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Dentro da casa

Nossa, um mês depois… Desculpem, sempre naquela correria louca que vocês conhecem. Mas estou de volta e aproveitei para dar uma arrumada aqui no blog.

Pois bem, vi um monte de filmes, li quilos e quilos, e acabei por eleger para o texto de hoje uma película que fala sobre literatura.

Justo.

Dans la Maison

Sim, é sobre o novo, o último, o imperdível filme do diretor francês François Ozon, Dentro da Casa (Dans la Maison, 2012). Ponto positivo já pela tradução do título, usando “da” e não “de”, porque a tal casa é um lugar bem determinado: o lar dos Rafas.

Germain assume nova sala em um colégio que acabou de instituir uma nova regra: uniformes para todos os alunos. Para incômodo do professor, não bastasse a estupidez generalizada dentre esses jovens, a sua aparência agora também seria padronizada.

Pois o professor de francês começa a sofrer logo na primeira atividade, em que propõe que os estudantes escrevam uma redação sobre o seu final de semana. Após ler “redações” como “Pedi pizza, vi TV.”, seus olhos se deparam com o texto de Claude, em que narra literariamente a primeira visita à casa do colega de classe Rafa (a tal maison do título) e que é encerrado pela palavra “Continua”. Germain fica impressionado com a habilidade do garoto de dezesseis anos e o chama para conversar. O professor incentiva Claude a prosseguir (se deixa levar por certo voyeurismo) e lhe dá algumas orientações. A partir daí, o rapaz passa a lhe entregar semanalmente partes do romance, que fica cada vez mais envolvente.

Sim, porque, ao frequentar a casa para ajudar o colega com as tarefas de matemática, Claude começa a participar da intimidade da família,  a ponto de criar tensões que levarão ao triângulo Rafa – Claude – Esther (a mãe do amigo). A relação dos garotos é apresentada no início por Claude de forma um tanto dúbia (ele se aproxima de Rafa por considerá-lo bastante normal, mas o colega parece nutrir um outro sentimento por ele).

Poster de Dentro da Casa

Germain orienta Claude intensamente quanto à escrita, e isso é muito legal. O professor, escritor frustrado, guia o rapaz e nos apresenta o processo de criação literária.

Nas primeiras redações, o professor faz com que o aluno rescreva uma cena, de forma que ele acaba revelando o seu próprio julgamento acerca daquela vida de família de classe média francesa (ele emprega ironia e chama a mãe de Rafa de “mulher típica de classe média”).

Os limites entre realidade e ficção são bastante tênues. Nunca temos certeza se Rafa, Esther e Rafa pai são apenas personagens com matriz real, mas modificados por Claude, ou se a narrativa do garoto segue os fatos. No início, intuímos que o autor relate o que realmente acontece, mas quando Germain passa a atuar sobre o texto, perdemos essa segurança – até o desfecho trágico da história, que, num primeiro momento, como o professor, não sabemos se é verdade ou criação de Claude.

O ator que interpreta Claude, Ernst Umhauer, é um novato (Dentro da Casa é seu terceiro filme) que está começando muito bem. Ele tem uma beleza fresca e meio ingênua nos seus 24 anos que faz com que confiemos demais em Claude, ou o apoiemos, mesmo quando é meio mau-caráter. Já Fabrice Luchini, o professor Germain, que fez o badalado Potiche, Esposa Troféu do mesmo diretor, consegue encarnar bem esse personagem ansioso e frustrado, que se desliga de tudo (até da esposa, a ótima Kristin Scott Thomas com seu francês de dar inveja) em virtude de sua obsessão – que alterna entre o texto de Claude e o próprio garoto.

Dentro da Casa é um filme que vai te envolver desde o início nessa espécie de voyeurismo que acomete o pobre Germain. Pois entregue-se.

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Magia e outras coisas

Cena do filme Viagem à Lua, de Georges Méliès

Estava pensando nestes dias, visitei a incrível exposição Georges Méliès, O Mágico do Cinema no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e nem contei para vocês.

Apesar do meu interesse (e amor) pelo cinema mudo, confesso que não sabia quase nada sobre esse francês. Shame on me, eu sei. E fiquei extasiada com a exposição do MIS. O homem era, na verdade, um multi-homem: desenhista, mágico, decorador, diretor de teatro, ator, técnico, produtor, diretor e distribuidor dos seus mais de 500 filmes. E esse aspecto de Méliès fica muito evidente no MIS, por meio dos inúmeros rascunhos de figurinos, esquemas de cenários e maquinário, planos de efeitos especiais, o pouco material (original, claro) salvo e diversos filmes que ficam passando ininterruptamente no Museu.

Um deles, A Conquista do Polo (1912), conta a história de exploradores cujo avião cai no Polo. Eles logo se deparam com um gigante que sai do chão e tenta atacá-los. Fiquei parada, em pé, olhando aquilo. Não se esqueça, estamos no comecinho do cinema, no início do século XX, e George Lucas estava muito longe de nascer. Eu, mulher do século XXI, com meu iPod e celular a tiracolo, preocupada com o trânsito, dona de minha vida, incomodada com aquela imagem. Méliès era tão mágico (e no sentido daquele que domina as artes maravilhosas), que achei aquilo real a ponto de me transportar para o filme e sentir o choque das personagens. Nessa mesma sala, encontrei o esquema criado pelo diretor para aquele boneco gigante. Não vou contar, vá lá conferir você mesmo.

O Museu também exibe A Viagem à Lua (1902), o mais conhecido filme desse francês e que inspirou o clipe Tonight, Tonight do Smashing Pumpkins (só me dei conta disso ao assistir a película francesa). Aqui, o MIS fez algo superbacana: criou uma nave espacial parecida com a usada em A Viagem e exibe o filme dentro dela. Amei a ideia.

George Méliès em sua loja

Mas a vida desse homem não foi só sucesso. Chegou uma hora em que as pessoas se cansaram dos efeitos especiais de seus filmes e ele acabou indo à falência. Seu lindo estúdio de vidro (juro, de vidro, e tem fotos dele. A luminosidade das cenas era controlada por venezianas) se despedaça (sem metáfora aqui). Méliès acaba abrindo uma lojinha de brinquedos na estação de trem. E a foto dele ali encerra a exposição (deixando-me melancólica, admito). Sim, essa é uma das primeiras cenas de A Invenção de Hugo Cabret, filme incrível com Sir Ben Kingsley no papel desse cineasta faz-tudo. Quando vi essa cena no filme, meus olhos se encheram de lágrimas. Reproduziram-na lindamente. Ufa.

Hugo Cabret, aliás, faz uma grande homenagem ao começo do cinema e a Georges Méliès. Mas se você não curte cinema mudo, não importa. A atuação dos atores e a fotografia do filme não vão te decepcionar, garanto.

Bom, se você gosta de cinema, mágica e de efeitos especiais, veja a exposição no MIS (que fica na Av. Europa, 158), que vai até 16 de setembro e custa humildes R$ 4,00, e assista o filme em seguida. Depois me conte 😉

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