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O Mestre à frente das câmeras

No domingo (03/03) fui no Cine Livraria Cultura conferir Hitchcock do diretor Sacha Gervasi. Confesso que, como fã do mestre do suspense, tive receio de que o filme se focasse demais na vida pessoal dele, deixando de lado o processo criativo e o trabalho. Ainda bem que não foi o que aconteceu.

Hitchcock começa como um episódio da série Alfred Hitchcock Presents, programa de TV da década de 1950 em que o diretor apresentava histórias de crimes. Há algumas intervenções de Hitch como narrador por conta disso, mas são bem poucas. Isso deu ao diretor a possibilidade de explorar aspectos como a vida pessoal de Alma.

O tema central da película é a filmagem (e obsessão do diretor com a ideia) de Psycho (Psicose no Brasil). Ele acabara de lançar North by Northwest (Intriga Internacional, um filme com cenas memoráveis, mas que perde um pouco o fôlego no final, acho eu) e estava atrás de um roteiro para o seu novo filme. Então cai em suas mãos Psycho, livro que conta a história do assassino Norman Bates, inspirado no criminoso real Ed Gein.

O projeto de Hitchcock sofre resistência desde o início, principalmente por causa da violência e presença de temas polêmicos como o incesto. Já que o estúdio Paramount decide não arriscar em se envolver com a ideia, Hitch banca a película por conta própria, hipotecando a casa em que mora com a esposa, Alma Reville. Além da resistência de todos à volta, o diretor ainda tem de lidar com a pressão de colocar todo o seu dinheiro no projeto.

Não precisaria dizer que Anthony Hopkins está incrível como o diretor — ele mergulhou mesmo no papel nos 90 minutos do filme. E Hellen Mirren deu a Alma a força e firmeza que ela parecia possuir. Retratou-a como uma mulher modesta com grande influência sobre o trabalho do marido. Na verdade, meu maior medo estava aí, em mostrarem uma Alma tola e irrelevante. Quem conhece a obra de Hitchcock sabe a importância de sua esposa — dizem até que ela fazia grande parte do trabalho. Quem sabe. Mas Hitchcock deixa claro o valor de Alma na vida do diretor.

Outro ponto interessante do filme é a relação diretor-censor (aliás, papel do ótimo Kurtwood Smith, de That ‘70s  Show). Hitch é obrigado a participar de uma reunião com Shurlock para que o seu projeto possa ser iniciado. Como convencer um censor da sociedade norte-americana conservadora dos anos 50/60 a liberar a filmagem de uma história sobre um homem psicótico e voyeur obcecado pela mãe? Hitch consegue, mesmo quando o censor implica com a cena em que Marion joga objetos na privada…

Hitchcock retrata o diretor como um homem persistente e curioso. Ele exibe fotos dos crimes reais de Ed Gein em uma festa para estudar a reação das pessoas, manda sua assistente comprar TODOS os livros Psycho do país, para que ninguém saiba como se desenvolveria a história do filme, e ainda cria um Manual de como exibir Psicose para os donos de cinemas. Uma das regras é que ninguém poderia entrar na sala depois que o filme tivesse começado. Além disso, os seguranças e funcionários dos cinemas teriam que aprender a lidar com a revolta que alguns espectadores poderiam manifestar com o filme.

Não quero contar muito, para não dar spoiler. Mas o filme merece aplausos, por fazer justiça à loucura de Hitchcock pelo cinema e à competência de Alma Reville.

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A última gargalhada

Há tempos estava para assistir o grande clássico e “must see” A última gargalhada do cultuado diretor alemão Murnau. E concordo com o que vivem dizendo. É um filme obrigatório para quem curte cinema mudo.

O filme de 1924 conta a história de um senhor já de certa idade (representado pelo maravilhoso Emil Jannings) que trabalha como porteiro do hotel chiquérrimo Atlantic. Seu cargo desperta respeito em todos os seus vizinhos (ele mora em um daqueles cortiços do começo do século), e ele mesmo tem muito orgulho do que faz. Até que… (sempre tem um “até que” para o filme ser bom rs).

Um dia, o gerente do hotel vê o Porteiro (como ele não tem nome, vou me referir a ele dessa forma) sentado descansando, meio esbaforido. No dia seguinte, o senhor chega ao hotel, como de costume, mas há um outro homem trabalhando na porta. O gerente chama o nosso Porteiro e aí começa toda a desgraça: o funcionário mais antigo foi aposentado, e agora o Porteiro deveria assumir suas funções — trabalhar no banheiro masculino, engraxando sapatos, escovando ternos e dando toalhas para os hóspedes secarem as mãos.

Ele fica completamente arrasado com a notícia. Por isso, continua a voltar para casa com o uniforme de porteiro. Nessa noite, inclusive, sua filha se casa, então o prédio todo está em festa. E ele nada diz. No dia seguinte, já trabalhando no banheiro, sua esposa vai até o Atlantic lhe levar sopa quente para o almoço. Quando descobre a verdade, sai correndo, envergonhada. Agora o embaraço dele se soma ao da esposa.

Ao voltar para casa, nesse dia, a família o rechaça, e ele decide passar a noite no banheiro. Nesse momento, o vigia noturno do hotel acaba sendo a única pessoa do filme inteiro que o trata com compaixão, deixando-o lá sozinho.

A história parece muito boba, mas Murnau a transformou em algo profundamente dramático. Primeiro, apesar de ser um filme mudo, NÃO HÁ PLACAS COM FALAS. Sério. E o cara era um gênio tão gigante, que você entende TUDO o que se passa e até imagina as falas. Para não dizer que não há texto nenhum, aparece um bolo de casamento confeitado com as palavras “Para os convidados do casamento”, a carta avisando o Porteiro da mudança, uma tela falando sobre o epílogo da história e uma notícia de jornal. Só. Além disso, há cenas em que você praticamente consegue ouvir sons. Como no início, em que carros passam em frente ao hotel e a câmera dá um close no Porteiro, que assopra um apito. Você “ouve” o homem apitar.

Os atores têm uma expressão corporal inacreditável (e falo isso como fã do cinema mudo que já assistiu a muita coisa). A maior prova disso é a transformação que se dá na postura do Porteiro. Enquanto ele tinha essa função no hotel, apresentava um porte orgulhoso, com a cabeça para frente e a coluna ereta. Quando começa a trabalhar no banheiro, passa o tempo todo encurvado, o que demonstra seu desgosto e a humilhação que sente ao ser rebaixado. Em outro momento, quando o gerente lhe avisa da mudança, abre os braços e adota uma expressão que deixa muito claro o que diz: “Sinto muito, mas não posso fazer nada”. E quando as vizinhas fofoqueiras descobrem a verdade, o diretor dá close em seus rostos com a boca escancarada em gargalhadas.

O ambiente do filme também é bastante importante para entender o estado de espírito do Porteiro. No começo, apesar de ser noite, há bastante movimento na rua e a cena é clara. Já com a mudança de trabalho do protagonista, as cenas se enchem de sombras e tudo é muito escuro. Incrível.

Não sei porque demorei tanto a ver um filme desses. É uma obra-prima. Agora entendo porque Hitchcock trabalhou em filmes do Murnau e o tinha como mestre…

Bem, agora…

SPOILER

No final do filme, entra uma tela, dizendo que o espectador já podia imaginar o que o destino reservava ao pobre velho, mas que o autor teve compaixão por ele e escreveu um epílogo. Em seguida, o filme mostra uma notícia de jornal dizendo que um milionário solteirão colocara em seu testamento que seu herdeiro seria aquele que o segurasse nos braços no momento de sua morte. Adivinha? Sim, nosso Porteiro o segurou enquanto morria no banheiro do Atlantic. O filme termina com o Porteiro fazendo um banquete no restaurante do Atlantic junto com o vigia noturno do hotel (aquele que teve compaixão por ele). O homem sai distribuindo dinheiro para os funcionários, que se dobram quando ele passa. O final é clichê? Talvez, e não gosto de finais muito felizes, para ser honesta. Mas quando você conhece o Porteiro, vê que é um senhor bonachão que não faz mal a ninguém, que os vizinhos não demoram a humilhá-lo quando descobrem a verdade, e depois acompanha sua tristeza e humilhação durante o filme todo, você torce para que algo aconteça mesmo e melhore sua vida.

O título original, em alemão, é “Der letzte Mann”, ou seja, o último homem. Em inglês, “The Last Laugh”, a última gargalhada (como em português). Este é claro, mesmo antes de terminar o filme, porque você espera que ele rirá por último, ou seja, que se dará bem no final (o que acontece, e o Porteiro fica até melhor que o gerente que o prejudicou). O título alemão você entende apenas quando termina o filme. Ele é o último homem que o milionário vê antes de morrer, e é isso que muda toda a sua vida.

Murnau era um gênio mesmo.

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Algemas, castigos e suspense

Quando fiquei sabendo que o Museu da Imagem e do Som começaria um curso de um mês sobre o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, pensei: “Uhm, não sei se gosto muito dos filmes dele, mas quem sabe?…” E me inscrevi. Uma coisa totalmente diferente é você assistir a um filme ciente das artimanhas do diretor. Mesmo que a película não agrade de todo, você reconhece esses elementos narrativos típicos e dá o devido mérito. E foi meio o que aconteceu depois desse curso, que terminei ontem (18/05/2012).

O curso foi ministrado pelo crítico Marcelo Lyra. Ele dava aulas a partir de montagens feitas com pedaços dos filmes de Hitchcock. Vimos desde seus filmes mudos (pois é, ele tem filmes mudos, e alguns excelentes, por sinal) passando pelos feitos para a TV, até Torn Curtain (Cortina Rasgada), de 1966 (não deu tempo de ver os 2 últimos). Aprendemos muitas coisas, não só sobre a técnica do diretor, mas também sobre a pessoa Alfred Hitchcock.

Conta-se que o pai de Hitchcock era amigo do delegado de um posto policial próximo à sua casa. Um dia, como o pequeno Alfred fez uma malcriação, seu pai pediu para o amigo policial prendê-lo, só para assustá-lo. Isso faria grande diferença na vida desse menino – e principalmente em seus filmes. Repare: em todas as suas histórias, a polícia nunca resolve nada, às vezes até atrapalha. Em The Lodger (O Pensionista, ou O Inquilino – 1927), há um serial killer de loiras que escapa o tempo todo da polícia, a qual, inclusive, acaba prendendo um inocente (o tal inquilino) como suspeito dos crimes. Em Vertigo (Um Corpo que Cai – 1957), logo no início há uma perseguição. O criminoso escapa e um dos policiais cai do telhado. E morre.

Outro ponto sobre essa história da polícia é que o diretor quase não usava algemas em seus filmes. Parece ser uma imagem muito forte para ele. Em The Wrong Man (O Homem Errado, 1956) uma das cenas mais impactantes é quando algemam um músico inocente por um crime que ele não cometeu. Você, espectador, sabe que ele é inocente, mas a polícia diz o contrário e tudo conspira contra o pobre homem. Aí, as algemas se tornam um símbolo de injustiça.

Outra história também vem da infância. Alfred estudou em um internato de padres. Quando um dos meninos aprontava alguma, os padres deixavam a criança escolher o horário em que ela seria castigada. O nosso diretor percebeu (já naquela idade, hein), que pedir para o castigo acontecer no último horário possível criava uma expectativa, uma tensão nele, que aumentava a dimensão da punição (olha que coisa mais perversa). Nesse momento, ele entende o efeito da ansiedade e, quando adulto, vai abusar do expediente. Em Sabotage (Sabotagem, 1936), um menino carrega um pacote para o seu padrasto. Ele não sabe, mas há uma bomba-relógio dentro que deve explodir na mão do remetente (que é um adulto). O menino fica preso no trânsito dentro de um bonde. Você começa a se desesperar, porque o menino sabe que tem que chegar numa determinada hora ao destino, não sabe sobre a bomba e o tempo está passando. Ele consegue ver o relógio da igreja, percebendo que está perto de se atrasar. Mas não tem o que fazer. Tudo acontece para atrasá-lo (e para deixar você agarrado na cadeira, de tanta tensão). Esse é só um de muitos exemplos da filmografia de Hitchcock.

Bem, tenho muuuuita coisa para falar sobre ele, pois o assunto é muito rico!

Agora deixa eu assistir o próximo filme da minha lista do Mestre do Suspense.

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