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Visita à amiga

franzen_SebastianLucre

Minha querida companheira de aventuras e editora Priscila Silva me convidou para contribuir na edição de julho da Revista Escrita Pulsante. Os textos que as editoras publicam são bem escolhidos e amo o visual da Revista. Nem preciso dizer que fiquei superfeliz.

E sobre o que mais escreveria? Sobre literatura, claro! Bem, na verdade, sobre o escritor Jonathan Franzen e “nossa” relação conturbada.

Meu texto você pode ler aqui, mas vale a pena ler a edição toda também.

Espero que curtam. 🙂

Foto: Sebastian Lucre

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Dentro da casa

Nossa, um mês depois… Desculpem, sempre naquela correria louca que vocês conhecem. Mas estou de volta e aproveitei para dar uma arrumada aqui no blog.

Pois bem, vi um monte de filmes, li quilos e quilos, e acabei por eleger para o texto de hoje uma película que fala sobre literatura.

Justo.

Dans la Maison

Sim, é sobre o novo, o último, o imperdível filme do diretor francês François Ozon, Dentro da Casa (Dans la Maison, 2012). Ponto positivo já pela tradução do título, usando “da” e não “de”, porque a tal casa é um lugar bem determinado: o lar dos Rafas.

Germain assume nova sala em um colégio que acabou de instituir uma nova regra: uniformes para todos os alunos. Para incômodo do professor, não bastasse a estupidez generalizada dentre esses jovens, a sua aparência agora também seria padronizada.

Pois o professor de francês começa a sofrer logo na primeira atividade, em que propõe que os estudantes escrevam uma redação sobre o seu final de semana. Após ler “redações” como “Pedi pizza, vi TV.”, seus olhos se deparam com o texto de Claude, em que narra literariamente a primeira visita à casa do colega de classe Rafa (a tal maison do título) e que é encerrado pela palavra “Continua”. Germain fica impressionado com a habilidade do garoto de dezesseis anos e o chama para conversar. O professor incentiva Claude a prosseguir (se deixa levar por certo voyeurismo) e lhe dá algumas orientações. A partir daí, o rapaz passa a lhe entregar semanalmente partes do romance, que fica cada vez mais envolvente.

Sim, porque, ao frequentar a casa para ajudar o colega com as tarefas de matemática, Claude começa a participar da intimidade da família,  a ponto de criar tensões que levarão ao triângulo Rafa – Claude – Esther (a mãe do amigo). A relação dos garotos é apresentada no início por Claude de forma um tanto dúbia (ele se aproxima de Rafa por considerá-lo bastante normal, mas o colega parece nutrir um outro sentimento por ele).

Poster de Dentro da Casa

Germain orienta Claude intensamente quanto à escrita, e isso é muito legal. O professor, escritor frustrado, guia o rapaz e nos apresenta o processo de criação literária.

Nas primeiras redações, o professor faz com que o aluno rescreva uma cena, de forma que ele acaba revelando o seu próprio julgamento acerca daquela vida de família de classe média francesa (ele emprega ironia e chama a mãe de Rafa de “mulher típica de classe média”).

Os limites entre realidade e ficção são bastante tênues. Nunca temos certeza se Rafa, Esther e Rafa pai são apenas personagens com matriz real, mas modificados por Claude, ou se a narrativa do garoto segue os fatos. No início, intuímos que o autor relate o que realmente acontece, mas quando Germain passa a atuar sobre o texto, perdemos essa segurança – até o desfecho trágico da história, que, num primeiro momento, como o professor, não sabemos se é verdade ou criação de Claude.

O ator que interpreta Claude, Ernst Umhauer, é um novato (Dentro da Casa é seu terceiro filme) que está começando muito bem. Ele tem uma beleza fresca e meio ingênua nos seus 24 anos que faz com que confiemos demais em Claude, ou o apoiemos, mesmo quando é meio mau-caráter. Já Fabrice Luchini, o professor Germain, que fez o badalado Potiche, Esposa Troféu do mesmo diretor, consegue encarnar bem esse personagem ansioso e frustrado, que se desliga de tudo (até da esposa, a ótima Kristin Scott Thomas com seu francês de dar inveja) em virtude de sua obsessão – que alterna entre o texto de Claude e o próprio garoto.

Dentro da Casa é um filme que vai te envolver desde o início nessa espécie de voyeurismo que acomete o pobre Germain. Pois entregue-se.

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No ar e no chão

Decidi começar a escrever este texto ouvindo a Nona Sinfonia de Gustav Mahler em uma noite como muitas outras. E é em uma noite dessas que começa Open City (Cidade Aberta, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), o livro de estreia do escritor nigeriano radicado nos Estados Unidos Teju Cole.

A história se passa na Nova York pós-11 de setembro e na mente de um jovem médico nigeriano que faz residência em psiquiatria. Vivendo já há muitos anos na Big Apple, repentinamente Julius, o protagonista, adquire o hábito de caminhar sem rumo pela cidade. Por horas muitas, bairros diversos, motivos inexistentes. E ele vai nos contando os dias solitários e sua infância na Nigéria.

Gostei de Julius logo no início: temos o mesmo hábito de ouvir rádios estrangeiras na web e ficar imaginando como está o tempo naquele país, o que as pessoas estão fazendo no momento, quem está ouvindo conosco. Acho que é um costume de quem gosta de passar algum tempo sozinho. Por opção ou força das circunstâncias.

Mas Julius é o narrador. Ah, leitor inocente que se deixa levar pelas palavras… Porque ele é muito honesto com seus pensamentos (ou você acha que é). Tão honesto, talvez, que muitas vezes achei estar conversando com Cole (aliás, um cara muito gente boa, como percebi ao falar rapidamente com ele na Flip, com a desculpa de pegar um autógrafo). Há momentos em que essas duas vozes se fundem claramente, como quando Julius visita museus de Nova York em seus dias vazios (Cole estuda arte antiga dos Países Baixos).

Aliás, o vazio é só externo. Julius tem uma vida mental muito agitada, o tempo todo está refletindo sobre alguma coisa — desde o ataque de bed bugs (um tipo de percevejo que frequentemente atormenta os nova-iorquinos) até a questão árabe no pós-11/09. Só ouvimos sua voz dirigida a outras personagens quando fala casualmente com um taxista, nas raras vezes que encontra seus amigos, ou seu ex-professor de literatura inglesa, o Professor Saito.

Um dos pontos mais interessantes do livro é quando Julius viaja para a Bélgica para tentar encontrar a sua avó, com quem perdera o contato há alguns anos. Lá ele conhece Farouq, um muçulmano que trabalha em uma espécie de lan house em Bruxelas. Os dois encontram o melhor amigo de Farouq em um restaurante e passam horas conversando, mas especialmente sobre a relação dos muçulmanos com o mundo ocidental nesse novo ponto da história, em que foi criado um estereótipo de que todo árabe é muçulmano, e todo muçulmano é terrorista.

Open City também acaba sendo um roteiro de viagem para Nova York e um livro de história. Com o hábito de caminhar longamente e sem rumo, Julius acaba nos apresentando uma cidade um pouco diferente — na verdade, bem mais apaixonante. Você lê a última linha e tem vontade de comprar uma passagem para lá.

E você lê a última linha e fica desconfortável. Não, não é aquela depressão pós-livro que a gente tanto conhece quando termina uma obra incrível. Bom, também. Mas o desconforto é por perceber que Julius enganou você por 259 páginas, e com algo muito grave. E por mais que você o ache um cara interessante e legal, a revelação que ele faz nas últimas 15 páginas (e a postura leviana que adota para contar) deixa esse azedo na boca. As pessoas mudam, acreditam alguns (me incluo nessa), mas não dá para ignorar. Ele contou isso como se não fosse nada, para fazer você acreditar que não foi nada mesmo? Ou ele não acredita que tenha feito mal? Se for este o caso, então temos um problema.

Mas aqui estou, terminando o texto sem chegar ao fim da longa Nona Sinfonia de Mahler, uma das preferidas de Julius e que serve de prelúdio para a revelação, que o protagonista faz logo em seguida no livro. Na verdade, essa sinfonia podia muito bem ser a trilha de Open City.

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A espiã que não gosta de poesia

Serena não é um livro sobre espionagem.

OK, é. Mais ou menos, na verdade. O novo livro de Ian McEwan lançado na Flip deste ano (antes mesmo de ser publicado na Inglaterra, país de origem do escritor) conta a vida de Serena Frome, uma bela matemática formada em Cambridge (sem mérito) apaixonada por literatura (muitas vezes barata) que consegue um emprego (bem ruinzinho) no MI5, o serviço de inteligência britânico. Como você pode perceber, sua vida tem vários elementos de suposto glamour que simplesmente não funcionam assim. Tudo é bastante ordinário, tanto que consegue o emprego por indicação de um professor de sua universidade com quem tem um caso e que lhe ensina sobre política internacional por causa da entrevista do MI5. Serena começa a se interessar por assuntos mais densos, mas é curiosa a forma com a qual lida com eles, como se tudo fosse uma brincadeira distante dela.

Pois estamos em 1972, época da Guerra Fria, de uma Grã-Bretanha diante de uma séria crise econômica e abalada com os ataques do IRA, o Exército Republicano Irlandês. A nossa protagonista narra em primeira pessoa seu tempo no MI5. Seu trabalho basicamente era de uma secretária mal remunerada, até que, por seu gosto por literatura, é indicada para trabalhar na operação Tentação. Seu objetivo era financiar (por meio de uma fundação de fachada, mas com dinheiro público) escritores britânicos afinados com a ideologia ocidental (lembre-se que estamos na Guerra Fria, e havia uma “guerra de ideias” entre os países capitalistas e a URSS). Mas ela se envolve com Tom Healy, o jovem professor universitário designado a Serena na Tentação – o que não torna o livro em um romancinho fraco, calma.

Bom, mas não quero mais falar sobre o enredo.

Comecei dizendo que Serena não é um livro de espionagem. Porque não é mesmo. Então, se você espera algo à la James Bond e companhia, é melhor procurar outro. Pois aqui a literatura é o ponto central, assim como a música era em A Visita Cruel do Tempo (leia essa resenha aqui). E o tempo todo existe um conflito entre realidade e ficção, vida e literatura. Mas o engraçado é Serena ser liberal quanto a suas leituras. Contra todas as expectativas. Daí você percebe que foi muito duvidoso colocarem justamente ela na operação Tentação, alguém não muito atualizada sobre os conflitos político-ideológicos do momento, sendo que o foco da missão era fortalecer essa “guerra ideias” a favor do capitalismo. Nesse momento, confesso ter sentido que ia dar tudo errado.

Algo que me chamou atenção é o nome da missão, lembra? Tentação. Tentação de escrever sobre o outro lado da Cortina de Ferro? Ou tentação de ser pago por 3 anos com dinheiro público (detalhe que os escritores desconhecem, claro) para não trabalhar, apenas escrever exaltando o belo sistema capitalista? Pois cai muito bem para a história pessoal de Serena, que é tentada a arriscar seu disfarce ao ter um caso com Healy. Só que, depois de uma pesquisa, descobri que o nome da missão no original (que é o título do livro em inglês) é “sweet tooth”. Essa é uma expressão que se refere a quem é obcecado por doces. Pensou em uma explicação para o nome? Bom, sei que provavelmente não compraria o livro logo de cara se o nome em português fosse algo como “Tara por doces”. Ou mesmo se fosse “Tentação”. Parece literatura barata ahahahaha.

Na Flip, um brasileiro perguntou e Ian McEwan se Serena também manipularia o leitor, como seus livros anteriores. Achei engraçado aquilo, mas quando terminei esse lançamento, entendi. Não darei spoiler, pode deixar. Mas o fato é que você lê Serena inteiro acreditando em algo, mas a verdade é outra. O autor espalha algumas dicas muito singelas ao longo do texto, mas eu não peguei a ideia.  Deixe um comentário caso tenha lido esse livro e descoberto a verdade antes do final.

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Mudança de ares

Sim! Mudei o nome do blog!

Este é o antigo Tentativas de Tradução.

Faz alguns meses que o nome do blog começou a me incomodar profundamente. Ele limitava a temática de meus posts e eu queria escrever sobre literatura e outras coisas que me interessam.

Hoje, resolvi tomar coragem: abri um novo blog e importei o conteúdo do Tentativas. E aqui estamos.

Agora uma explicação para o nome.

Como escolher um nome mais inspirado e abrangente? Entrei em um daqueles geradores automáticos de nome para blogs (Weblog Name Generator, muito simples e divertido, por sinal) e li “Silence Community”. Achei o nome forte, mas ainda não era o que eu queria. Clicando um pouco mais, encontrei Black Reports. Juntei um com o outro e deu nisto.

E por que silence (silêncio, em inglês)?

Apesar de minha mente estar o tempo todo criando e trabalhando, meu trabalho é feito no silêncio. Por isso, este blog são relatórios desses momentos de silêncio, em que penso em literatura, música, tradução e revisão.

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