Arquivo da tag: cinema

Heróis impróvaveis

Punishment

Um grupo de pessoas que mal fala sua língua, um herói nacional, o maior poeta, preconceito, amigas das quais seria melhor manter grande distância, um casamento desfeito e um Natal solitário. Esses podem parecer elementos para um grande drama de lavar a alma com lágrimas, mas Peter Luisi conseguiu juntá-los e fazer a excelente comédia Heróis Improváveis (2014).

O filme, exibido na (minha amadíssima) 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi minha grata surpresa desse festival. Na verdade, uma comédia dramática (ok, enganei vocês um pouquinho) de superação dirigida pelo suíço nascido em Zurique Peter Luisi, Heróis Improváveis acompanha a história de Sabine, a maravilhosa e até então desconhecida (para mim) Esther Gemsch, mulher que se vê forçada a começar uma nova vida. Após se dedicar à família por 15 anos, período em que deixa de lado seus interesses e suas atividades, seu marido pede-lhe o divórcio. Dispondo de tanto tempo livre e com a filha já criada, Sabine começa a ter aulas particulares de direção teatral. Sua professora não deposita um grama de fé nela, mesmo sem lhe dar oportunidade para mostrar o que aprendeu.

O Natal se aproxima e, como aconteceu na última década, Sabine prepara-se para passar a data acompanha de casais de amigos no interior da Suíça, até que esses amigos lhe comunicam uma mudança de planos – e substituem-na por outra pessoa. Infeliz com a ideia de passar a data sozinha (a filha está viajando com o pai e a madrasta), a mulher sai para caminhar e é derrubada por um homem que corre na neve sem camisa, com a cara lambuzada de creme de barbear e com policiais em seu encalço. Sabine é orientada a procurar o abrigo para refugiados do parque para receber o valor do celular quebrado. Lá, ela descobre que o voluntário que sempre passa o final do ano com os estrangeiros não poderá ir.

CasalInduAo encontrar as “amigas” sem querer em um café (elas haviam marcado o encontro e não a convidaram), ela lhes diz, por orgulho, que dirigirá uma peça no abrigo local. Apesar de as peruas velhas zombarem dela, Sabine sai triunfante. A alegria dura somente até a primeira aula com o grupo.

Os refugiados formam um grupo de pessoas das mais diversas nacionalidades e graus de domínio da língua alemã. Há Punishment, do Zimbábue, e mais outros poucos que a entendem. Seu objetivo, na realidade, era usar psicodrama para ajudá-los a lidar com sua situação, mas eles não se soltam. No terceiro dia, quase desistindo, Sabine propõe-lhes que interpretem heróis de seus respectivos países. Ninguém aparece com nenhuma ideia, até que um deles começa a falar de Guilherme Tell. A professora fica pasma quando o grupo decide que quer interpretar a clássica peça sobre o herói suíço escrita pelo maior poeta da língua alemã, Friedrich Schiller. Então começa a saga de Sabine.

Sabine e seu padrinho

Ela enfrenta resistência por todos os lados, desde sua professora até seu padrinho, um grande ator de teatro que aceita ajudá-la com a condição de que não cite seu nome (ele repete isso durante o filme inteiro e sinaliza os momentos em que se comove e reconhece o esforço hercúleo da afilhada). Quando a mídia local descobre que um grupo de refugiados que mal fala alemão vai interpretar uma das maiores obras em língua alemã, há tiros e rosas;  parece, no entanto, que, quanto mais Sabine se envolve nas vidas e nas histórias de seus atores improvisados, mais ela obtém forças das profundezas de seu espírito. Chega um momento em que até a instituição que cuida do abrigo exige que ela cancele a peça (a poucos dias da estreia). No final, as pessoas que mais a apoiam são uma funcionária do abrigo, sua família, a mulher de seu ex e seu padrinho, que chega a dar uma aula para os aspirantes a atores.

Heróis Improváveis consegue intercalar momentos graves com cenas cômicas. Nele, a política europeia para refugiados é apresentada com crueza. A sociedade e o governo fingem que estão ajudando, mas a farsa acaba quando se trata de conceder auxílio real e humano. Tratados podem ter sido assinados, mas, na prática, não há preocupação pelas pessoas. O motivo para o pedido de cancelamento da peça, por exemplo, é que as autoridades não querem que os refugiados se integrem à sociedade suíça, que eles sejam deixados à parte. O máximo que fazem é promover cursos de alemão, apenas, para ocuparem-nos. Quando isso fica claro para Sabine, há um choque. Apesar de ser um grande obstáculo, ela toma a execução da peça como questão de honra para ela e para aquelas pessoas que fogem de uma vida impossível em seus países natais. Há uma mãe viúva que perdeu os filhos, há um pai que deixou a família para tentar melhorar de vida e levá-los, há histórias de pobreza e morte na vida de todos eles. E a chegada da correspondência que lhes negará o refúgio é iminente. Alguns já a receberam, mas não têm para onde ir e permanecem na Suíça até serem pegos pela polícia.

Gessler

Ao longo do filme, o espectador percebe que não se trata apenas da superação de Sabine, mas de todas aquelas pessoas marginalizadas que vivem em um lugar onde os outros mal querem saber de sua existência (tanto que o abrigo fica no alto de uma montanha, isolado da cidade).

Não tem como não torcer por Sabine. E tenho certeza que você também vai torcer por ela se tiver a sorte de cruzar com esse filme por aí.

Info:

Trailer de Heróis Improváveis: http://youtu.be/XOZahzexFMM

Trilha do texto: Guilherme Tell, ou Guillaume Tell, de Rossini: http://grooveshark.com/album/Guillaume+Tell/6784571

Site oficial da 38º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: http://38.mostra.org/br

Artigo curtinho da Revista Superinteressante sobre o herói suíço: Guilherme Tell existiu mesmo?

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Cinema

O conquistador do inútil

(…) agarrei-me a uma visão, a imagem de um grande barco a vapor atravessando uma montanha – o barco na névoa sendo puxado, por si só, por uma roldana morro acima, dentro da selva, e atravessando uma natureza que aniquila igualmente os lamentosos e os fortes (…)

As primeiras linhas do Prólogo de Conquista do inútil, do diretor de cinema alemão Werner Herzog, resumem mais do que eu imaginava a aventura narrada nesse diário do cineasta, escrito entre junho de 1979 a novembro de 1981. Nele, Herzog conta desde os primeiros passos do projeto de Fitzcarraldo até a filmagem de fato.

Herzog Fitzcarraldo

Herzog nas filmagens de Fitzcarraldo

Quando ganhei o livro de dois amigos em meu aniversário, imaginei que se tratava do relato das filmagens, como um making of do premiado filme. Nas primeiras páginas, ficou claro que Conquista era muito mais do que isso.

Herzog começa contando que se instala na floresta, próximo da cidade peruana de Iquitos, às margens do rio Amazonas, com parte da equipe para dar início a Fitzcarraldo, filme que ganharia o festival de Cannes e seria indicado para outros prêmios importantes do cinema.

Apesar do diretor-autor dizer nas primeiras páginas de Conquista que aquele não era um diário de filmagem, mas “algo como paisagens internas nascidas do deliro da selva”, não tem como falar do livro sem ao menos mencionar a película.

Fitzcarraldo narra a história de Brian Sweeney Fitzgerald (Fitzcarraldo pela pronúncia dos nativos), um fã de ópera cujos projetos fracassados de construir uma ferrovia na região amazônica, a Transandina, e fazer gelo no clima equatorial do Peru lhe renderam o apelido de Conquistador do Inútil. Seu novo sonho é construir um teatro de ópera em Iquitos e, para tanto, decide financiar a ideia com a extração de borracha de uma área ainda inexplorada. A questão é que a região é tomada por índios misóginos e o acesso a ela pelo rio é extremamente perigoso. A saída é transportar um navio por cima da montanha para alcançar as terras e conseguir explorar as seringueiras. É um sonho quase impossível a ser concretizado por métodos ainda mais improváveis.

KinskiHerzog

Grande Otelo, Herzog e Klaus Kinski

O livro mostra a relação de Herzog com os atores, a equipe e os índios, que participaram das filmagens e viveram boa parte do tempo com os estrangeiros no acampamento de Camisea e na central de Iquitos. Nele, descobri como Klaus Kinski, ator alemão admiradíssimo que já trabalhou diversas vezes com Herzog, era um… Ele tinha frequentes ataques histéricos de estrelismo no meio da selva e criava caso com tudo. O diretor era o único que sabia controlá-lo e lidar com ele com uma calma que parecia assustar a todos. Em dado momento, no final do livro, Herzog conta que os índios chegaram a ele e lhe perguntaram se queria que matassem Kinski, tal a dimensão dos problemas que o ator gerava. Fiquei pensando como o diretor aguentava isso. O filme me deu a resposta muito claramente: Kinski é um ator incomparável. A criatura é um monstro em dois sentidos – um intérprete assombroso e uma pessoa desumana. Interessante que a fúria da natureza encontra eco na cólera de Kinski, do mesmo modo que os dias calmos da floresta se veem refletidos na serenidade de Herzog.

O diretor alemão também fala da sua amizade com Mick Jagger, o líder dos Rolling Stones (precisava apresentar?). O titã participaria do filme, mas precisou sair do projeto porque a turnê da banda logo teria início. O diretor também menciona Francis Ford Coppola e os brasileiros Cacá Diegues, Grande Otelo e José Lewgoy. Os dois últimos inclusive trabalham no filme.

A postura de Herzog diante da floresta indomável varia entre reverência, medo e identificação. Depois de algum tempo na selva, abandona seu par de sapatos e anda descalço, como os nativos. Ele parece não buscar tratamento preferencial, mas se mistura aos demais.

Herzog e o navio içado pela montanha ao fundo

Herzog e o navio içado sobre a montanha ao fundo

Nem tudo é poesia. Herzog narra as diversas vezes em que comida, equipamentos e combustível são roubados do acampamento, os ataques à flecha de índios amehuaca a três pessoas da equipe, as chuvas e secas intermináveis, que atrapalhavam a filmagem, os percalços com as autoridades peruanas, os problemas de financiamento do projeto, a presença de doenças e a insalubridade que, às vezes, os assola. Um amigo seu da equipe, cujo nome ele preserva, tem um ataque de demência, pinta-se como um índio e toma como reféns funcionárias de uma agência de turismo na cidade. Ele menciona que seu amigo fotógrafo Werner Janoud teve tifo durante as gravações e descobri que confusão mental é um sintoma da doença. Bem, mas apesar de toda dificuldade, Herzog é um homem incrivelmente determinado. Como Fitzcarraldo, talvez.

Naquele ambiente tão afastado do mundo “civilizado”, muitas vezes Herzog se vê mergulhado dentro de si e se pergunta se, na verdade, não está se tornando Fitzcarraldo, o protagonista em busca de algo no qual apenas ele acredita. Ao ver o filme, entendi esse sentimento e também percebi como a história segue as linhas da vida real, com uma diferença: nos dois casos, há grandes sacrifícios em prol de um sonho, mas apenas no filme o protagonista fracassa e adapta o sonho à realidade. Herzog, por sua vez, teve êxito e parece ter conseguido fazer a película da forma que pretendera.

Mesmo com os inúmeros obstáculos no dia a dia, há momentos muito sublimes no diário. Em 13/2/1981, ao observar o rio Camisea carregar na correnteza pedaços de árvores, sujeira e pedras, Herzog anota: “Rolar de pesadas pedras no fundo do rio. Alguém já ouviu pedras suspirarem?”. Em outra circunstância, diz que se sentia tão solitário que, ao terminar uma leitura, enterrou o livro no chão da selva perto de sua cabana.

Quando as filmagens se iniciam, aparecem narrativas bem estranhas no diário. Herzog começa a contar uma cena, mas depois de algumas poucas linhas percebemos que são sonhos que ele teve à noite. Em geral, o cenário é a própria selva (que circula nas veias do diretor) e as situações são, no mínimo, surreais.

Uma coisa muito bacana de ter lido Conquista do inútil e visto o filme Fitcarraldo é que me senti parte de tudo aquilo, por ter acompanhado o processo no diário. Foi muito legal reconhecer os nomes nos letreiros e me lembrar de quem era cada pessoa em particular. No filme, descobri também que o cantor Milton Nascimento faz uma ponta como funcionário do Teatro Amazonas, em Manaus, teatro que, aliás, inspiraria Fitzcarraldo a construir uma casa de ópera em Iquitos, no Peru.

Fechei 2013 com um livro incrível e encerro, aqui, com as palavras finais de Conquista do inútil:

Olhei em volta, e com o mesmo ódio latente se encontrava a floresta, furiosa e fumegante, enquanto o rio, com indiferença majestosa e condescendência irônica, menosprezava tudo: a fadiga dos homens, o peso dos sonhos e os tormentos do tempo.

Info:
Trilha do texto: a ária O soave fanciulla, de uma das minhas óperas preferidas, La Bohéme, na voz de Enrico Caruso, ídolo de Fitzcarraldo e Herzog: http://grooveshark.com/s/O+Soave+Fanciulla+From+La+Bo/55Rgne?src=5

O filme, Fitzcarraldo, completo e com legendas em português no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=Nlhx52HMlZ8

O livro: Conquista do inútil, de Werner Herzog. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

2 Comentários

Arquivado em Cinema, Leituras

Dentro da casa

Nossa, um mês depois… Desculpem, sempre naquela correria louca que vocês conhecem. Mas estou de volta e aproveitei para dar uma arrumada aqui no blog.

Pois bem, vi um monte de filmes, li quilos e quilos, e acabei por eleger para o texto de hoje uma película que fala sobre literatura.

Justo.

Dans la Maison

Sim, é sobre o novo, o último, o imperdível filme do diretor francês François Ozon, Dentro da Casa (Dans la Maison, 2012). Ponto positivo já pela tradução do título, usando “da” e não “de”, porque a tal casa é um lugar bem determinado: o lar dos Rafas.

Germain assume nova sala em um colégio que acabou de instituir uma nova regra: uniformes para todos os alunos. Para incômodo do professor, não bastasse a estupidez generalizada dentre esses jovens, a sua aparência agora também seria padronizada.

Pois o professor de francês começa a sofrer logo na primeira atividade, em que propõe que os estudantes escrevam uma redação sobre o seu final de semana. Após ler “redações” como “Pedi pizza, vi TV.”, seus olhos se deparam com o texto de Claude, em que narra literariamente a primeira visita à casa do colega de classe Rafa (a tal maison do título) e que é encerrado pela palavra “Continua”. Germain fica impressionado com a habilidade do garoto de dezesseis anos e o chama para conversar. O professor incentiva Claude a prosseguir (se deixa levar por certo voyeurismo) e lhe dá algumas orientações. A partir daí, o rapaz passa a lhe entregar semanalmente partes do romance, que fica cada vez mais envolvente.

Sim, porque, ao frequentar a casa para ajudar o colega com as tarefas de matemática, Claude começa a participar da intimidade da família,  a ponto de criar tensões que levarão ao triângulo Rafa – Claude – Esther (a mãe do amigo). A relação dos garotos é apresentada no início por Claude de forma um tanto dúbia (ele se aproxima de Rafa por considerá-lo bastante normal, mas o colega parece nutrir um outro sentimento por ele).

Poster de Dentro da Casa

Germain orienta Claude intensamente quanto à escrita, e isso é muito legal. O professor, escritor frustrado, guia o rapaz e nos apresenta o processo de criação literária.

Nas primeiras redações, o professor faz com que o aluno rescreva uma cena, de forma que ele acaba revelando o seu próprio julgamento acerca daquela vida de família de classe média francesa (ele emprega ironia e chama a mãe de Rafa de “mulher típica de classe média”).

Os limites entre realidade e ficção são bastante tênues. Nunca temos certeza se Rafa, Esther e Rafa pai são apenas personagens com matriz real, mas modificados por Claude, ou se a narrativa do garoto segue os fatos. No início, intuímos que o autor relate o que realmente acontece, mas quando Germain passa a atuar sobre o texto, perdemos essa segurança – até o desfecho trágico da história, que, num primeiro momento, como o professor, não sabemos se é verdade ou criação de Claude.

O ator que interpreta Claude, Ernst Umhauer, é um novato (Dentro da Casa é seu terceiro filme) que está começando muito bem. Ele tem uma beleza fresca e meio ingênua nos seus 24 anos que faz com que confiemos demais em Claude, ou o apoiemos, mesmo quando é meio mau-caráter. Já Fabrice Luchini, o professor Germain, que fez o badalado Potiche, Esposa Troféu do mesmo diretor, consegue encarnar bem esse personagem ansioso e frustrado, que se desliga de tudo (até da esposa, a ótima Kristin Scott Thomas com seu francês de dar inveja) em virtude de sua obsessão – que alterna entre o texto de Claude e o próprio garoto.

Dentro da Casa é um filme que vai te envolver desde o início nessa espécie de voyeurismo que acomete o pobre Germain. Pois entregue-se.

2 Comentários

Arquivado em Cinema

O Mestre à frente das câmeras

No domingo (03/03) fui no Cine Livraria Cultura conferir Hitchcock do diretor Sacha Gervasi. Confesso que, como fã do mestre do suspense, tive receio de que o filme se focasse demais na vida pessoal dele, deixando de lado o processo criativo e o trabalho. Ainda bem que não foi o que aconteceu.

Hitchcock começa como um episódio da série Alfred Hitchcock Presents, programa de TV da década de 1950 em que o diretor apresentava histórias de crimes. Há algumas intervenções de Hitch como narrador por conta disso, mas são bem poucas. Isso deu ao diretor a possibilidade de explorar aspectos como a vida pessoal de Alma.

O tema central da película é a filmagem (e obsessão do diretor com a ideia) de Psycho (Psicose no Brasil). Ele acabara de lançar North by Northwest (Intriga Internacional, um filme com cenas memoráveis, mas que perde um pouco o fôlego no final, acho eu) e estava atrás de um roteiro para o seu novo filme. Então cai em suas mãos Psycho, livro que conta a história do assassino Norman Bates, inspirado no criminoso real Ed Gein.

O projeto de Hitchcock sofre resistência desde o início, principalmente por causa da violência e presença de temas polêmicos como o incesto. Já que o estúdio Paramount decide não arriscar em se envolver com a ideia, Hitch banca a película por conta própria, hipotecando a casa em que mora com a esposa, Alma Reville. Além da resistência de todos à volta, o diretor ainda tem de lidar com a pressão de colocar todo o seu dinheiro no projeto.

Não precisaria dizer que Anthony Hopkins está incrível como o diretor — ele mergulhou mesmo no papel nos 90 minutos do filme. E Hellen Mirren deu a Alma a força e firmeza que ela parecia possuir. Retratou-a como uma mulher modesta com grande influência sobre o trabalho do marido. Na verdade, meu maior medo estava aí, em mostrarem uma Alma tola e irrelevante. Quem conhece a obra de Hitchcock sabe a importância de sua esposa — dizem até que ela fazia grande parte do trabalho. Quem sabe. Mas Hitchcock deixa claro o valor de Alma na vida do diretor.

Outro ponto interessante do filme é a relação diretor-censor (aliás, papel do ótimo Kurtwood Smith, de That ‘70s  Show). Hitch é obrigado a participar de uma reunião com Shurlock para que o seu projeto possa ser iniciado. Como convencer um censor da sociedade norte-americana conservadora dos anos 50/60 a liberar a filmagem de uma história sobre um homem psicótico e voyeur obcecado pela mãe? Hitch consegue, mesmo quando o censor implica com a cena em que Marion joga objetos na privada…

Hitchcock retrata o diretor como um homem persistente e curioso. Ele exibe fotos dos crimes reais de Ed Gein em uma festa para estudar a reação das pessoas, manda sua assistente comprar TODOS os livros Psycho do país, para que ninguém saiba como se desenvolveria a história do filme, e ainda cria um Manual de como exibir Psicose para os donos de cinemas. Uma das regras é que ninguém poderia entrar na sala depois que o filme tivesse começado. Além disso, os seguranças e funcionários dos cinemas teriam que aprender a lidar com a revolta que alguns espectadores poderiam manifestar com o filme.

Não quero contar muito, para não dar spoiler. Mas o filme merece aplausos, por fazer justiça à loucura de Hitchcock pelo cinema e à competência de Alma Reville.

2 Comentários

Arquivado em Cinema

Moonrise Kingdom

Imagem

Enfim, o primeiro post de 2013!

Tive a oportunidade de ver Moonrise Kingdom, o novo filme do Wes Anderson (diretor dos aclamados Os Excêntricos Tenenbaums Viagem a Darjeeling, que admito não ter visto. Ainda), indicado para o Oscar de Melhor Roteiro Original de 2013.

Sabe quando você não está com vontade de assistir nada pesado ou complexo demais? Esse filme é exatamente para esse momento (e me veio em boa hora, depois de ver o grave O Homem que Não Vendeu Sua Alma).

É a fábula de um escoteiro órfão (Sam) e de uma garota solitária e meio estourada (Suzy) que começam a trocar cartas e decidem fugir. Apesar de ele ser bastante normal, não tem amigos, e sua família adotiva não quer recebê-lo de volta. Já ela é a filha mais velha de uma família que a considera problemática. Elementos perfeitos para um dramalhão. Mas se é isso o que você procura agora, esqueça. Porque o filme de Anderson é outra coisa.

A narrativa é bem-humorada, mesmo com esse histórico de disfuncionalidade das crianças. As personagens chegam a ser caricatas como em um conto infantil. Tem o Bill Murray (siiiim, ele, o homem que só faz filmes inesquecíveis) no papel do pai da menina, um advogado que parece estar trabalhando o tempo todo; Bruce Willis como o bom policial de cidade pequena que lidera a busca do casalzinho e Edward Norton no papel de chefe dos escoteiros (daqueles bem metódicos, que adoram tudo em ordem).

As crianças se conhecem em uma apresentação da ópera A Arca de Noé, de Benjamin Britten, na igreja da cidade, em que Suzy participa como corvo (papel que lhe é muito adequado). Sam entra no camarim das meninas, vê a garota com a fantasia, e é amor à primeira vista.

Moonrise Kingdom posterSe leio a resenha de um filme com crianças e me aparece “então, eles descobrem o amor/sexo”, admito que fujo, porque me parece um argumento de quinta categoria para alguém ver um filme. Ainda bem que não li nada sobre Moonrise Kingdom antes de assisti-lo. Porque, quando os dois fogem, acabam tendo um envolvimento mais romântico. Mas antes que você pense “argh, mas são crianças” (como eu geralmente faço nesses casos), a abordagem é bem inocente e deixa a história mais interessante, porque Suzy e Sam agora decidem que querem ficar juntos (bem, não que eles tenham muito a perder, com a rejeição da família adotiva dele e a indiferença da família da menina).

O visual da película é muito bonito. As cores têm forte presença, a começar pela casa de Suzy, que é vermelha. Aliás, tudo ligado a ela é bem colorido: sua maleta amarela, o toca-discos portátil azul, o vestido rosa. A fotografia é quente, exceto quando chega a tempestade na ilha em que se passa a história.

A trilha é ótima, mais voltada para a música clássica, com Leonard Bernstein e a Filarmônica de Nova York e Britten. Aliás, bacana o diretor dar destaque ao compositor inglês, pois agora em 2013 é comemorado o centenário de seu nascimento.

Uma coisa curiosa sobre o filme é que Suzy sempre carrega consigo um binóculo. Sam pergunta o motivo, e ela simplesmente diz “Acho que é para ver mais de perto o que está longe de mim”. 🙂

Outro ponto é o narrador, que aparece apenas no começo e no final. Ele não tem nome e nunca ficamos sabendo quem é. Quem também não tem nome é a Serviço Social, responsável pelo caso de Sam. Ela sempre é chamada de “Serviço Social”, inclusive nos créditos de Moonrise Kingdom, totalmente desumanizada, pela posição que ocupa na história (e na sociedade) de decidir o destino de um garoto abandonado como se fosse mais um número nas estatísticas.

É uma fábula, mas a narrativa não é infantilizada. É bonita, bem engraçada e vale a pena ver Bill Murray, Edward Norton e Bruce Willis juntos em um filme tão diferente do que eles geralmente fazem.

6 Comentários

Arquivado em Cinema

Magia e outras coisas

Cena do filme Viagem à Lua, de Georges Méliès

Estava pensando nestes dias, visitei a incrível exposição Georges Méliès, O Mágico do Cinema no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e nem contei para vocês.

Apesar do meu interesse (e amor) pelo cinema mudo, confesso que não sabia quase nada sobre esse francês. Shame on me, eu sei. E fiquei extasiada com a exposição do MIS. O homem era, na verdade, um multi-homem: desenhista, mágico, decorador, diretor de teatro, ator, técnico, produtor, diretor e distribuidor dos seus mais de 500 filmes. E esse aspecto de Méliès fica muito evidente no MIS, por meio dos inúmeros rascunhos de figurinos, esquemas de cenários e maquinário, planos de efeitos especiais, o pouco material (original, claro) salvo e diversos filmes que ficam passando ininterruptamente no Museu.

Um deles, A Conquista do Polo (1912), conta a história de exploradores cujo avião cai no Polo. Eles logo se deparam com um gigante que sai do chão e tenta atacá-los. Fiquei parada, em pé, olhando aquilo. Não se esqueça, estamos no comecinho do cinema, no início do século XX, e George Lucas estava muito longe de nascer. Eu, mulher do século XXI, com meu iPod e celular a tiracolo, preocupada com o trânsito, dona de minha vida, incomodada com aquela imagem. Méliès era tão mágico (e no sentido daquele que domina as artes maravilhosas), que achei aquilo real a ponto de me transportar para o filme e sentir o choque das personagens. Nessa mesma sala, encontrei o esquema criado pelo diretor para aquele boneco gigante. Não vou contar, vá lá conferir você mesmo.

O Museu também exibe A Viagem à Lua (1902), o mais conhecido filme desse francês e que inspirou o clipe Tonight, Tonight do Smashing Pumpkins (só me dei conta disso ao assistir a película francesa). Aqui, o MIS fez algo superbacana: criou uma nave espacial parecida com a usada em A Viagem e exibe o filme dentro dela. Amei a ideia.

George Méliès em sua loja

Mas a vida desse homem não foi só sucesso. Chegou uma hora em que as pessoas se cansaram dos efeitos especiais de seus filmes e ele acabou indo à falência. Seu lindo estúdio de vidro (juro, de vidro, e tem fotos dele. A luminosidade das cenas era controlada por venezianas) se despedaça (sem metáfora aqui). Méliès acaba abrindo uma lojinha de brinquedos na estação de trem. E a foto dele ali encerra a exposição (deixando-me melancólica, admito). Sim, essa é uma das primeiras cenas de A Invenção de Hugo Cabret, filme incrível com Sir Ben Kingsley no papel desse cineasta faz-tudo. Quando vi essa cena no filme, meus olhos se encheram de lágrimas. Reproduziram-na lindamente. Ufa.

Hugo Cabret, aliás, faz uma grande homenagem ao começo do cinema e a Georges Méliès. Mas se você não curte cinema mudo, não importa. A atuação dos atores e a fotografia do filme não vão te decepcionar, garanto.

Bom, se você gosta de cinema, mágica e de efeitos especiais, veja a exposição no MIS (que fica na Av. Europa, 158), que vai até 16 de setembro e custa humildes R$ 4,00, e assista o filme em seguida. Depois me conte 😉

5 Comentários

Arquivado em Cinema

Algemas, castigos e suspense

Quando fiquei sabendo que o Museu da Imagem e do Som começaria um curso de um mês sobre o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, pensei: “Uhm, não sei se gosto muito dos filmes dele, mas quem sabe?…” E me inscrevi. Uma coisa totalmente diferente é você assistir a um filme ciente das artimanhas do diretor. Mesmo que a película não agrade de todo, você reconhece esses elementos narrativos típicos e dá o devido mérito. E foi meio o que aconteceu depois desse curso, que terminei ontem (18/05/2012).

O curso foi ministrado pelo crítico Marcelo Lyra. Ele dava aulas a partir de montagens feitas com pedaços dos filmes de Hitchcock. Vimos desde seus filmes mudos (pois é, ele tem filmes mudos, e alguns excelentes, por sinal) passando pelos feitos para a TV, até Torn Curtain (Cortina Rasgada), de 1966 (não deu tempo de ver os 2 últimos). Aprendemos muitas coisas, não só sobre a técnica do diretor, mas também sobre a pessoa Alfred Hitchcock.

Conta-se que o pai de Hitchcock era amigo do delegado de um posto policial próximo à sua casa. Um dia, como o pequeno Alfred fez uma malcriação, seu pai pediu para o amigo policial prendê-lo, só para assustá-lo. Isso faria grande diferença na vida desse menino – e principalmente em seus filmes. Repare: em todas as suas histórias, a polícia nunca resolve nada, às vezes até atrapalha. Em The Lodger (O Pensionista, ou O Inquilino – 1927), há um serial killer de loiras que escapa o tempo todo da polícia, a qual, inclusive, acaba prendendo um inocente (o tal inquilino) como suspeito dos crimes. Em Vertigo (Um Corpo que Cai – 1957), logo no início há uma perseguição. O criminoso escapa e um dos policiais cai do telhado. E morre.

Outro ponto sobre essa história da polícia é que o diretor quase não usava algemas em seus filmes. Parece ser uma imagem muito forte para ele. Em The Wrong Man (O Homem Errado, 1956) uma das cenas mais impactantes é quando algemam um músico inocente por um crime que ele não cometeu. Você, espectador, sabe que ele é inocente, mas a polícia diz o contrário e tudo conspira contra o pobre homem. Aí, as algemas se tornam um símbolo de injustiça.

Outra história também vem da infância. Alfred estudou em um internato de padres. Quando um dos meninos aprontava alguma, os padres deixavam a criança escolher o horário em que ela seria castigada. O nosso diretor percebeu (já naquela idade, hein), que pedir para o castigo acontecer no último horário possível criava uma expectativa, uma tensão nele, que aumentava a dimensão da punição (olha que coisa mais perversa). Nesse momento, ele entende o efeito da ansiedade e, quando adulto, vai abusar do expediente. Em Sabotage (Sabotagem, 1936), um menino carrega um pacote para o seu padrasto. Ele não sabe, mas há uma bomba-relógio dentro que deve explodir na mão do remetente (que é um adulto). O menino fica preso no trânsito dentro de um bonde. Você começa a se desesperar, porque o menino sabe que tem que chegar numa determinada hora ao destino, não sabe sobre a bomba e o tempo está passando. Ele consegue ver o relógio da igreja, percebendo que está perto de se atrasar. Mas não tem o que fazer. Tudo acontece para atrasá-lo (e para deixar você agarrado na cadeira, de tanta tensão). Esse é só um de muitos exemplos da filmografia de Hitchcock.

Bem, tenho muuuuita coisa para falar sobre ele, pois o assunto é muito rico!

Agora deixa eu assistir o próximo filme da minha lista do Mestre do Suspense.

2 Comentários

Arquivado em Cinema