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A Visita Cruel do Tempo

Na primeira semana de julho fui a Paraty conferir a 10ª Festa Literária Internacional. Esse ano o homenageado foi o grande Carlos Drummond de Andrade e estavam presentes alguns dos autores internacionais mais comentados. Não resisti à tentação de vê-lo.

Um desses autores é a norte-americana vencedora do Pulitzer Jennifer Egan. O último livro dela lançado no Brasil pela Intrínseca é o A Visita Cruel do Tempo. Já havia visto nas livrarias, mas com toda a falta de tempo em que ultimamente tem se resumido a minha vida, acabei não comprando antes. E me arrependi.

Com a autora na Flip, comprei esse livro e lhe pedi um autógrafo, que ela me deu entre uma mordida e outra de seu sanduíche, pois era uma da tarde e tinha diante de si uma fila imensa de fãs. Chegando em São Paulo, foi o primeiro livro que peguei para ler.

A Viagem Cruel do Tempo é sobre música, pessoas que trabalham direta ou indiretamente com música, sobre o passado recente e o futuro próximo. E a música é tão importante, que a própria Egan contou na Flip que escreveu o livro inteiro ouvindo algumas bandas antigas e outras atuais. Mais para o final, descobrimos algumas das pérolas que fizeram parte da escrita de A Viagem: Young Americans (aquela boa sonoridade gingada do David Bowie), Good Times Bad Times (incrível do Led Zeppellin), The Time of the Season (amo essa do Zombies), Foxey Lady (clááássica do Jimi Hendrix) e Roxanne (tão final dos anos 70 do Police), entre outras.Para fazer jus ao livro, estou ouvindo essas mesmas músicas ao escrever este post.

Os personagens são os mais variados possíveis. Um produtor musical que vive profundamente o estilo “sexo, drogas e rock’n’roll”, uma cleptomaníaca que passou anos vivendo em cortiços em Nápoles, uma RP, cinco adolescentes da década de 70, punks, uma menininha de 9 anos que chama a mãe pelo primeiro nome, um jornalista preso por tentar estuprar uma estrela do cinema, um ditador sanguinário de algum regime oriental. E cada capítulo parece autônomo, pois é dedicado a um personagem, mas, não, não é como a série Game of Thrones, de George R. R. Martin. Em A Viagem, há diversos “protagonistas”, e a alguns é emprestada voz, a outros, um narrador onisciente. No início, você acha que Egan quer traçar um panorama das vidas ligadas à música, mas, no final do livro (sem spoiler), você consegue entender a rede de relações que unem essas personagens aparentemente desconectadas.

Mas descobrimos que o verdadeiro protagonista, no final das contas, é o tempo, que inclusive aparece no título. Ao passar das páginas, vemos o que ele “fez” com as personagens, como levou algumas à decadência (moral, corporal) e outras, à redenção.

Só um adendo: a Intrínseca teve a feliz ideia de chamar o quadrinista Rafael Coutinho para fazer a capa. O trabalho dele ficou incrível, captou com perfeição a ideia do livro, de biografias interpostas, com traços de rostos misturados, e aquele clima meio rock’n’roll de caos visual. Amei.

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Nem tudo é o que parece

Finalmente terminei de ler Freakonomics – O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta.

Esse livro foi escrito pelo economista Steven Levitt e pelo jornalista Stephen J. Dubner. Os dois aplicam estatísticas e testam teorias às vezes um pouco polêmicas para defender algum ponto de vista. Além disso, mostram como nem tudo é o que parece.

Calma, não é um livro maçante que só fala de números; tampouco busca polemizar de graça. Muito pelo contrário, é uma leitura até curiosa.

Provavelmente o capítulo mais polêmico é sobre a queda da criminalidade nos EUA na década de 1990. Segundo os autores, isso se dá por uma série de fatores, um dos quais é a liberação do aborto em alguns estados norte-americanos. É. Eles defendem que crianças que não recebem atenção, amor e educação por parte dos pais e que vivem em ambientes desestruturados (pai na cadeia, mãe muito jovem, mãe viciada em drogas, etc.) têm maior tendência à criminalidade. Portanto, as crianças que estariam em idade para cometer crimes na década de 1990 deixaram de nascer, pois adolescentes grávidas, mulheres solteiras com problemas ou família desestruturada abortaram essas crianças. Tenso, né? Mas Levitt e Dubner deixam claro que não querem incentivar políticas governamentais de controle de natalidade por aborto (o que eles admitem ser cruel), nem justificar essa forma de interrupção da gravidez. Segundo eles, isso são estatísticas e não têm qualquer objetivo além da análise em si.

Bem, outro ponto que os autores analisam é o motivo de os traficantes de crack atualmente morarem com suas mães. Daí eles contam como o aluno da Universidade de Chicago Sudhir Venkatesh se infiltrou na gangue Black Disciplines e conseguiu analisar a estrutura de uma “empresa” de tráfico de drogas. Essa parte é bem interessante, porque o universitário se enfia na gangue, quase sendo morto. Mas ele consegue ganhar certa confiança do líder e passa muito tempo entre eles e a universidade.

O livro conta que atualmente nos EUA não vale a pena traficar crack. Pois é. Segundo os autores, os traficantes dessa droga ganham muito pouco, pois o preço da cocaína foi caindo e o crack se popularizou. Com isso, os traficantes começaram a fazer concorrência de preços e então os lucros sumiram. Quem sofreu foram os pequenos traficantes, que começaram a ganhar menos. Portanto, não têm grana para morarem sozinhos – e ficam na casa da mãe.

Há coisas mais amenas no livro. Ou não.

Os autores dedicam um capítulo todo ao desejo dos pais de serem perfeitos. E colocam uma pergunta: você deixaria a pequena Mary brincar na casa dos Smith, que têm uma arma no armário, ou na dos Doe, que têm uma bela piscina no quintal? Imagino que, de cara, você possa responder que é mais seguro ficar com os Doe. Errado. Segundo Levitt e Dubner, cerca de 550 crianças com menos de 10 anos morrem afogadas nos EUA ao ano, enquanto 175 mortes de pequenos são causadas por armas de fogo.

Há um outro capítulo reservado à Ku Klux Klan, que compara o grupo a corretores de imóveis. Nele, os autores contam como Stetson Kennedy desmascara a Klan, divulgando pelo rádio códigos que seus membros usavam e informações sobre ela, desestruturando-a. O ponto é que quem detém a informação também possui o poder do medo. A Klan era bastante temida pelo sigilo do grupo e pelos códigos secretos que usava. Mas não quero falar muito sobre isso; você vai precisar ler Freakonomics.

Não são teorias da conspiração, nem ideias absurdas. Tudo é fundamentado em fatos e números. E ao ler Freakonomics percebi como somos ignorantes sobre o que nos rodeia.

É, nem tudo é o que parece.

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