muito mais do que isso.

Herzog começa contando que se instala na floresta, próximo da cidade peruana de Iquitos, às margens do rio Amazonas, com parte da equipe para dar início a Fitzcarraldo, filme que ganharia o festival de Cannes e seria indicado para outros prêmios importantes do cinema.

Apesar do diretor-autor dizer nas primeiras páginas de Conquista que aquele não era um diário de filmagem, mas “algo como paisagens internas nascidas do deliro da selva”, não tem como falar do livro sem ao menos mencionar a película.

Fitzcarraldo narra a história de Brian Sweeney Fitzgerald (Fitzcarraldo pela pronúncia dos nativos), um fã de ópera cujos projetos fracassados de construir uma ferrovia na região amazônica, a Transandina, e fazer gelo no clima equatorial do Peru lhe renderam o apelido de Conquistador do Inútil. Seu novo sonho é construir um teatro de ópera em Iquitos e, para tanto, decide financiar a ideia com a extração de borracha de uma área ainda inexplorada. A questão é que a região é tomada por índios misóginos e o acesso a ela pelo rio é extremamente perigoso. A saída é transportar um navio por cima da montanha para alcançar as terras e conseguir explorar as seringueiras. É um sonho quase impossível a ser concretizado por métodos ainda mais improváveis.

KinskiHerzog

Grande Otelo, Herzog e Klaus Kinski

O livro mostra a relação de Herzog com os atores, a equipe e os índios, que participaram das filmagens e viveram boa parte do tempo com os estrangeiros no acampamento de Camisea e na central de Iquitos. Nele, descobri como Klaus Kinski, ator alemão admiradíssimo que já trabalhou diversas vezes com Herzog, era um… Ele tinha frequentes ataques histéricos de estrelismo no meio da selva e criava caso com tudo. O diretor era o único que sabia controlá-lo e lidar com ele com uma calma que parecia assustar a todos. Em dado momento, no final do livro, Herzog conta que os índios chegaram a ele e lhe perguntaram se queria que matassem Kinski, tal a dimensão dos problemas que o ator gerava. Fiquei pensando como o diretor aguentava isso. O filme me deu a resposta muito claramente: Kinski é um ator incomparável. A criatura é um monstro em dois sentidos – um intérprete assombroso e uma pessoa desumana. Interessante que a fúria da natureza encontra eco na cólera de Kinski, do mesmo modo que os dias calmos da floresta se veem refletidos na serenidade de Herzog.

O diretor alemão também fala da sua amizade com Mick Jagger, o líder dos Rolling Stones (precisava apresentar?). O titã participaria do filme, mas precisou sair do projeto porque a turnê da banda logo teria início. O diretor também menciona Francis Ford Coppola e os brasileiros Cacá Diegues, Grande Otelo e José Lewgoy. Os dois últimos inclusive trabalham no filme.

A postura de Herzog diante da floresta indomável varia entre reverência, medo e identificação. Depois de algum tempo na selva, abandona seu par de sapatos e anda descalço, como os nativos. Ele parece não buscar tratamento preferencial, mas se mistura aos demais.

Herzog e o navio içado pela montanha ao fundo

Herzog e o navio içado sobre a montanha ao fundo

Nem tudo é poesia. Herzog narra as diversas vezes em que comida, equipamentos e combustível são roubados do acampamento, os ataques à flecha de índios amehuaca a três pessoas da equipe, as chuvas e secas intermináveis, que atrapalhavam a filmagem, os percalços com as autoridades peruanas, os problemas de financiamento do projeto, a presença de doenças e a insalubridade que, às vezes, os assola. Um amigo seu da equipe, cujo nome ele preserva, tem um ataque de demência, pinta-se como um índio e toma como reféns funcionárias de uma agência de turismo na cidade. Ele menciona que seu amigo fotógrafo Werner Janoud teve tifo durante as gravações e descobri que confusão mental é um sintoma da doença. Bem, mas apesar de toda dificuldade, Herzog é um homem incrivelmente determinado. Como Fitzcarraldo, talvez.

Naquele ambiente tão afastado do mundo “civilizado”, muitas vezes Herzog se vê mergulhado dentro de si e se pergunta se, na verdade, não está se tornando Fitzcarraldo, o protagonista em busca de algo no qual apenas ele acredita. Ao ver o filme, entendi esse sentimento e também percebi como a história segue as linhas da vida real, com uma diferença: nos dois casos, há grandes sacrifícios em prol de um sonho, mas apenas no filme o protagonista fracassa e adapta o sonho à realidade. Herzog, por sua vez, teve êxito e parece ter conseguido fazer a película da forma que pretendera.

Mesmo com os inúmeros obstáculos no dia a dia, há momentos muito sublimes no diário. Em 13/2/1981, ao observar o rio Camisea carregar na correnteza pedaços de árvores, sujeira e pedras, Herzog anota: “Rolar de pesadas pedras no fundo do rio. Alguém já ouviu pedras suspirarem?”. Em outra circunstância, diz que se sentia tão solitário que, ao terminar uma leitura, enterrou o livro no chão da selva perto de sua cabana.

Quando as filmagens se iniciam, aparecem narrativas bem estranhas no diário. Herzog começa a contar uma cena, mas depois de algumas poucas linhas percebemos que são sonhos que ele teve à noite. Em geral, o cenário é a própria selva (que circula nas veias do diretor) e as situações são, no mínimo, surreais.

Uma coisa muito bacana de ter lido Conquista do inútil e visto o filme Fitcarraldo é que me senti parte de tudo aquilo, por ter acompanhado o processo no diário. Foi muito legal reconhecer os nomes nos letreiros e me lembrar de quem era cada pessoa em particular. No filme, descobri também que o cantor Milton Nascimento faz uma ponta como funcionário do Teatro Amazonas, em Manaus, teatro que, aliás, inspiraria Fitzcarraldo a construir uma casa de ópera em Iquitos, no Peru.

Fechei 2013 com um livro incrível e encerro, aqui, com as palavras finais de Conquista do inútil:

Olhei em volta, e com o mesmo ódio latente se encontrava a floresta, furiosa e fumegante, enquanto o rio, com indiferença majestosa e condescendência irônica, menosprezava tudo: a fadiga dos homens, o peso dos sonhos e os tormentos do tempo.

Info:
Trilha do texto: a ária O soave fanciulla, de uma das minhas óperas preferidas, La Bohéme, na voz de Enrico Caruso, ídolo de Fitzcarraldo e Herzog: http://grooveshark.com/s/O+Soave+Fanciulla+From+La+Bo/55Rgne?src=5

O filme, Fitzcarraldo, completo e com legendas em português no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=Nlhx52HMlZ8

O livro: Conquista do inútil, de Werner Herzog. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

2 Comentários

Arquivado em Cinema, Leituras

Ausência e um pouco de poesia

TardesEmVersosVocês devem ter notado que faz um tempinho que estou sem escrever no blog. A minha rotina se alterou drasticamente na última semana (não, ainda não casei, não estou grávida, nem adotei um novo bichinho) e estou me adaptando a ela. Peço um pouquinho de paciência até as coisas se ajeitarem (:

Bom, nesse ínterim, eu e uns amigos começamos um projeto de postar diariamente um poema no Facebook. Para isso criamos a fanpage https://www.facebook.com/tardemversos Se você quer colocar um pouco de poesia nos seus dias ora ensolarados, ora nublados, curta a nossa página. Temos publicado versos de poetas dos mais variados movimentos, dos clássicos aos contemporâneos. O critério, basicamente, é o nosso estado de espírito e o nosso gosto. E também aceitamos contribuições.

Deixe um comentário

Arquivado em Leituras

Mendigo-monstro – Down and Out (final)

Casual Ward

Pessoas aguardam para entrar no albergue da Thomas Street, 1902.

Tentei pensar em uma trilha para este texto. Se colocasse músicas tristes para escutar, era capaz de deixar o post de hoje, que fala de algo tão delicado, algo sufocante. Então coloquei no shuffle e rolou até Alice in Chains 🙂

Nas semanas anteriores, escrevi como foi a vida de George Orwell em Paris e Londres contada no ótimo Down and Out in Paris and London. Hoje encerro com as reflexões do autor sobre o que viu nas ruas da capital inglesa. Se você chegou agora, leia aqui a resenha sobre os dias parisienses de Orwell ou aqui sobre a temporada em Londres.

Em dado momento da narrativa, Orwell decide refletir sobre a posição social dos mendigos. Após viver semanas como um, o autor não consegue entender a postura da sociedade diante dessas pessoas. Primeiramente, ele sente que existe uma distinção entre mendigos e trabalhadores “normais” que, na realidade, não existe, nem faz sentido. “Eles são seres humanos normais”, diz Orwell.

A sociedade inglesa, segundo o autor, rejeita mendigos como se fossem criminosos e parasitas, sem valor algum. Mesmo assim, eles são tolerados somente porque a Inglaterra de sua época é “mais humana”; as coisas ainda poderiam ser piores.

Em defesa desses miseráveis obrigados a viver andando sem descanso, Orwell debate o significado de trabalhar, porque ele percebe que o desprezo se deve ao fato de os mendigos não trabalharem. Diz que contadores trabalham somando números, construtores de canais trabalham brandindo picaretas, e mendigos trabalham ficando de pé ao relento sob sol ou chuva e contraindo bronquite e varizes. O trabalho do mendigo é bem inútil, admite Orwell, mas muitas profissões têm atividades igualmente inúteis. Em seguida, ele mostra como a sua sociedade é cruel ao raciocinar que o mendigo paga pelo pouco que consegue da sociedade (alojamentos praticamente inóspitos e uma alimentação insuficiente) com o seu sofrimento.

Orwell conclui essa reflexão dizendo que o desprezo social se deve ao fato de esses homens não ganharem dinheiro suficiente que lhes permita ter uma vida decente. A questão aqui não é a utilidade do trabalho ou o que ele produz de concreto, mas a sua lucratividade. Mendigos não ganham dinheiro – portanto, não merecem respeito da sociedade em que estão inseridos.

Como no relato parisiense, mais adiante Orwell dedica um capítulo inteiro apenas a reflexões sobre o grupo do qual fez parte durante um mês. Nele, o autor conta que já na infância se aprende que mendigos são homens vis (ou salafrários, palavra tão em desuso quanto o termo do original, blackguards): criaturas (note: criaturas, não pessoas) repulsivas e perigosas que preferem morrer a trabalhar ou tomar banho e que gostam de mendigar, beber e roubar galinheiros. E porquê (diabos, acrescento eu) alguém se tornaria vagabundo? Para fugir do trabalho, mendigar com mais facilidade, praticar crimes ou porque simplesmente gosta de vagabundear. Na realidade, Orwell mostra que o único motivo para uma pessoa se tornar mendigo é a lei. Sim, porque se o homem não tem dinheiro e sua comunidade não o mantém, ele é obrigado a viver nos alojamentos públicos, o que, consequentemente, o mantém em permanente movimento (lembre-se, ele não pode ficar mais de uma noite no mesmo spike).

Voltando ao mendigo-monstro, Orwell afirma que a realidade é completamente diferente (como poderíamos facilmente deduzir). Para começar, os mendigos são pessoas pacíficas. A prova disso são os spikes, que nem existiriam se eles fossem violentos. Segundo, mendigos não eram alcoólatras, porque cerveja era uma bebida cara e eles mal tinham dinheiro para comprar uma xícara de chá. Terceiro, não é da índole do inglês ser parasita; portanto, mesmo que se tornasse miserável, uma pessoa dessa nacionalidade não se tornaria aproveitador.

A figura do mendigo-monstro me fez lembrar de uma matéria que li há alguns anos, não sei se na Revista Ocas”. É uma pena não ter certeza. Mas a questão é que o texto apontava para o fato de a sociedade brasileira ter uma opinião completamente distorcida da população em situação de rua. Muitos têm uma visão generalista, acreditando que todos os moradores de rua são loucos, drogados, alcoólatras. É certo que há inúmeros escravos de vícios, mas não são todos, e cada um tem a sua história – na verdade, muitas histórias para contar. Eu gostava de conversar com os vendedores da Ocas” na frente do então Espaço Unibanco de Cinema, na rua Augusta. Eles são ex-moradores de rua treinados pela revista. Alguns eram mais tímidos, outros mais falantes, todos eram educados. Faz tempo que não os vejo.

Bem, voltando ao Orwell e à sua Inglaterra (muitas vezes parecida com o nosso Brasil), ele trata inclusive de um tema muito delicado, a sexualidade dos mendigos. O autor afirma que é praticamente impossível um homem nessa situação se envolver com uma mulher. Primeiramente, era raríssimo encontrar mendigas – Orwell atribui a isso o fato de o desemprego afetar menos as mulheres e, como último recurso e se forem apresentáveis (mancada, Orwell), elas ainda podiam se unir a um homem (provedor). Dessa forma, os homens em situação de rua são submetidos a um celibato involuntário, o que faz com que se envolvam sexualmente com outros homens ou cometam estupros. E ele acrescenta: como o impulso sexual é algo tão básico, a privação de sexo para essas pessoas pode ser tão desmoralizante quanto a falta de comida. O fato de o mendigo não ter possibilidade de casar o afeta profundamente.

E o que fazer para diminuir o sofrimento do miserável? Orwell sugere começar pelos albergues, tornando-os habitáveis. No entanto, a questão central para ele é como fazer com que o mendigo deixe de ser uma pessoa semiviva, ociosa e entediada e se torne um ser humano com respeito próprio – e a solução não está apenas em lhe proporcionar conforto. O autor entende que a saída é encontrar uma ocupação para ele. Uma opção seria os spikes disporem de pequenas fazendas ou jardins em que se pudesse trabalhar. A produção poderia ser convertida para o benefício dessas pessoas, alimentando-as com algo melhor que pão-com-manteiga-e-chá. Assim, não seria criado nenhum ônus para o governo e a vida de muitos poderia ser melhorada. Orwell faz essas sugestões de forma humilde, mas com a propriedade de quem conhece bem o assunto.

Aqui terminam as reflexões de Orwell e o meu texto. O que vocês acharam? Muito próximo da nossa realidade? Compartilhe suas impressões com a gente aqui no blog!

Imagem de abertura: foto de Peter Higginbotham (The Workhouse – Whitechapel).

4 Comentários

Arquivado em Leituras