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Noite de libertinagem

Tem gente que gosta de ópera por causa da música, tem gente que gosta das histórias. Tenho um pouco dos dois tipos em mim, e a escolha desta vez foi pelo enredo.

Rakes Progress

No domingo (16/06), fui ao Theatro Municipal de São Paulo ver The Rake’s Progress. Essa ópera de Stravinsky conta a história de Tom Rakewell, um jovem preguiçoso e apaixonado por Anne Trulove. Um dia, ele recebe a visita de Nick Shadow, que conta que um tio riquíssimo lhe deixou uma herança, a ser recebida em Londres. Tom se separa de Anne com a promessa de buscar a moça e seu pai depois de se instalar na capital inglesa. O que vemos a partir daí é a recorrente história do ingênuo que se afasta do “caminho correto”, entregando-se a excessos. Esse enredo imediatamente me chamou à memória o Fausto de Goethe, que “vende” a alma ao diabo Mefistófeles em troca de conhecimento e prazer.

E bem adequada a escolha dos sobrenomes dos personagens: Anne Trulove simboliza o amor puro. Tom se torna um “rake”, um libertino (tanto que a tradução para o título da obra é A Carreira do Libertino), pelo contato com Nick, uma sombra, figura do mal. Aliás, meu amigo Vismar veio me perguntar se gostei da tradução do título e então disse que ainda não sabia responder. Pois respondo: sim, gostei, pois achei conveniente, apesar de a ópera não exatamente narrar a trajetória de Tom, mas apenas nos mostrar poucos fatos.

Stravinsky teve a ideia para a ópera ao visitar um museu de Chicago, em 1947, onde viu cópias de uma série de quadros do pintor inglês William Hogarth. Eram oito imagens intituladas The Rake’s Progress, que narravam a ascensão e o fracasso de Tom Rakewell. Você pode ver os quadros e suas descrições no site do museu que os abriga, o Soane Museum de Londres (clique aqui para acessar).

A montagem foi belíssima e bem cuidada. Gosto muito da voz de Rosana Lamosa (que fez Anne) e achei que o tenor norte-americano Chad Shelton combinou bastante com o papel de Tom. Agora, destaque total para o baixo Savio Sperandio, que deu voz a Nick Shadow. Incrível a sua presença de palco e sua atuação. Na verdade, ele sempre me surpreende.

Tom Rakewell

Apesar de meu elogio, há algo nas montagens do Jorge Takla que me incomoda um pouco, não no mau sentido. Takla tem criado uma estrutura cênica realmente minimalista, e acredito ser isso o que me tira de minha zona de conforto rs. Porque comecei a assistir óperas ao vivo e em DVD’s com cenografias riquíssimas em detalhes e elementos, e agora me vejo diante de palcos quase vazios, mas tão complexos e carregados de sentidos! Exige-se mais da imaginação da plateia e muita coisa fica nas entrelinhas.

Há momentos tensos do libreto que acabam, na verdade, perdendo parte da sua gravidade pela maestria de Stravinsky e pela própria montagem. Primeiro que Nick convence Tom a se casar com a mulher barbada do circo, Baba, a Turca. E ele o faz. Mais tarde, depois do fracasso de uma máquina que transforma pedras em pães, Tom acaba indo à falência e os objetos que deixa na mansão, ao fugir, são leiloados. O leiloeiro é praticamente um showman.

A coreógrafa Sabrina Mirabelli também fez um belo trabalho com os bailarinos, criando duplos de Anne e Tom que se encontram em alguns momentos da história, apesar dos personagens originais viverem distantes. É como se um não saísse da mente do outro e o amor ainda existisse entre eles.

Vocês já devem ter notado que sou apaixonada mesmo pelas obras dramáticas, com aquele espírito de Romeu e Julieta, nas quais pessoas que se amam (namorados, pais e filhos etc.) são separadas pela morte, por uma injustiça, ou pela burrice de um dos personagens (lembrei-me de Elsa de Brabante em Lohengrin, aquela estúpida hahaha). Pensei em uma frase agora, de Ed Gardner: “Ópera é quando uma pessoa recebe uma punhalada nas costas e, em vez, de sangrar, canta.” OK, é uma definição superficial e quase preconceituosa desse gênero, mas acho muito engraçada, porque resume o que gosto de ver em óperas (calma, sou uma pessoa pacífica). Por isso, gostei de The Rake’s Progress, mas não o bastante para vê-la novamente. Gostaria, sim, de aprender alguma das árias de Anne, que são lindas.

Bem, se tiver curiosidade, no YouTube você encontra diversas montagens, inclusive uma de 1951, esta apenas com o áudio.

(Imagens: Cacilda – Blog de teatro)

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Moonrise Kingdom

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Enfim, o primeiro post de 2013!

Tive a oportunidade de ver Moonrise Kingdom, o novo filme do Wes Anderson (diretor dos aclamados Os Excêntricos Tenenbaums Viagem a Darjeeling, que admito não ter visto. Ainda), indicado para o Oscar de Melhor Roteiro Original de 2013.

Sabe quando você não está com vontade de assistir nada pesado ou complexo demais? Esse filme é exatamente para esse momento (e me veio em boa hora, depois de ver o grave O Homem que Não Vendeu Sua Alma).

É a fábula de um escoteiro órfão (Sam) e de uma garota solitária e meio estourada (Suzy) que começam a trocar cartas e decidem fugir. Apesar de ele ser bastante normal, não tem amigos, e sua família adotiva não quer recebê-lo de volta. Já ela é a filha mais velha de uma família que a considera problemática. Elementos perfeitos para um dramalhão. Mas se é isso o que você procura agora, esqueça. Porque o filme de Anderson é outra coisa.

A narrativa é bem-humorada, mesmo com esse histórico de disfuncionalidade das crianças. As personagens chegam a ser caricatas como em um conto infantil. Tem o Bill Murray (siiiim, ele, o homem que só faz filmes inesquecíveis) no papel do pai da menina, um advogado que parece estar trabalhando o tempo todo; Bruce Willis como o bom policial de cidade pequena que lidera a busca do casalzinho e Edward Norton no papel de chefe dos escoteiros (daqueles bem metódicos, que adoram tudo em ordem).

As crianças se conhecem em uma apresentação da ópera A Arca de Noé, de Benjamin Britten, na igreja da cidade, em que Suzy participa como corvo (papel que lhe é muito adequado). Sam entra no camarim das meninas, vê a garota com a fantasia, e é amor à primeira vista.

Moonrise Kingdom posterSe leio a resenha de um filme com crianças e me aparece “então, eles descobrem o amor/sexo”, admito que fujo, porque me parece um argumento de quinta categoria para alguém ver um filme. Ainda bem que não li nada sobre Moonrise Kingdom antes de assisti-lo. Porque, quando os dois fogem, acabam tendo um envolvimento mais romântico. Mas antes que você pense “argh, mas são crianças” (como eu geralmente faço nesses casos), a abordagem é bem inocente e deixa a história mais interessante, porque Suzy e Sam agora decidem que querem ficar juntos (bem, não que eles tenham muito a perder, com a rejeição da família adotiva dele e a indiferença da família da menina).

O visual da película é muito bonito. As cores têm forte presença, a começar pela casa de Suzy, que é vermelha. Aliás, tudo ligado a ela é bem colorido: sua maleta amarela, o toca-discos portátil azul, o vestido rosa. A fotografia é quente, exceto quando chega a tempestade na ilha em que se passa a história.

A trilha é ótima, mais voltada para a música clássica, com Leonard Bernstein e a Filarmônica de Nova York e Britten. Aliás, bacana o diretor dar destaque ao compositor inglês, pois agora em 2013 é comemorado o centenário de seu nascimento.

Uma coisa curiosa sobre o filme é que Suzy sempre carrega consigo um binóculo. Sam pergunta o motivo, e ela simplesmente diz “Acho que é para ver mais de perto o que está longe de mim”. 🙂

Outro ponto é o narrador, que aparece apenas no começo e no final. Ele não tem nome e nunca ficamos sabendo quem é. Quem também não tem nome é a Serviço Social, responsável pelo caso de Sam. Ela sempre é chamada de “Serviço Social”, inclusive nos créditos de Moonrise Kingdom, totalmente desumanizada, pela posição que ocupa na história (e na sociedade) de decidir o destino de um garoto abandonado como se fosse mais um número nas estatísticas.

É uma fábula, mas a narrativa não é infantilizada. É bonita, bem engraçada e vale a pena ver Bill Murray, Edward Norton e Bruce Willis juntos em um filme tão diferente do que eles geralmente fazem.

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