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A Londres de Orwell – Down and Out II

Londres Antiga

Nesta segunda parte da resenha de Down and Out in Paris and London, vamos acompanhar George Orwell pelas ruas de Londres. Se você não leu sobre os meses em Paris, clique aqui.

Ao contrário do que planejava, precisei subdividir a parte londrina do livro de Orwell. A resenha ficou muito mais longa do que eu esperava. Por isso, nesta falarei de aspectos mais práticos da vida do autor nas ruas londrinas. Já o próximo texto será dedicado apenas às reflexões e críticas de Orwell.

Bem, quando começa o relato da volta para Londres, em uma conversa com um casal de romenos no barco, Orwell oferece uma pista do que virá pela frente, dizendo “A Inglaterra é um ótimo país se você não é pobre”. Nesse momento, ele está muito animado com a perspectiva de um trabalho fixo e bem remunerado: cuidar de uma criança com necessidades especiais. Tudo parece bem, até descobrirmos que a família para quem trabalharia viajou e ele só poderia assumir o emprego dali a um mês. Com quase nada nos bolsos e envergonhado em pedir para o amigo um pouco de dinheiro, Orwell decide guardar seus pertences no armário da estação e trocar um casaco por roupas baratas – quanto pior, melhor, segundo ele. Honestamente, eu estaria em pânico nessa situação, mas acho que o autor: a) se acostumou com a pobreza; b) não conhecia Londres tão bem; ou c) voluntariamente queria ter a experiência da miséria em Londres. Ele chega a dizer que é praticamente impossível morrer de fome na cidade e que, se precisasse, mendigaria. Mal sabia ele que as coisas seriam piores na Inglaterra do que na França.

Algo que corrobora a minha terceira teoria (c), é que Orwell troca seu casaco por roupas “com uma aura de sujeira antiga”. Ele as veste e, na rua, vê um mendigo vindo em sua direção. Quando se dá conta, olhava para o próprio reflexo em uma vitrine. A sujeira já parecia tomar conta de seu rosto, diz. Orwell inclusive evita falar com as pessoas, com medo de elas perceberem a disparidade entre suas roupas e seu sotaque. Mais adiante, percebemos que a grande maioria dos mendigos é composta de ingleses com baixo nível de escolaridade. Por isso a sua preocupação.

Orwell era uma pessoa muito observadora. Assim, nesse primeiro dia em vestes de vagabundo, ele percebe que a atitude das mulheres muda de acordo com a roupa. O autor conta, por exemplo, que, quando um homem mal vestido passa por uma mulher, ela não disfarça a sua repugnância, como se visse um animal morto na rua. “Roupas são algo poderoso”, diz, ao notar como se sente envergonhado naqueles trajes.

Então, ele começa a “via crucis”, indo de alojamento a alojamento. No início, ele se hospeda em albergues baratos, mas sujos, gelados e com cheiro de urina. Depois, descobre os spikes, uma espécie de alojamento muito simples exclusiva para pobres. Nesses locais, a pessoa chegava no final da tarde e só podia sair de manhã, e a refeição padrão eram duas fatias de pão com manteiga e uma xícara de chá.

Fiquei curiosa com o termo que Orwell emprega, spike, e descobri que era uma gíria usada pelos mendigos. Uma provável explicação era que as camas desses lugares pareciam serem feitas de pregos (spikes em inglês). Aliás, em vários momentos de Down and Out, Orwell se dedica a investigar o jargão e os termos usados pelos andarilhos de Londres.

Os tais spikes eram terríveis. Havia um espaço muito pequeno entre as camas, contribuindo para a disseminação de doenças e tornando o sono difícil. Além disso, existia outro problema: era proibido se hospedar no mesmo lugar no prazo de um mês. Dessa forma, os sem-teto ingleses fatalmente se tornavam andarilhos, percorrendo milhas de um alojamento a outro. Não podemos esquecer que a dieta desses homens era composta exclusivamente, salvo raras exceções, de pão com manteiga e chá. Caminhar nessas condições devia ser ainda mais cansativo.

Nas semanas pelas ruas de Londres, Orwell acaba fazendo amizade com um mendigo irlandês, Paddy, e um “artista de calçada”, Bozo. O autor descreve Paddy com uma humanidade comovente e, na verdade, involuntária. Vê como a miséria não tira de um homem a sua dignidade, ao observar o zelo do irlandês com suas roupas já surradas, mesmo assim tentando manter um ar de respeitabilidade. Paddy morria de vergonha de ser vagabundo, apesar de ter todas as características de um.

Já Bozo é extraordinário. Orwell se surpreende com o seu conhecimento sobre arte e as estrelas, além de sua coerência. Como não podia deixar de ser, o autor dedica boas páginas a esse personagem tão singular.

A história de Bozo é trágica. Após ter servido na Índia e na França durante a guerra, tornou-se pintor de casas em Paris e ficou noivo de uma francesa. Tudo ia bem, até que a moça foi atropelada por um ônibus e morreu. Inconformado, passou uma semana bebendo. Ao retornar ao trabalho, ainda abalado, despencou de uma obra e a queda destruiu o seu pé direito. Depois disso, voltou para a Inglaterra e tentou diversos empregos. Como nenhum deu certo, passou a desenhar nas calçadas em troca de moedas.

No final do livro, Paddy, Bozo e Orwell se separam e seguem seus caminhos. Algum tempo depois, um conhecido lhe diz que o amigo irlandês havia sido atropelado e morto, mas Orwell não dá muito crédito à história. Quanto a Bozo, o autor fica sabendo que estava preso por quatorze dias em Wandsworth  por pedir esmola.

Orwell encerra dizendo que ainda gostaria de viver mais um tempo na miséria, para explorar esse mundo e saber o que se passa nos espíritos de pessoas como Paddy e outros mendigos com quem conviveu nas ruas.

Algo que me surpreendeu é a série de proibições que existiam contra os mendigos na Inglaterra do início do século XX. Além da regra dos spikes, era proibido mendigar e dormir ao relento, sob a pena de prisão ou trabalho forçado. Na verdade, desde o século XIV, havia leis na Inglaterra relacionadas exclusivamente aos pobres. Além de regulamentar o que os mendigos podiam fazer, elas tratavam de todo o sistema que os atendia, incluindo os spikes.

É curioso que, apesar de o pobre inglês da época não mais mendigar por força da lei, Orwell emprega a palavra beggar para se referir aos homens com quem convive. Esse termo em inglês, segundo o Dicionário Michaelis, apresenta as seguintes traduções: mendigo, pedinte e indigente. Como esta última opção é pouco empregada (salvo nas situações em que pessoas são sepultadas sem identificação no Brasil), decidi por mendigo, que, neste caso específico, parece mais adequado do que pedinte.

No próximo post, falarei sobre as reflexões de Orwell sobre a vida e o significado dos mendigos para a sociedade inglesa.

(Imagem: Survey of British Literature)

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