Arquivo da tag: drama

Boemia parisiense no Municipal

musetta

Na fria terça-feira de 3 de maio, fui ao Teatro Municipal de São Paulo conferir a nova montagem da aclamada La Bohème de Giacomo Puccini. Confesso que estava com alguma expectativa – não tanto como aconteceu com Lohengrin¸ de Richard Wagner, que é a minha mais querida. Há alguns anos, quando fazia canto lírico, tive oportunidade de estudar um dueto e uma ária dessa ópera. Sabia que eram necessários um tenor e uma soprano com fôlego e cor na voz.

La Bohème não é a primeira ópera de Puccini, mas aquela que o lança ao estrelato no fim do século XIX. Sua estreia mundial aconteceu em Turim, em 1896, e veio para São Paulo apenas um ano depois. Baseada na novela francesa de Henri Murger, Scènes de la Vie de Bohème, conta a história de quatro jovens artistas que vivem numa água-furtada no Quartier Latin parisiense com o dinheiro contado, mas sempre alegres e criando. Em uma noite, sua vizinha, Mimí, bate à porta dos rapazes, quando só o poeta Rodolfo está, para pedir fogo para uma lamparina. Aí começa uma das histórias de amor e sofrimento centrais da ópera, entremeada de humor. Outro romance importante é da cortesã Musetta com o pintor Marcello.

Boheme Elenco inteiro

A ópera assinala a maturidade musical do autor e é a primeira a misturar elementos românticos e realistas. Apesar de sua ambientação ser a Paris do século XIX, poderia muito bem se passar em qualquer outra grande cidade na qual vivam jovens artistas que lutam para sobreviver. A montagem do Municipal manteve Paris como sede da obra, naquela vibe minimalista que tem dominado o Teatro nos últimos anos. Os figurinos, por sua vez, parecem se inspirar na década de 1940. Visualmente, eles adotaram saídas muito boas, como limitar um quadrado no palco caracterizando o lar dos rapazes sem paredes, circundado por folhas brancas de papel (no inverno frio) ou por rosas vermelhas (na morte de Mimí). Na cena do café Momus, algumas peças, como cadeiras, mesas e piano, foram aproveitadas da casa. A paleta restrita a tons de cinza, fugindo apenas na morte de Mimí com a profusão do vermelho, também foi uma escolha incrível.

Mas vamos ao que interessa. Os cantores tinham uma energia muito boa entre eles, demonstrada especialmente nas cenas de humor. Quando Mimí aparece na água-furtada dos rapazes e canta a ária em que se apresenta a Rodolfo (Mi chiamano Mimí, que você pode ouvir na humilhante voz de Maria Callas aqui), a linda soprano romena Cristina Pasaroiu me surpreendeu com sua voz adocicada. Pensei, o Rodolfo de Ivan Magri tem boa voz também, o dueto será bom. No entanto, quando chegou O soave fanciulla (esta aqui), não sei. Faltou paixão em suas vozes, e em alguns momentos a voz de Cristina ficou fraca demais – apesar de a partitura pedir. Tudo bem, temos ainda a Musetta. Esta, na voz da também romena Mihaela Marcu, felizmente roubou a cena com Quando me’n vo – que era o efeito esperado dessa partitura (ouça aqui na voz de Callas). Fora deles, acho que preciso falar do maravilhoso barítono italiano Mattia Olivieri, que marcava presença como Marcello. Foi muito aplaudido.

la-boheme_HeloisaBallarini

Bom, ainda tem um ponto que não me agradou muito (o último, vai). A morte de Mimí. Quando ela expira calmamente na casa dos rapazes, e Rodolfo percebe, vai até ela e a abraça, chorando. Nesse momento, caem pétalas de rosas vermelhas sobre a cena, enquanto os demais personagens se lamentam. Quem sou eu para achar alguma coisa, mas isso me pareceu piegas, e não era esse o objetivo de Puccini. Talvez bastasse encerrar com a cortina descendo, pura e simplesmente…

Fora isso (e o fato de terem aumentado o preço do libreto de R$ 10 para R$ 30, eita crise), gostei da montagem de La Bohème (acredite). Os cantores da récita da terça (1º elenco) eram muito bons, e vi que o público pareceu satisfeito. Os pontos que citei não estragaram a ópera, definitivamente.

Info: La Bohème, ópera em 4 atos de Giacomo Puccini. Teatro Municipal de São Paulo: apresentações até dia 8 de maio. Ingressos de R$ 50 a R$ 160.

Referências:

           Libreto da ópera

           Óperas e outros cantares. Sérgio Casoy, Editora Perspectiva.

           Kobbé: o livro completo da ópera.Gustave Kobbé. Jorge Zahar Editor.

Álbum da ópera para ouvir gratuitamente no Spotify: https://play.spotify.com/album/5b1dUxE8wWIGTyBX5h8CEp

Deixe um comentário

Arquivado em Música, Teatro

Quem tem medo da loba má?

Há pouco mais de uma semana, estreou no Teatro Raul Cortez, em São Paulo (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista), a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf? com os atores Daniel Dantas, Zezé Polessa, Ana Kutner e Erom Cordeiro. Sou apaixonada pela adaptação para o cinema dessa história de Edward Albee com a belíssima Elizabeth Taylor e o maduro Richard Burton nos papéis principais e fiquei grata por trazerem-na para os palcos paulistanos.

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?

Marta (Zezé Polessa) e Jorge (Daniel Dantas) formam um casal de meia-idade com uma relação bastante turbulenta que alterna entre momentos de ternura e violência. Eles são apresentados de maneira honesta logo na cena inicial: Marta é uma bela mulher impetuosa e sádica e Jorge, um marido cansado e frustrado com sua carreira de professor de História na universidade da qual seu sogro é reitor.

Duas da madrugada. Ao voltar para casa após uma festa do reitor com os professores e suas esposas, Marta informa ao marido que convidou Nick e Mel, um casal de jovens (Ana Kutner e Erom Cordeiro), para continuar a festa lá por sugestão de seu pai. Jorge protesta, mas os dois logo chegam e não há mais o que fazer. Quando a porta da frente é aberta a Nick e Mel, eles já presenciam algumas das deliciosas (não, deliciosas, não. Sádicas e assustadoras) provocações que Marta dirige a Jorge. Naquela situação de saia justa, o convidado até sugere voltarem uma outra hora, mas o casal os impele a ficar. E começa o embate.

Mel e NickNick é claramente o motivo pelo qual Marta os chamou (tanto que ela troca de roupa e coloca um vestido vermelho provocante após a chegada dos convidados). Já Mel, coitada… Albee e o diretor da montagem brasileira tiveram êxito em criar uma personagem feminina tão insossa – uma “ratinha sem quadris”, como dizem os bons anfitriões Jorge e Marta. Na apresentação dos jovens, o autor deixa de lado aquela sinceridade do início da peça e nos traz duas personagens caricatas: Mel e Nick, o casal interiorano e ingênuo começando uma nova vida juntos em outra cidade. À medida que o álcool nos copos vai substituindo a água dos corpos das personagens, as máscaras deslizam e somos confrontados com duas pessoas completamente diferentes.

Os minutos passam e Marta vai mostrando a mulher autodestrutiva e cruel que é. Jorge suporta muitas provocações e retruca, mas quase não resiste quando a esposa comenta à jovem sobre o filho dos dois. Não fica evidente se esse filho está vivo ou não, pois Jorge reage violentamente à sua menção. Aliás, pouco sabemos sobre as quatro personagens. Eles revelam algumas informações bem delicadas, e isso acontece o tempo todo, mas só temos um pouco mais de segurança sobre a veracidade dos fatos quando conversam em pares, após muitos conhaques, uísques e vodcas.

Marta e JorgeMel vai se mostrando uma mulher recalcada e insatisfeita e Nick, um jovem professor de biologia inescrupuloso que vai fazer de tudo, inclusive destruir casamentos, para conseguir ascender na universidade. Marta reforça a ideia que temos dela de uma mulher impiedosa. No entanto, vemos, também, que ela é apaixonada pelo marido e é retribuída, mas odeia as fraquezas de Jorge e o culpa por não ser ambicioso. E Jorge… Jorge é o que é: um professor universitário que, no fundo, só queria ter uma vida tranquila, mas que fez a besteira de se casar com a filha do reitor, seu chefe. Ao mesmo tempo em que parece desfrutar das ameaças e provocações da esposa, sofre com elas e rebate os insultos. Marta o leva ao extremo e, por diversas vezes, tem-se a impressão de que ele vai sucumbir. Ou explodir.

Ah, os insultos e as provocações… De alguns, eu e o público rimos. Com muitos outros, só conseguimos murmurar um “vish” ou “nossa…”. Alguns diálogos são extremamente incômodos e escandalosos, meio que uma recordação de que não se pode sair falando o que se deseja, especialmente em relacionamentos. São coisas que, simplesmente, não se diz; porém, as falas dos anfitriões são permeadas de segredos íntimos jogados em nossas caras e nas faces dos convidados. Não se pode escolher não ouvir: você está lá, na sala com aquelas pessoas desestruturadas, mas tão normais.

Elizabeth Taylor e outrosFaz bastante tempo que vi a versão cinematográfica da peça, mas senti que Zezé Polessa (linda, aliás) conferiu à sua Marta certa dose de humor ácido que não vi na personagem de Elizabeth Taylor, tão escandalosa e sexy quanto a versão
brasileira, mas com menos senso de humor. Daniel Dantas ficou ótimo no papel de Jorge, mesmo sem o charme de Burton. Acho que o único problema é o preço do ingresso nos finais de semana: R$ 90! Como voltei a ser estudante, paguei meia entrada, mas considero um preço excessivamente salgado. Sei que a situação dos atores de teatro brasileiros não anda fácil, mas é igualmente difícil frequentar peças pagando esse preço.

Mesmo assim, foram duas horas de risos e insultos que valeram a pena. Mas acho que, se me oferecessem, eu aceitaria uma bebida.

Info: a música (linda <3) dos Beach Boys que toca no início e no final da peça – God Only Knowshttp://grooveshark.com/s/God+Only+Knows/4iSt1h?src=5

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?
Em cartaz até 27/07
Teatro Raul Cortez
De sexta a domingo
Classificação: 14 anos

Ficha do filme Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de 1966, no IMDb (em inglês): http://www.imdb.com/title/tt0061184/

 

3 Comentários

Arquivado em Teatro

Fôlego

GravityNesta sexta, 11 de outubro, estreou nos cinemas Gravidade, drama (ou ficção científica?) com Sandra Bullock e George Clooney. Já aviso que não contarei o final, mas, infelizmente, não tem como deixar de dar alguns spoilers. Então, vou sinalizá-los para quem não quiser estragar as surpresas do filme.

A Dra. Ryan Stone (Bullock) está resolvendo um problema em um satélite na órbita do planeta Terra acompanhada de Matthew Kowalski (Clooney) e outros três astronautas. Enquanto os dois estão fora da nave, Houston informa que devem sair dali com urgência, pois em alguns segundos serão atingidos por escombros de um satélite destruído intencionalmente pelos russos, mas que causou uma reação em cadeia, desmantelando outros equipamentos em órbita. Stone não consegue se soltar e é atingida pelos destroços. Então começa o pânico para ela (e para nós, espectadores desavisados em nossos óculos 3D): a cientista se afasta da nave, girando pelo espaço. Se você acabou de jantar, nesse momento o conteúdo do seu estômago pode voltar e lhe dar um oi. A sensação é terrível, ouve-se a respiração acelerada de Stone em desespero e vê-se o espaço girando ao seu redor. O oxigênio começa a se esgotar em seu traje de astronauta, mas Kowalski aparece e a salva.

De volta à nave, descobrem que os outros três tripulantes morreram com o impacto dos destroços. Stone e Kowalski estão sem comunicação com a NASA e à deriva. Ela, em sua primeira viagem ao espaço e com a reserva de oxigênio em 10%, se desespera. Ele, mais experiente, enxerga a estação espacial norte-americana e decide flutuar até lá (nem sei se podemos usar esse verbo para o espaço sideral) com Stone para pegar um veículo e dirigir-se à estação chinesa, que se encontra a uns cem quilômetros dali (o que é perto, no padrão dele) para retornar ao planeta. O problema é que eles têm apenas 90 minutos, até que os escombros deem a volta pela Terra e os atinjam de novo. No caminho, conhecemos um pouco mais sobre Stone. Como o seu nível de oxigênio está muito baixo, Kowalski conversa com ela doutora, para mantê-la atenta. Descobrimos, por exemplo, que perdeu a filha de quatro anos, que faleceu em um acidente tolo, ao bater a cabeça em uma pedra. Stone parece não ter muitos motivos para viver. Já Kowalski faz questão de sobreviver e não perde a esperança de ser salvo. Agora vem o spoiler maior. Pare de ler aqui e retorne abaixo, se não quiser saber sobre o filme todo.

[spoiler]

No momento em que se aproximam da Estação, Kowalski perde a propulsão de seu traje e não consegue se segurar em nada. Stone prende o pé em alguns cabos e tenta puxar o colega, que está preso a ela por uma amarra. Ele a convence a deixá-lo ir, pois, caso contrário, os cabos que a seguram vão se soltar, pela pressão contrária que o homem faz. Kowalski se solta e Stone diz que vai buscá-lo de alguma forma. Depois disso, ela consegue penetrar na Estação. Aqui, vem uma das cenas mais lindas do filme (que não são poucas, já que temos como pano de fundo a Terra vista do espaço).

Quando ela entra, livra-se de toda aquela roupa pesada e do capacete. Stone flutua por alguns segundos em posição fetal, recuperando as forças e o ar. Há cabos por perto, e o lugar é redondo e extremamente silencioso. A cena deixa a impressão muito forte de renascimento, os cabos fazendo as vezes de cordão umbilical e Stone voltando à vida que quase lhe fugiu por entre os dedos. O espectador, também, pode aproveitar para respirar fundo e se recompor.

Bullock

A partir daí, é a luta da cientista para fazer a pequena nave de fuga funcionar e levá-la à estação espacial chinesa. Quando acha que não tem saída, porque descobre que o veículo está sem combustível, tenta se comunicar com Houston. Tudo o que consegue é falar com um homem de língua estranha. Apesar de ela dizer “Mayday”, ele não entende o seu pedido de socorro e parece conversar normalmente. Primeiro, Stone fica irritada, depois, ao desistir de lutar e decidir sucumbir à morte inevitável, pede-lhe (por meio de latidos, porque os dois não se entendem verbalmente) que coloque os seus cachorros ao microfone, como fez quando a comunicação foi iniciada entre os dois. Algum tempo depois, pode-se ouvir o som de um bebê, e o homem começa a cantar uma canção de ninar. Stone está entregue à morte, mas tudo o que deseja no momento é escutar os sons da Terra, do que há de mais inocente neste planeta. O filme não termina aí, mas não contarei mais. [fim do spoiler]

Gravidade tem imagens belíssimas. O diretor, Alfonso Cuarón, passou quatro anos e meio fazendo pesquisas, testes, animações e filmando, até chegar no resultado que vemos na tela. Mas a ausência de gravidade, que se vê em 99% do filme, pode afetar de forma negativa os espectadores mais sensíveis. A tela gira, escombros voam contra os seus olhos, os personagens lutam para manter a direção e o equilíbrio, o áudio varia entre o silêncio completo e sons gritantes. Não recomendo MESMO ver esse filme com dor de cabeça ou após uma refeição. Antes, eu havia comido apenas um sorvete e bebido água. Sai zonza e com um pouco de dor de cabeça. Passou logo; no entanto, o incômodo foi claro para mim.

Não sou muito fã do cinema hollywoodiano (como se vocês não soubessem ahahaha), e não me simpatizo particularmente com Sandra Bullock (sei que ganhou Oscar, acho que o meu problema é de “santo” mesmo), mas, olha, não tenho do que reclamar. Preciso concordar com a crítica que Gravidade é um dos melhores filmes (os críticos mais afoitos o consideraram O MELHOR) do ano. Muito tenso, de tirar o fôlego. E a atuação de Bullock faz o espectador se sentir naquele traje pesado, sem ar e direção.

Não conhecia Cuarón. Após uma rápida pesquisa, descobri que esse diretor mexicano foi responsável por Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, que recebeu boas críticas na época. Mas o fato curioso é que foi expulso do curso de Cinema em seu país, porque gravou um curta, Vengeance Is Mine, em inglês. Vou procurar outras obras dele, que ainda são poucas.

Bem, espectadores de estômago sensível, melhor passarem longe de Gravidade por motivos de saúde. Os demais, assistam em 3D. Aviso que o final não é muito surpreendente, mas a forma como é colocado faz a película valer a pena.

2 Comentários

Arquivado em Cinema

Branca de Neve toureira e os seis anões na Espanha

Cartaz de BlancanievesPara escrever sobre este filme, precisava escolher uma trilha gótica. Como não quero estragar meu atual estado de espírito (fugindo do inferno astral no mês do meu aniversário rs), resolvi não colocar nada muito dark para tocar. Por isso, estou ao som do primeiro disco dos holandeses do Within Temptation, época em que ainda eram góticos. Acho que vai combinar perfeitamente com o filme de hoje.

A semana em que vi o maravilhoso O Barão foi especialmente proveitosa, pois além dele assisti também o espanhol Blancanieves. Sim, um remake não-remake do clássico conto de fadas dos irmãos Grimm!

A película de Pablo Berger chegou ao Brasil traduzida como Branca de Neve, mas, para evitar confusão com outras versões, aqui adotarei o título original, em espanhol.

Vocês já devem saber que, sempre que vejo novas versões de velhas histórias, tenho cautela. Mas o que me levou a ver Blancanieves é que, primeiramente, as resenhas todas diziam ser uma versão gótica, em preto e branco, muda e ambientada na Espanha das touradas no pós-Primeira Guerra. Tudo bem, vocês vão me dizer que sou louca por filmes pb mudos. Só que podia sair tudo errado, e paguei para ver.

Blancanieves é um filme com uma longa gestação: foram quase dez anos até que o diretor conseguisse financiamento para o seu projeto. Por isso, o resultado teria de ser, no mínimo, aceitável. Ainda bem que é muito mais do que isso.

A história é a seguinte: Carmen de Triana, no mês final de gravidez, assiste a seu marido, o famoso Antonio Villalta, tourear. Apesar de sua habilidade, o toureiro desvia o olhar do último e mais feroz touro e é atingido por ele. Sua esposa entra em trabalho de parto e o homem é levado em estado grave ao hospital. Ela dá à luz Carmencita (sim, a Branca de Neve não é Branca, é Carmem!), mas morre. Ele, por outro lado, sobrevive e fica preso a uma cadeira de rodas. Encarna, a enfermeira responsável por seu cuidado, descobre que Villalta é muito rico. Abalado pela morte da esposa, o toureiro acaba rejeitando a filha, que fica sob a tutela da avó, e é convencido pela interesseira a se casar novamente.

Algumas das cenas mais belas do filme estão nesse período em que Carmencita vive com a avó. A menina herda da mãe o gosto pelo flamenco e, quando dança, a sala de cinema é inundada pelas palmas e pelo violão da música espanhola. O efeito é arrebatador. Encontrei uma amostra da trilha sonora de Alfonso Villallonga no SoundCloud. Vale a pena acessar: https://soundcloud.com/milanrecords/sets/alfonso-villalonga

Bom, mas como em um drama gótico a alegria não dura, a avó morre e Carmencita, já com uns 10 anos, é enviada com o seu galo de estimação para a mansão em que o pai vive infeliz com a ex-enfermeira sadomasoquista (não é metáfora). Encarna é a perfeita madrasta má, e coloca a enteada para trabalhar como empregada, além de fazê-la dormir em um celeiro. Maribel Verdú e seus olhos enormes e expressivos conseguiram transmitir à personagem uma perversão e crueza egoísta escondida sob joias, maquiagem e classe.

A madrasta torna a vida da menina um inferno, especialmente depois que descobre que Carmencita visita o pai frequentemente. Um dia, ao perseguir o galo que sumiu, a garota encontra Villalta na cadeira, sozinho no quarto. Os dois acabam por ficar amigos e o pai lhe ensina técnicas de tourada.

Os seis anõesQuando Carmencita já está mais adulta, Encarna manda o motorista matá-la. Ele não é bem-sucedido, e cinco anões e uma anã (tenho minhas dúvidas sobre seu sexo) de um show mambembe a resgatam e passam a viajar com ela. Não, não há sete anões nesta versão e, ao contrário dos personagens caricatos dos irmãos Grimm e fofos da Disney, os seis do filme mais parecem saídos de algum daqueles freakshows antigos, em que eram exibidas pessoas com deformidades. Na verdade, a apresentação que levam de cidade a cidade tem esse teor, e o mais velho é um toureiro-anão que enfrenta animais menores. O final (que não vou contar) volta a explorar esse aspecto, mas de forma bastante brutal.

Carmencita, agora com amnésia, passa a ser chamada pelos anões de Branca de Neve. Apesar de não se lembrar do próprio nome e ignorar seu passado, as habilidades de toureira da moça afloram, trazendo notabilidade para o grupo. Ela é convidada para tourear na arena em que seu pai se acidentou e, aos poucos, suas memórias começam a voltar. Um amigo de Villalta a reconhece e vai falar com ela. A madrasta se surpreende ao vê-la na arena, viva e aplaudida por todos.

Não contarei o fim, pois ainda dá para ver Blancanieves no único cinema de São Paulo que o exibe, a Reserva Cultural. Só posso dizer que, quando apareceram os créditos na tela, a plateia estava quieta e atônita.

Mesmo sendo em pb, o filme espanhol não é dominado por sombras como O Barão. E diferentemente de O Artista, no qual o contraste entre o som e o silêncio é sempre ressaltado na comparação entre o cinema mudo e o falado, em Blancanieves nos esquecemos que nada mais há do que a trilha sonora. Há telas com algumas falas escritas, mas a expressividade dos atores preenche o espaço deixado pela ausência das vozes humanas.

Para terminar, recomendo acessar o site oficial do filme, http://blancaniev.es/, que é supercaprichado e passa bem o clima de Blancanieves. Dá para ver o teaser na página inicial e conhecer um pouco mais sobre esse drama mudo-pb-gótico.

Ah, a minha trilha sonora para este texto você encontra aqui: http://grooveshark.com/album/Mother+Earth/163244

2 Comentários

Arquivado em Cinema

Até que ponto vai um homem

Estou louca para escrever sobre um livro que terminarei de ler em breve. Mas por enquanto vou me segurar.

Desculpe-me a ausência. Acho que tive um bloqueio criativo. Porém, não deixei de ir a exposições (aliás, a do Caravaggio aqui em São Paulo é sensacional, apesar de pequena), ler livros e revistas e ver filmes e séries.

E não vou reclamar, porque a inspiração voltou. E quem a trouxe de volta para mim foi um químico doente e desenganado chamado Sr. White. Sim, estou falando de Breaking Bad, série norte-americana que já está na quinta temporada.

Walter White da série Breaking Bad

Para quem não conhece, Breaking Bad é sobre um químico com tudo para dar certo, mas que se torna um professor de colégio falido e pouco respeitado pelos alunos. Além disso, para complementar a renda, ele trabalha em um posto, muitas vezes lavando os carrões dos moleques. Bom, ele descobre que tem câncer de pulmão e pouco tempo de vida. Para piorar, sua esposa de quase 40 anos de idade está grávida do segundo filho (eles têm um adolescente de 17 anos com paralisia cerebral), ou seja, é possível que ele nem venha a conhecer o bebê. Em um beco sem saída, Walter White resolve se tornar produtor de metanfetamina e se associar a um ex-aluno traficante.

A série é bastante forte. O Sr. White e o tal ex-aluno, Jesse Pinkton, quase são mortos por traficantes concorrentes em diversos momentos. A esposa do primeiro começa a achar que ele tem uma amante, devido aos seus sumiços para produzir a droga. A cunhada é cleptomaníaca e o cunhado trabalha no Departamento de Narcóticos (a ironia maior). O filho não se conforma com sua postura diante da doença, de se entregar.

Acho que o que mais me atraiu em Breaking Badé ver alguém que sempre foi um cidadão-modelo, um homem correto e honesto, começar a chutar o balde (tema de Um Dia de Fúria, de 1993, com Michael Douglas). Ele incendeia o carro de um cara arrogante, que destrata os outros, e agride um rapaz que tira sarro de seu filho, por sua fala mole e andar de muletas (ele tem PC, lembra?). É o símbolo do homem levado ao seu limite. E diante da morte iminente, ele só pensa em guardar dinheiro para proporcionar um futuro relativamente confortável para sua família, custe o que custar. Mas fique claro que em nenhum ponto da narrativa Walt parece estar se vingando do sistema, de Deus, do mundo ou do que você quiser. Agora, para Walt, o fator público é irrelevante diante do privado, e não há uma questão ética (ele nem parece se preocupar com esse ponto — apenas produz a droga, independentemente de isso ser certo ou não). O químico, inclusive, passa a participar das negociações para a venda da met para os traficantes, porque vê que Jesse não tem habilidade para isso, e sua necessidade de acumular dinheiro é imediata. Ele faz tratamento, mas não sabe até quando vive.

Jesse e Sr. White

O protagonista é interpretado por Bryan Cranston, ator que fez o pai dos meninos terríveis do seriado Malcolm in the Middle. Quem via essa série dos anos 2000 (como eu) não consegue enxergar Hal, aquele pai maluco, em Bryan. Ele se transformou totalmente em Walter White, nem parece o mesmo ator dessa comédia que ganhou nove Emmys.

Aliás, uma pena Bryan não ter ganhado nenhum Emmy neste ano, sua atuação é incrível. Cada ruga em seu rosto parece ter sido feita pelos anos de uma vida difícil como professor de colégio. Mas não fiquei tão desapontada, porque Aaron Paul, que faz Jesse Pinkman, ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante em série dramática.

Mais uma série em que me viciei.

6 Comentários

Arquivado em Séries

Neve, mar e carvão

Na aula de espanhol, no sábado, meu professor me perguntou se eu já vira algum filme russo. Isso me fez lembrar de um dos mais belos longas que já vi.

Era 2007 e, para variar, estava correndo de cinema em cinema para ver meus escolhidos da 31a. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nem me lembro de como o escolhi, mas sei que deve ter preenchido um de meus requisitos para filmes da mostra (como: filme que nunca verei em um cinema brasileiro e dificilmente conseguirei baixar).

Pois bem.

A Ilha (Ostrov) é um filme de 2006 do diretor russo Pavel Lounguine que conquistou seis prêmios da Academia Russa de Cinema (filme, direção, ator, ator coadjuvante, fotografia e som). A figura central é um monge bastante estranho que vive em um monastério ortodoxo perdido no norte da Rússia. Esse lugar é praticamente um conjunto de pequenas ilhas interligadas por pontes de madeira. Então, imagine: um lugar frio e muito úmido. O vento sopra quase todo o tempo, fica-se rodeado pelo mar e o branco do gelo se faz presente como um branco sujo. A fotografia da película se alterna entre o branco sujo (neve sobre a terra), o azul escuro e o preto. Este vem do carvão, que é incessante e loucamente jogado no forno pelo monge para aquecê-lo naquele clima tão hostil.

O religioso é alvo de chacota e rancor por parte dos colegas, pois é procurado dia após dia por pessoas que vêm até ele atrás de milagres, já que é tido como santo. Mas, apesar de ajudar muita gente, ele é bastante humilde e até mesmo agressivo. E é no passado desse homem tão singular que encontramos as respostas e entendemos o porquê de seu comportamento e sua obsessão pelo carvão.

É um filme sobre culpa, fé e caridade. Culpa que muda todo o curso da vida do homem (que acaba por se tornar monge), fé para dar um sentido à existência, e caridade para ajudá-lo a pagar por seus erros do passado. E não se deixe enganar pela equação lugar hostil, carvão bruto e agressividade, pois se trata de uma película delicada sobre a relação de um homem com seu passado que não ficou para trás.

Terminado o filme, um senhor idoso na minha frente chorava, silencioso. E ele não estava sozinho.

2 Comentários

Arquivado em Cinema