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Boemia parisiense no Municipal

musetta

Na fria terça-feira de 3 de maio, fui ao Teatro Municipal de São Paulo conferir a nova montagem da aclamada La Bohème de Giacomo Puccini. Confesso que estava com alguma expectativa – não tanto como aconteceu com Lohengrin¸ de Richard Wagner, que é a minha mais querida. Há alguns anos, quando fazia canto lírico, tive oportunidade de estudar um dueto e uma ária dessa ópera. Sabia que eram necessários um tenor e uma soprano com fôlego e cor na voz.

La Bohème não é a primeira ópera de Puccini, mas aquela que o lança ao estrelato no fim do século XIX. Sua estreia mundial aconteceu em Turim, em 1896, e veio para São Paulo apenas um ano depois. Baseada na novela francesa de Henri Murger, Scènes de la Vie de Bohème, conta a história de quatro jovens artistas que vivem numa água-furtada no Quartier Latin parisiense com o dinheiro contado, mas sempre alegres e criando. Em uma noite, sua vizinha, Mimí, bate à porta dos rapazes, quando só o poeta Rodolfo está, para pedir fogo para uma lamparina. Aí começa uma das histórias de amor e sofrimento centrais da ópera, entremeada de humor. Outro romance importante é da cortesã Musetta com o pintor Marcello.

Boheme Elenco inteiro

A ópera assinala a maturidade musical do autor e é a primeira a misturar elementos românticos e realistas. Apesar de sua ambientação ser a Paris do século XIX, poderia muito bem se passar em qualquer outra grande cidade na qual vivam jovens artistas que lutam para sobreviver. A montagem do Municipal manteve Paris como sede da obra, naquela vibe minimalista que tem dominado o Teatro nos últimos anos. Os figurinos, por sua vez, parecem se inspirar na década de 1940. Visualmente, eles adotaram saídas muito boas, como limitar um quadrado no palco caracterizando o lar dos rapazes sem paredes, circundado por folhas brancas de papel (no inverno frio) ou por rosas vermelhas (na morte de Mimí). Na cena do café Momus, algumas peças, como cadeiras, mesas e piano, foram aproveitadas da casa. A paleta restrita a tons de cinza, fugindo apenas na morte de Mimí com a profusão do vermelho, também foi uma escolha incrível.

Mas vamos ao que interessa. Os cantores tinham uma energia muito boa entre eles, demonstrada especialmente nas cenas de humor. Quando Mimí aparece na água-furtada dos rapazes e canta a ária em que se apresenta a Rodolfo (Mi chiamano Mimí, que você pode ouvir na humilhante voz de Maria Callas aqui), a linda soprano romena Cristina Pasaroiu me surpreendeu com sua voz adocicada. Pensei, o Rodolfo de Ivan Magri tem boa voz também, o dueto será bom. No entanto, quando chegou O soave fanciulla (esta aqui), não sei. Faltou paixão em suas vozes, e em alguns momentos a voz de Cristina ficou fraca demais – apesar de a partitura pedir. Tudo bem, temos ainda a Musetta. Esta, na voz da também romena Mihaela Marcu, felizmente roubou a cena com Quando me’n vo – que era o efeito esperado dessa partitura (ouça aqui na voz de Callas). Fora deles, acho que preciso falar do maravilhoso barítono italiano Mattia Olivieri, que marcava presença como Marcello. Foi muito aplaudido.

la-boheme_HeloisaBallarini

Bom, ainda tem um ponto que não me agradou muito (o último, vai). A morte de Mimí. Quando ela expira calmamente na casa dos rapazes, e Rodolfo percebe, vai até ela e a abraça, chorando. Nesse momento, caem pétalas de rosas vermelhas sobre a cena, enquanto os demais personagens se lamentam. Quem sou eu para achar alguma coisa, mas isso me pareceu piegas, e não era esse o objetivo de Puccini. Talvez bastasse encerrar com a cortina descendo, pura e simplesmente…

Fora isso (e o fato de terem aumentado o preço do libreto de R$ 10 para R$ 30, eita crise), gostei da montagem de La Bohème (acredite). Os cantores da récita da terça (1º elenco) eram muito bons, e vi que o público pareceu satisfeito. Os pontos que citei não estragaram a ópera, definitivamente.

Info: La Bohème, ópera em 4 atos de Giacomo Puccini. Teatro Municipal de São Paulo: apresentações até dia 8 de maio. Ingressos de R$ 50 a R$ 160.

Referências:

           Libreto da ópera

           Óperas e outros cantares. Sérgio Casoy, Editora Perspectiva.

           Kobbé: o livro completo da ópera.Gustave Kobbé. Jorge Zahar Editor.

Álbum da ópera para ouvir gratuitamente no Spotify: https://play.spotify.com/album/5b1dUxE8wWIGTyBX5h8CEp

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Quem tem medo da loba má?

Há pouco mais de uma semana, estreou no Teatro Raul Cortez, em São Paulo (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista), a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf? com os atores Daniel Dantas, Zezé Polessa, Ana Kutner e Erom Cordeiro. Sou apaixonada pela adaptação para o cinema dessa história de Edward Albee com a belíssima Elizabeth Taylor e o maduro Richard Burton nos papéis principais e fiquei grata por trazerem-na para os palcos paulistanos.

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?

Marta (Zezé Polessa) e Jorge (Daniel Dantas) formam um casal de meia-idade com uma relação bastante turbulenta que alterna entre momentos de ternura e violência. Eles são apresentados de maneira honesta logo na cena inicial: Marta é uma bela mulher impetuosa e sádica e Jorge, um marido cansado e frustrado com sua carreira de professor de História na universidade da qual seu sogro é reitor.

Duas da madrugada. Ao voltar para casa após uma festa do reitor com os professores e suas esposas, Marta informa ao marido que convidou Nick e Mel, um casal de jovens (Ana Kutner e Erom Cordeiro), para continuar a festa lá por sugestão de seu pai. Jorge protesta, mas os dois logo chegam e não há mais o que fazer. Quando a porta da frente é aberta a Nick e Mel, eles já presenciam algumas das deliciosas (não, deliciosas, não. Sádicas e assustadoras) provocações que Marta dirige a Jorge. Naquela situação de saia justa, o convidado até sugere voltarem uma outra hora, mas o casal os impele a ficar. E começa o embate.

Mel e NickNick é claramente o motivo pelo qual Marta os chamou (tanto que ela troca de roupa e coloca um vestido vermelho provocante após a chegada dos convidados). Já Mel, coitada… Albee e o diretor da montagem brasileira tiveram êxito em criar uma personagem feminina tão insossa – uma “ratinha sem quadris”, como dizem os bons anfitriões Jorge e Marta. Na apresentação dos jovens, o autor deixa de lado aquela sinceridade do início da peça e nos traz duas personagens caricatas: Mel e Nick, o casal interiorano e ingênuo começando uma nova vida juntos em outra cidade. À medida que o álcool nos copos vai substituindo a água dos corpos das personagens, as máscaras deslizam e somos confrontados com duas pessoas completamente diferentes.

Os minutos passam e Marta vai mostrando a mulher autodestrutiva e cruel que é. Jorge suporta muitas provocações e retruca, mas quase não resiste quando a esposa comenta à jovem sobre o filho dos dois. Não fica evidente se esse filho está vivo ou não, pois Jorge reage violentamente à sua menção. Aliás, pouco sabemos sobre as quatro personagens. Eles revelam algumas informações bem delicadas, e isso acontece o tempo todo, mas só temos um pouco mais de segurança sobre a veracidade dos fatos quando conversam em pares, após muitos conhaques, uísques e vodcas.

Marta e JorgeMel vai se mostrando uma mulher recalcada e insatisfeita e Nick, um jovem professor de biologia inescrupuloso que vai fazer de tudo, inclusive destruir casamentos, para conseguir ascender na universidade. Marta reforça a ideia que temos dela de uma mulher impiedosa. No entanto, vemos, também, que ela é apaixonada pelo marido e é retribuída, mas odeia as fraquezas de Jorge e o culpa por não ser ambicioso. E Jorge… Jorge é o que é: um professor universitário que, no fundo, só queria ter uma vida tranquila, mas que fez a besteira de se casar com a filha do reitor, seu chefe. Ao mesmo tempo em que parece desfrutar das ameaças e provocações da esposa, sofre com elas e rebate os insultos. Marta o leva ao extremo e, por diversas vezes, tem-se a impressão de que ele vai sucumbir. Ou explodir.

Ah, os insultos e as provocações… De alguns, eu e o público rimos. Com muitos outros, só conseguimos murmurar um “vish” ou “nossa…”. Alguns diálogos são extremamente incômodos e escandalosos, meio que uma recordação de que não se pode sair falando o que se deseja, especialmente em relacionamentos. São coisas que, simplesmente, não se diz; porém, as falas dos anfitriões são permeadas de segredos íntimos jogados em nossas caras e nas faces dos convidados. Não se pode escolher não ouvir: você está lá, na sala com aquelas pessoas desestruturadas, mas tão normais.

Elizabeth Taylor e outrosFaz bastante tempo que vi a versão cinematográfica da peça, mas senti que Zezé Polessa (linda, aliás) conferiu à sua Marta certa dose de humor ácido que não vi na personagem de Elizabeth Taylor, tão escandalosa e sexy quanto a versão
brasileira, mas com menos senso de humor. Daniel Dantas ficou ótimo no papel de Jorge, mesmo sem o charme de Burton. Acho que o único problema é o preço do ingresso nos finais de semana: R$ 90! Como voltei a ser estudante, paguei meia entrada, mas considero um preço excessivamente salgado. Sei que a situação dos atores de teatro brasileiros não anda fácil, mas é igualmente difícil frequentar peças pagando esse preço.

Mesmo assim, foram duas horas de risos e insultos que valeram a pena. Mas acho que, se me oferecessem, eu aceitaria uma bebida.

Info: a música (linda <3) dos Beach Boys que toca no início e no final da peça – God Only Knowshttp://grooveshark.com/s/God+Only+Knows/4iSt1h?src=5

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?
Em cartaz até 27/07
Teatro Raul Cortez
De sexta a domingo
Classificação: 14 anos

Ficha do filme Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de 1966, no IMDb (em inglês): http://www.imdb.com/title/tt0061184/

 

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