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O conquistador do inútil

(…) agarrei-me a uma visão, a imagem de um grande barco a vapor atravessando uma montanha – o barco na névoa sendo puxado, por si só, por uma roldana morro acima, dentro da selva, e atravessando uma natureza que aniquila igualmente os lamentosos e os fortes (…)

As primeiras linhas do Prólogo de Conquista do inútil, do diretor de cinema alemão Werner Herzog, resumem mais do que eu imaginava a aventura narrada nesse diário do cineasta, escrito entre junho de 1979 a novembro de 1981. Nele, Herzog conta desde os primeiros passos do projeto de Fitzcarraldo até a filmagem de fato.

Herzog Fitzcarraldo

Herzog nas filmagens de Fitzcarraldo

Quando ganhei o livro de dois amigos em meu aniversário, imaginei que se tratava do relato das filmagens, como um making of do premiado filme. Nas primeiras páginas, ficou claro que Conquista era muito mais do que isso.

Herzog começa contando que se instala na floresta, próximo da cidade peruana de Iquitos, às margens do rio Amazonas, com parte da equipe para dar início a Fitzcarraldo, filme que ganharia o festival de Cannes e seria indicado para outros prêmios importantes do cinema.

Apesar do diretor-autor dizer nas primeiras páginas de Conquista que aquele não era um diário de filmagem, mas “algo como paisagens internas nascidas do deliro da selva”, não tem como falar do livro sem ao menos mencionar a película.

Fitzcarraldo narra a história de Brian Sweeney Fitzgerald (Fitzcarraldo pela pronúncia dos nativos), um fã de ópera cujos projetos fracassados de construir uma ferrovia na região amazônica, a Transandina, e fazer gelo no clima equatorial do Peru lhe renderam o apelido de Conquistador do Inútil. Seu novo sonho é construir um teatro de ópera em Iquitos e, para tanto, decide financiar a ideia com a extração de borracha de uma área ainda inexplorada. A questão é que a região é tomada por índios misóginos e o acesso a ela pelo rio é extremamente perigoso. A saída é transportar um navio por cima da montanha para alcançar as terras e conseguir explorar as seringueiras. É um sonho quase impossível a ser concretizado por métodos ainda mais improváveis.

KinskiHerzog

Grande Otelo, Herzog e Klaus Kinski

O livro mostra a relação de Herzog com os atores, a equipe e os índios, que participaram das filmagens e viveram boa parte do tempo com os estrangeiros no acampamento de Camisea e na central de Iquitos. Nele, descobri como Klaus Kinski, ator alemão admiradíssimo que já trabalhou diversas vezes com Herzog, era um… Ele tinha frequentes ataques histéricos de estrelismo no meio da selva e criava caso com tudo. O diretor era o único que sabia controlá-lo e lidar com ele com uma calma que parecia assustar a todos. Em dado momento, no final do livro, Herzog conta que os índios chegaram a ele e lhe perguntaram se queria que matassem Kinski, tal a dimensão dos problemas que o ator gerava. Fiquei pensando como o diretor aguentava isso. O filme me deu a resposta muito claramente: Kinski é um ator incomparável. A criatura é um monstro em dois sentidos – um intérprete assombroso e uma pessoa desumana. Interessante que a fúria da natureza encontra eco na cólera de Kinski, do mesmo modo que os dias calmos da floresta se veem refletidos na serenidade de Herzog.

O diretor alemão também fala da sua amizade com Mick Jagger, o líder dos Rolling Stones (precisava apresentar?). O titã participaria do filme, mas precisou sair do projeto porque a turnê da banda logo teria início. O diretor também menciona Francis Ford Coppola e os brasileiros Cacá Diegues, Grande Otelo e José Lewgoy. Os dois últimos inclusive trabalham no filme.

A postura de Herzog diante da floresta indomável varia entre reverência, medo e identificação. Depois de algum tempo na selva, abandona seu par de sapatos e anda descalço, como os nativos. Ele parece não buscar tratamento preferencial, mas se mistura aos demais.

Herzog e o navio içado pela montanha ao fundo

Herzog e o navio içado sobre a montanha ao fundo

Nem tudo é poesia. Herzog narra as diversas vezes em que comida, equipamentos e combustível são roubados do acampamento, os ataques à flecha de índios amehuaca a três pessoas da equipe, as chuvas e secas intermináveis, que atrapalhavam a filmagem, os percalços com as autoridades peruanas, os problemas de financiamento do projeto, a presença de doenças e a insalubridade que, às vezes, os assola. Um amigo seu da equipe, cujo nome ele preserva, tem um ataque de demência, pinta-se como um índio e toma como reféns funcionárias de uma agência de turismo na cidade. Ele menciona que seu amigo fotógrafo Werner Janoud teve tifo durante as gravações e descobri que confusão mental é um sintoma da doença. Bem, mas apesar de toda dificuldade, Herzog é um homem incrivelmente determinado. Como Fitzcarraldo, talvez.

Naquele ambiente tão afastado do mundo “civilizado”, muitas vezes Herzog se vê mergulhado dentro de si e se pergunta se, na verdade, não está se tornando Fitzcarraldo, o protagonista em busca de algo no qual apenas ele acredita. Ao ver o filme, entendi esse sentimento e também percebi como a história segue as linhas da vida real, com uma diferença: nos dois casos, há grandes sacrifícios em prol de um sonho, mas apenas no filme o protagonista fracassa e adapta o sonho à realidade. Herzog, por sua vez, teve êxito e parece ter conseguido fazer a película da forma que pretendera.

Mesmo com os inúmeros obstáculos no dia a dia, há momentos muito sublimes no diário. Em 13/2/1981, ao observar o rio Camisea carregar na correnteza pedaços de árvores, sujeira e pedras, Herzog anota: “Rolar de pesadas pedras no fundo do rio. Alguém já ouviu pedras suspirarem?”. Em outra circunstância, diz que se sentia tão solitário que, ao terminar uma leitura, enterrou o livro no chão da selva perto de sua cabana.

Quando as filmagens se iniciam, aparecem narrativas bem estranhas no diário. Herzog começa a contar uma cena, mas depois de algumas poucas linhas percebemos que são sonhos que ele teve à noite. Em geral, o cenário é a própria selva (que circula nas veias do diretor) e as situações são, no mínimo, surreais.

Uma coisa muito bacana de ter lido Conquista do inútil e visto o filme Fitcarraldo é que me senti parte de tudo aquilo, por ter acompanhado o processo no diário. Foi muito legal reconhecer os nomes nos letreiros e me lembrar de quem era cada pessoa em particular. No filme, descobri também que o cantor Milton Nascimento faz uma ponta como funcionário do Teatro Amazonas, em Manaus, teatro que, aliás, inspiraria Fitzcarraldo a construir uma casa de ópera em Iquitos, no Peru.

Fechei 2013 com um livro incrível e encerro, aqui, com as palavras finais de Conquista do inútil:

Olhei em volta, e com o mesmo ódio latente se encontrava a floresta, furiosa e fumegante, enquanto o rio, com indiferença majestosa e condescendência irônica, menosprezava tudo: a fadiga dos homens, o peso dos sonhos e os tormentos do tempo.

Info:
Trilha do texto: a ária O soave fanciulla, de uma das minhas óperas preferidas, La Bohéme, na voz de Enrico Caruso, ídolo de Fitzcarraldo e Herzog: http://grooveshark.com/s/O+Soave+Fanciulla+From+La+Bo/55Rgne?src=5

O filme, Fitzcarraldo, completo e com legendas em português no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=Nlhx52HMlZ8

O livro: Conquista do inútil, de Werner Herzog. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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Bobo da corte

Tenho algumas bandas/músicos em uma lista do tipo “1001 bandas para ver antes de morrer”. Dentre elas está Schandmaul.
Essa banda formada em Munique (Alemanha) no verão de 1998 é muito peculiar. São seis músicos que tocam instrumentos que talvez não pareçam combinar muito: guitarra, acordeon, flauta, gaita de foles, bateria, hurdy-gurdy (conheço pelo nome inglês, mas também é chamado de realejo em português), baixo, violino… E o que acontece quando juntam tudo isso? Rock folk medieval germânico. Não se assuste. É bom.
A primeira música que compuseram é Teufelsweib (mulher do diabo), que você pode ouvir aqui — e foi por causa dela que me apaixonei por esses alemães. Ela tem bem a cara da banda. Se você gostar de Teufelsweib, com certeza vai curtir Schandmaul.
O nome Schandmaul (língua maliciosa, em alemão) foi escolhido no primeiro show deles, por causa de um bufão desenhado em um baralho. O bufão, ou bobo da corte, era uma figura que tinha toda a liberdade para falar mal de quem desejasse, já que, por ser considerado meio louco, não era levado muito a sério. Daí, foi um passo para chegar em Schandmaul, uma palavra depreciativa hoje fora de uso relativa a pessoas que dizem coisas consideradas rudes e ultrajantes.  E o símbolo da banda é um bobo meio sinistro.
As letras das músicas são muito bem escritas, contam histórias e falam de tudo o que sempre foi atual para a humanidade (nossa, isso foi profundo). Bem, há muitos sites com a tradução das letras para quem não fala o alemão, então dá para conhecer o conteúdo das músicas também.
Uma das que mais gosto é Grosses Wasser (ouça aqui), cuja letra fala daquele momento no qual não vale mais a pena continuar, e em que a fuga termina, quando se olha para frente e é preciso decidir ir adiante ou voltar. Já Walpurgisnacht (ouça aqui) fala sobre a festa de boas-vindas à primavera que acontece no dia 1º de maio no hemisfério norte. Essa comemoração (leia-se: festa de arromba) começou com os pagãos, mas algumas comunidades cristãs a celebram ainda hoje em honra à Santa Valburga (medo desse nome hahaha). É muito ligada à lua e à celebração de um novo tempo.
Em 2007 fui ao festival de metal Wacken (pronuncia-se “váquen”) na cidade de mesmo nome na Alemanha para vê-los ao vivo. Eles são realmente músicos e superprofissionais. Apesar de desconhecidos por aqui, na Alemanha eles têm uma verdadeira legião de fãs que lotam seus shows (um deles foi meu professor de alemão em Munique, que quase me abraçou quando eu disse despretensiosamente que amava a banda ahahaha). Tive a honra de conhecê-los pessoalmente e pegar um autógrafo. O Thomas Lindner, que é o vocalista, até me deixou pular a grade e tirar uma foto com ele (especialmente porque disse que vinha do Brasil para vê-los). Ele foi muito gente boa.

Já “converti” vários amigos brasileiros e, inclusive, minha mãe. Se quiser conhecer mais, visite o site deles (http://www.schandmaul.de/), que tem um monte de vídeos bacanas, ou Grooveshark, para ouvir suas músicas.

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Intérpretes culturais

 

Deutsche WelleO canal de notícias alemão Deutsche Welle publicou uma matéria bem bacana sobre intérpretes interculturais. Eles são aquelas pessoas que auxiliam migrantes a se comunicarem em órgãos do governo alemão, postos de saúde, escolas e outros. É um trabalho bastante importante, mas que ainda não é reconhecido.

A matéria completa em português você lê em http://migre.me/5JGCB

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