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Mendigo-monstro – Down and Out (final)

Casual Ward

Pessoas aguardam para entrar no albergue da Thomas Street, 1902.

Tentei pensar em uma trilha para este texto. Se colocasse músicas tristes para escutar, era capaz de deixar o post de hoje, que fala de algo tão delicado, algo sufocante. Então coloquei no shuffle e rolou até Alice in Chains 🙂

Nas semanas anteriores, escrevi como foi a vida de George Orwell em Paris e Londres contada no ótimo Down and Out in Paris and London. Hoje encerro com as reflexões do autor sobre o que viu nas ruas da capital inglesa. Se você chegou agora, leia aqui a resenha sobre os dias parisienses de Orwell ou aqui sobre a temporada em Londres.

Em dado momento da narrativa, Orwell decide refletir sobre a posição social dos mendigos. Após viver semanas como um, o autor não consegue entender a postura da sociedade diante dessas pessoas. Primeiramente, ele sente que existe uma distinção entre mendigos e trabalhadores “normais” que, na realidade, não existe, nem faz sentido. “Eles são seres humanos normais”, diz Orwell.

A sociedade inglesa, segundo o autor, rejeita mendigos como se fossem criminosos e parasitas, sem valor algum. Mesmo assim, eles são tolerados somente porque a Inglaterra de sua época é “mais humana”; as coisas ainda poderiam ser piores.

Em defesa desses miseráveis obrigados a viver andando sem descanso, Orwell debate o significado de trabalhar, porque ele percebe que o desprezo se deve ao fato de os mendigos não trabalharem. Diz que contadores trabalham somando números, construtores de canais trabalham brandindo picaretas, e mendigos trabalham ficando de pé ao relento sob sol ou chuva e contraindo bronquite e varizes. O trabalho do mendigo é bem inútil, admite Orwell, mas muitas profissões têm atividades igualmente inúteis. Em seguida, ele mostra como a sua sociedade é cruel ao raciocinar que o mendigo paga pelo pouco que consegue da sociedade (alojamentos praticamente inóspitos e uma alimentação insuficiente) com o seu sofrimento.

Orwell conclui essa reflexão dizendo que o desprezo social se deve ao fato de esses homens não ganharem dinheiro suficiente que lhes permita ter uma vida decente. A questão aqui não é a utilidade do trabalho ou o que ele produz de concreto, mas a sua lucratividade. Mendigos não ganham dinheiro – portanto, não merecem respeito da sociedade em que estão inseridos.

Como no relato parisiense, mais adiante Orwell dedica um capítulo inteiro apenas a reflexões sobre o grupo do qual fez parte durante um mês. Nele, o autor conta que já na infância se aprende que mendigos são homens vis (ou salafrários, palavra tão em desuso quanto o termo do original, blackguards): criaturas (note: criaturas, não pessoas) repulsivas e perigosas que preferem morrer a trabalhar ou tomar banho e que gostam de mendigar, beber e roubar galinheiros. E porquê (diabos, acrescento eu) alguém se tornaria vagabundo? Para fugir do trabalho, mendigar com mais facilidade, praticar crimes ou porque simplesmente gosta de vagabundear. Na realidade, Orwell mostra que o único motivo para uma pessoa se tornar mendigo é a lei. Sim, porque se o homem não tem dinheiro e sua comunidade não o mantém, ele é obrigado a viver nos alojamentos públicos, o que, consequentemente, o mantém em permanente movimento (lembre-se, ele não pode ficar mais de uma noite no mesmo spike).

Voltando ao mendigo-monstro, Orwell afirma que a realidade é completamente diferente (como poderíamos facilmente deduzir). Para começar, os mendigos são pessoas pacíficas. A prova disso são os spikes, que nem existiriam se eles fossem violentos. Segundo, mendigos não eram alcoólatras, porque cerveja era uma bebida cara e eles mal tinham dinheiro para comprar uma xícara de chá. Terceiro, não é da índole do inglês ser parasita; portanto, mesmo que se tornasse miserável, uma pessoa dessa nacionalidade não se tornaria aproveitador.

A figura do mendigo-monstro me fez lembrar de uma matéria que li há alguns anos, não sei se na Revista Ocas”. É uma pena não ter certeza. Mas a questão é que o texto apontava para o fato de a sociedade brasileira ter uma opinião completamente distorcida da população em situação de rua. Muitos têm uma visão generalista, acreditando que todos os moradores de rua são loucos, drogados, alcoólatras. É certo que há inúmeros escravos de vícios, mas não são todos, e cada um tem a sua história – na verdade, muitas histórias para contar. Eu gostava de conversar com os vendedores da Ocas” na frente do então Espaço Unibanco de Cinema, na rua Augusta. Eles são ex-moradores de rua treinados pela revista. Alguns eram mais tímidos, outros mais falantes, todos eram educados. Faz tempo que não os vejo.

Bem, voltando ao Orwell e à sua Inglaterra (muitas vezes parecida com o nosso Brasil), ele trata inclusive de um tema muito delicado, a sexualidade dos mendigos. O autor afirma que é praticamente impossível um homem nessa situação se envolver com uma mulher. Primeiramente, era raríssimo encontrar mendigas – Orwell atribui a isso o fato de o desemprego afetar menos as mulheres e, como último recurso e se forem apresentáveis (mancada, Orwell), elas ainda podiam se unir a um homem (provedor). Dessa forma, os homens em situação de rua são submetidos a um celibato involuntário, o que faz com que se envolvam sexualmente com outros homens ou cometam estupros. E ele acrescenta: como o impulso sexual é algo tão básico, a privação de sexo para essas pessoas pode ser tão desmoralizante quanto a falta de comida. O fato de o mendigo não ter possibilidade de casar o afeta profundamente.

E o que fazer para diminuir o sofrimento do miserável? Orwell sugere começar pelos albergues, tornando-os habitáveis. No entanto, a questão central para ele é como fazer com que o mendigo deixe de ser uma pessoa semiviva, ociosa e entediada e se torne um ser humano com respeito próprio – e a solução não está apenas em lhe proporcionar conforto. O autor entende que a saída é encontrar uma ocupação para ele. Uma opção seria os spikes disporem de pequenas fazendas ou jardins em que se pudesse trabalhar. A produção poderia ser convertida para o benefício dessas pessoas, alimentando-as com algo melhor que pão-com-manteiga-e-chá. Assim, não seria criado nenhum ônus para o governo e a vida de muitos poderia ser melhorada. Orwell faz essas sugestões de forma humilde, mas com a propriedade de quem conhece bem o assunto.

Aqui terminam as reflexões de Orwell e o meu texto. O que vocês acharam? Muito próximo da nossa realidade? Compartilhe suas impressões com a gente aqui no blog!

Imagem de abertura: foto de Peter Higginbotham (The Workhouse – Whitechapel).

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A Londres de Orwell – Down and Out II

Londres Antiga

Nesta segunda parte da resenha de Down and Out in Paris and London, vamos acompanhar George Orwell pelas ruas de Londres. Se você não leu sobre os meses em Paris, clique aqui.

Ao contrário do que planejava, precisei subdividir a parte londrina do livro de Orwell. A resenha ficou muito mais longa do que eu esperava. Por isso, nesta falarei de aspectos mais práticos da vida do autor nas ruas londrinas. Já o próximo texto será dedicado apenas às reflexões e críticas de Orwell.

Bem, quando começa o relato da volta para Londres, em uma conversa com um casal de romenos no barco, Orwell oferece uma pista do que virá pela frente, dizendo “A Inglaterra é um ótimo país se você não é pobre”. Nesse momento, ele está muito animado com a perspectiva de um trabalho fixo e bem remunerado: cuidar de uma criança com necessidades especiais. Tudo parece bem, até descobrirmos que a família para quem trabalharia viajou e ele só poderia assumir o emprego dali a um mês. Com quase nada nos bolsos e envergonhado em pedir para o amigo um pouco de dinheiro, Orwell decide guardar seus pertences no armário da estação e trocar um casaco por roupas baratas – quanto pior, melhor, segundo ele. Honestamente, eu estaria em pânico nessa situação, mas acho que o autor: a) se acostumou com a pobreza; b) não conhecia Londres tão bem; ou c) voluntariamente queria ter a experiência da miséria em Londres. Ele chega a dizer que é praticamente impossível morrer de fome na cidade e que, se precisasse, mendigaria. Mal sabia ele que as coisas seriam piores na Inglaterra do que na França.

Algo que corrobora a minha terceira teoria (c), é que Orwell troca seu casaco por roupas “com uma aura de sujeira antiga”. Ele as veste e, na rua, vê um mendigo vindo em sua direção. Quando se dá conta, olhava para o próprio reflexo em uma vitrine. A sujeira já parecia tomar conta de seu rosto, diz. Orwell inclusive evita falar com as pessoas, com medo de elas perceberem a disparidade entre suas roupas e seu sotaque. Mais adiante, percebemos que a grande maioria dos mendigos é composta de ingleses com baixo nível de escolaridade. Por isso a sua preocupação.

Orwell era uma pessoa muito observadora. Assim, nesse primeiro dia em vestes de vagabundo, ele percebe que a atitude das mulheres muda de acordo com a roupa. O autor conta, por exemplo, que, quando um homem mal vestido passa por uma mulher, ela não disfarça a sua repugnância, como se visse um animal morto na rua. “Roupas são algo poderoso”, diz, ao notar como se sente envergonhado naqueles trajes.

Então, ele começa a “via crucis”, indo de alojamento a alojamento. No início, ele se hospeda em albergues baratos, mas sujos, gelados e com cheiro de urina. Depois, descobre os spikes, uma espécie de alojamento muito simples exclusiva para pobres. Nesses locais, a pessoa chegava no final da tarde e só podia sair de manhã, e a refeição padrão eram duas fatias de pão com manteiga e uma xícara de chá.

Fiquei curiosa com o termo que Orwell emprega, spike, e descobri que era uma gíria usada pelos mendigos. Uma provável explicação era que as camas desses lugares pareciam serem feitas de pregos (spikes em inglês). Aliás, em vários momentos de Down and Out, Orwell se dedica a investigar o jargão e os termos usados pelos andarilhos de Londres.

Os tais spikes eram terríveis. Havia um espaço muito pequeno entre as camas, contribuindo para a disseminação de doenças e tornando o sono difícil. Além disso, existia outro problema: era proibido se hospedar no mesmo lugar no prazo de um mês. Dessa forma, os sem-teto ingleses fatalmente se tornavam andarilhos, percorrendo milhas de um alojamento a outro. Não podemos esquecer que a dieta desses homens era composta exclusivamente, salvo raras exceções, de pão com manteiga e chá. Caminhar nessas condições devia ser ainda mais cansativo.

Nas semanas pelas ruas de Londres, Orwell acaba fazendo amizade com um mendigo irlandês, Paddy, e um “artista de calçada”, Bozo. O autor descreve Paddy com uma humanidade comovente e, na verdade, involuntária. Vê como a miséria não tira de um homem a sua dignidade, ao observar o zelo do irlandês com suas roupas já surradas, mesmo assim tentando manter um ar de respeitabilidade. Paddy morria de vergonha de ser vagabundo, apesar de ter todas as características de um.

Já Bozo é extraordinário. Orwell se surpreende com o seu conhecimento sobre arte e as estrelas, além de sua coerência. Como não podia deixar de ser, o autor dedica boas páginas a esse personagem tão singular.

A história de Bozo é trágica. Após ter servido na Índia e na França durante a guerra, tornou-se pintor de casas em Paris e ficou noivo de uma francesa. Tudo ia bem, até que a moça foi atropelada por um ônibus e morreu. Inconformado, passou uma semana bebendo. Ao retornar ao trabalho, ainda abalado, despencou de uma obra e a queda destruiu o seu pé direito. Depois disso, voltou para a Inglaterra e tentou diversos empregos. Como nenhum deu certo, passou a desenhar nas calçadas em troca de moedas.

No final do livro, Paddy, Bozo e Orwell se separam e seguem seus caminhos. Algum tempo depois, um conhecido lhe diz que o amigo irlandês havia sido atropelado e morto, mas Orwell não dá muito crédito à história. Quanto a Bozo, o autor fica sabendo que estava preso por quatorze dias em Wandsworth  por pedir esmola.

Orwell encerra dizendo que ainda gostaria de viver mais um tempo na miséria, para explorar esse mundo e saber o que se passa nos espíritos de pessoas como Paddy e outros mendigos com quem conviveu nas ruas.

Algo que me surpreendeu é a série de proibições que existiam contra os mendigos na Inglaterra do início do século XX. Além da regra dos spikes, era proibido mendigar e dormir ao relento, sob a pena de prisão ou trabalho forçado. Na verdade, desde o século XIV, havia leis na Inglaterra relacionadas exclusivamente aos pobres. Além de regulamentar o que os mendigos podiam fazer, elas tratavam de todo o sistema que os atendia, incluindo os spikes.

É curioso que, apesar de o pobre inglês da época não mais mendigar por força da lei, Orwell emprega a palavra beggar para se referir aos homens com quem convive. Esse termo em inglês, segundo o Dicionário Michaelis, apresenta as seguintes traduções: mendigo, pedinte e indigente. Como esta última opção é pouco empregada (salvo nas situações em que pessoas são sepultadas sem identificação no Brasil), decidi por mendigo, que, neste caso específico, parece mais adequado do que pedinte.

No próximo post, falarei sobre as reflexões de Orwell sobre a vida e o significado dos mendigos para a sociedade inglesa.

(Imagem: Survey of British Literature)

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Fora do eixo – Edimburgo, Dublin e os londrinos

Já faz duas semanas que voltei de viagem e, nesse meio-tempo, decidi que precisava encerrar esse meu “salto inglês”, como diz Enrique Vila-Matas em seu Dublinesca, aqui no Silence Reports.

Vista dos Queen Street Gardens

Vista dos Queen Street Gardens

A surpresa desse mês britânico foi realmente a bela Edimburgo. Fui mais por sugestão de uma amiga do que por escolha própria, e a cidade me deixou boquiaberta. Da Princes Street, vê-se o castelo e o parque Queen Street Gardens, com seus esquilos. Anda-se pelo centro “novo” (entre aspas, porque não é tão novo) e se ouve alguém tocando gaita de foile. É engraçado, porque lá é possível encontrar homens com o traje escocês completo (aqueles kilts lindos, que vontade de trazer um!) tocando essa gaita típica em troca de uns pounds (libras).

Em Edimburgo (ou “Edinbru”, como dizem por lá), aprendi que os homens apenas usam o traje típico completo em ocasiões muito especiais, como casamentos e eventos oficiais. A exceção vai para os dias de futebol e rúgbi, em que os rapazes se reúnem em pubs vestindo kilts para torcer pelos seus times.

A capital escocesa possui um dos melhores museus nacionais que já visitei. Para ter uma ideia, passei quatro horas entre suas galerias e não vi tudo. Há peças históricas, artefatos arqueológicos, obras de arte e coisas que vão deixar qualquer criança de 6 ou 60 anos bem ocupada. E, em minha humilde opinião, achei a exposição egípcia muito mais organizada e interessante do que a do British Museum, de que tanto falam.

Sol na Ha'penny Bridge em Dublin

Sol na Ha’penny Bridge em Dublin

Outra parada foi Dublin. Confesso que minha visita à Escócia reduziu a força de minhas memórias da capital irlandesa, mas posso dizer que adorei o lugar. Os dublinenses, ao contrário dos escoceses, são faladores e alegres. Quando precisei descobrir qual ônibus  pegar no aeroporto para ir até o hostel no centro da cidade, fui auxiliada por um casal de idosos, que me mostrou o mapa e fez-me perguntas até acharmos a melhor opção. E a culinária irlandesa é uma alegria. Ao contrário dos ingleses, a Irlanda possui uma cozinha típica, muito saborosa, por sinal.

Dublin é a capital da Irlanda e da Guinness, a senhora cerveja que tem um gosto bem diferente em sua terra natal. A fábrica, ou storehouse, vale a pena ser visitada pelos amantes de cerveja, pois se tem a chance de conhecer o processo de feitura da bebida, a começar pela escolha da água. E, como não podia deixar de ser, no final pode-se tomar um pint (pouco mais de meio litro) de Guinness no bar envidraçado no alto do prédio, com vista para a Catedral de São Patrício, entre outros.

Algo que me irritou em Dublin foi o tempo. Sempre ouvi que o clima lá era “miserável”, mas eu o classificaria de louco mesmo. Porque dentro de dez minutos choveu, caiu gelo e abriu sol. Eu não acreditei nisso. Tudo bem, quem me conhece sabe que podem cair blocos de gelo, que eu não me importo e vou para a rua curtir a cidade hahaha. Não sou uma boa companhia de viagem para preguiçosos.

Mas voltemos a Londres. Mais especificamente aos londrinos.

Como filha de um país em desenvolvimento (olha o eufemismo), estou acostumada (não conformada) com certas coisas, como ruas esburacadas, oferta pública de lazer insuficiente, falta de segurança. O que via frequentemente na Inglaterra é a insatisfação das pessoas diante de certos assuntos. Por exemplo, eles se queixam de ser caro possuir um automóvel em Londres em razão do preço da gasolina, dos estacionamentos, do trânsito e do pedágio que você precisa pagar ao circular por certas áreas da cidade. No entanto, os londrinos têm acesso a um metrô que funciona muito bem e com uma malha gigante (desafio: tente encontrar rapidamente uma estação menos conhecida apenas olhando o mapa do tube). É caro? Pode ser, mas existem cartões especiais, com os quais você paga uma tarifa menor. E se você quer sair de balada sem pagar táxi, há os night buses que circulam entre meia-noite e quatro da manhã. Eles não cobrem todas as zonas londrinas, claro, mas já são uma ajuda para chegar na casa de algum amigo.

Em Londres, juro que não vi um pedinte, ao contrário do que aconteceu em Dublin e Edimburgo. Estou lendo uma autobiografia do George Orwell em que ele conta os dias de miséria que viveu na capital inglesa, no início do século XX (aguardem a resenha em breve). Não sei se aí estaria uma explicação para o que observei em Londres, mas ele diz que havia uma lei na época proibindo as pessoas de pedir esmolas nas ruas. Quem burlasse a lei, podia ser preso.

A Inglaterra enfrentou as turbulências da crise financeira como muitos países europeus, mas os seus efeitos sobre o cotidiano das pessoas não me pareceram proibitivos. Adoro conversar com taxistas, pois eles conhecem muita gente e veem a vida nas ruas, não só na televisão e nos jornais. Em meu último dia no país, um argelino me disse que não há crise, é tudo propaganda para os governos conseguirem o que desejam. Não concordo com ele, não seria radical a esse ponto, mas acredito que hoje os ingleses não sofram privações como os gregos ou os espanhóis padeceram nos últimos tempos.

Veja bem, não estou dizendo que os ingleses desconhecem o que é uma vida difícil, nem tenho moral para isso. Eles são um povo que passou pelas dificuldades e pelos terrores de muitas guerras (se tiver a oportunidade, visite o Museum of London e suas exposições bacanas com objetos e relatos de moradores da cidade que enfrentaram os bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial), mas, como todo ser humano, os londrinos olham apenas para os problemas, apesar de possuírem tantas coisas positivas. Confesso que houve momentos em que me cansei das queixas, mas não posso me esquecer de que eles têm um padrão de comparação imensamente diverso do nosso aqui no Brasil. E isso me fez ver como as pessoas (independentemente da nacionalidade) muitas vezes reclamam de barriga cheia. Meu incômodo, acredito, seja devido especialmente aos acontecimentos em São Paulo, com a nossa Polícia Militar que, ao invés de nos defender do crime, covardemente ataca pessoas pacíficas que estavam trabalhando ou protestando contra uma situação que não mais se sustenta.

Da próxima vez, vou ainda falar da questão da mídia no caso do suposto atentado terrorista no sul de Londres em maio. Aguardem 🙂

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Fora do eixo – Londres II

Nosso amigo Ben e o Parlamento

Vista clássica de Londres!

Esta semana foi atipicamente gelada aqui na terra da Rainha, e, confesso, essa foi minha maior desculpa para deixar de postar.

Mas vamos lá para mais um texto especial.

Por que pedir licença se você pode se desculpar antecipadamente pela encheção de saco? Foi isso que percebi entre os londrinos no tube: ao invés de dizerem simplesmente Excuse me (licença) para abrir passagem no trem lotado, eles dizem Sorry (desculpa). Não só no metrô, como nas ruas, nas lojas, e por aí vai. Isso me lembrou de algo que aconteceu há pouco. Um dia, bati de frente com uma mulher numa esquina. Foi muito engraçado, dissemos apenas Sorry enquanto ríamos e seguimos o caminho e a vida.

Como boa paulista, a tranquilidade dos ingleses começou a me irritar em pouco tempo, claro. Eles são tão tranquilos, andam devagar, saem lentamente do elevador… Imaginem eu ali no fundo, desesperada para sair ou entrar logo no lugar. E os londrinos, além disso, são bem ligados a seus celulares, tablets e Kindles, e muitas vezes andam com os olhos neles. Respiro fundo e relevo, porque, primeiro, sou visita aqui. Segundo, no final, prefiro gente devagar, do que alguém me empurrando, socando e dando cotoveladas, como acontece na nossa linda cidade de São Paulo.

Quer dar uma ligadinha para casa?

Quer dar uma ligadinha para casa?

Sejamos justos: em Londres há gente tão sem noção como em qualquer lugar. Às vezes, você se depara com alguém contando umas coisas megacabeludas no celular e fica se perguntando se entendeu direito. E tem gente falando no celular praticamente em todo lugar, do parque à livraria. Um pouco irritante, na verdade.

Já falei? Londres é a terra da pizza barata. Caramba, por 4 pounds você come uma redonda fresquinha em uma das milhares de pizzarias que existem por aqui. Não espere uma maravilha gourmet, por favor. Mas pelo preço elas são melhor do que eu esperava.

Moro em Islington, na zona 2 da cidade, bairro também conhecido por ser um dos mais antigos de Londres. Dizem que o primeiro nome do lugar era Giseldone, dado pelos Saxões por volta de 1005 (sim, que lugar velho!). Segundo o site oficial do bairro, um antigo escritor descrevia a área como uma floresta cheia de feras. Estou tentando imaginar esse cenário onde estou agora…

Bem, a velha Islington também é a casa do time de futebol Arsenal há cem anos. Ontem, voltando de um passeio, a operadora do metrô avisou que a estação depois da minha estava fechada, por causa de um jogo que estava para acontecer. Daí, aqui em casa, ouvi o vizinho falando um monte de palavrão. Foi assim que descobri que ele é torcedor (ou “apoiador”, como eles dizem por aqui) do Arsenal, porque o time havia acabado de tomar um gol. Mas ele deve ter terminado a noite superfeliz, porque o placar final foi 4 a 1 contra o Wigan.

Em comparação a outras cidades europeias que visitei, Londres é de longe a com autoridades que me deixam mais tranquila (apesar do absurdo caso Jean Charles, anos atrás). Hoje fui na National Gallery e, como estava quente lá dentro, tirei meu casaco e o segurei no braço. Uma vez fiz isso em um museu alemão (desculpem, não me lembro de qual cidade) e o segurança veio correndo me dizer que não podia carregá-lo dessa forma (!!!!), mas vestir ou guardar. (Acho que isso explica bastante o amor que os alemães têm por nosso bagunçado país.) É óbvio que Londres tem milhões de olhos alertas, mas aqui me sinto mais livre para fazer o que quiser (dentro da lei hahaha).

Esta cidade tem tanta coisa bacana para fazer, que você acaba tendo que colocar prioridades. Eu já risquei da minha lista inicial algumas coisas (bastante caras, diga-se de passagem), como os estúdios da Warner com os cenários do Harry Potter. Amo os livros, mas nem vi todos os filmes. No lugar, decidi visitar em Westminster as Salas de Guerra de onde o Primeiro Ministro Winston Churchill comandou a Inglaterra durante os bombardeios a Londres na Segunda Guerra Mundial. É incrível, imperdível para quem ama história! Ainda comprei um livro com posteres da época da guerra e um presentinho para meu avô. Sai de lá e caminhei 6 minutos sob os “olhos” do Parlamento e da London Eye até a Trafalgar Square. Um belo passeio, ainda mais em um dia frio de sol tímido, mas presente, como hoje.

É isso. Até a próxima (e possivelmente, última)!

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Fora do eixo – Londres I

Cream tea!

Cream tea!

Como alguns já sabem, estou na Inglaterra desde domingo passado. E, sim, em Londres, na louca capital europeia!

Sete dias aqui e tenho algumas coisas para contar. Já fui em várias atrações, mas este post não é um guia, mas impressões de viagem.

Chá!

Se você gosta de chá no Brasil, prepare-se, porque quando menos perceber, em Londres vai estar consumindo 3 xícaras como se fosse água. E do British way, ou seja, com leite! Estou ficando viciada, é engraçado. Troquei facilmente o café pelo chá. Não tenho sentido falta de cafeína até agora.

Metrô!

É um pesadelo. Não porque seja sujo (é bem limpo) ou lotado (putz, isso depende da linha e da hora que você tomar o tube), mas a malha ferroviária de Londres é gigante. Achar uma estação na rede sem nem saber a linha em que ela se encontra é uma tarefa para testar a sua paciência.

As estações mais antigas são bem legais, com azulejos nas paredes indicando direções ou o nome do lugar.

Outra coisa sobre o metrô londrino é a profundidade das estações. A Russell Square, que é onde desço para ir para o curso, fica o equivalente a 15 andares abaixo da terra! Quase morri ao subir até a superfície pelas escadas. Por isso, as estações costumam ter uns elevadores enormes com duas portas. Você entra neles já virado para a porta que abrirá em direção à saída.

Os trens em si costumam ser bem antigos, mas arrumados, não aquilo que vemos em São Paulo.

Quando vaga um lugar no trem, os homens costumam perguntar para nós, mulheres, se desejamos sentar.  Achei bem simpática a atitude. Mas como em SP, as pessoas geralmente ficam perto da porta nos horários de pico, o que tem me irritado um pouco. Teve dia que deixei passar 2 trens, porque não era possível entrar no vagão.

Ônibus!

Aqui eles os chamam de coach. Adoro andar de ônibus, independentemente de ser o de dois andares (que são muito legais!) ou o normal. A viagem é mais barata do que de metrô e você vê Londres.

Para o ônibus parar, a gente faz aquele sinal com a mão como no Brasil. Mas o diferente é que os pontos cobertos são virados para a calçada, não para a rua, como acontece aí. É muito estranho.

Comidas/bebidas!

Aqui há milhares de pubs, claro, mas o que percebi é a enorme quantidade de restaurantes naturais. Tem o Pret Manger, que amo, o Eat e outros, que têm sanduíches, saladas, wraps, barrinhas, sucos e um monte de outras coisas boas, baratas e frescas. Muito amados por nós, estudantes hahaha.

Ontem, ao visitar a linda cidade de banhos romanos, Bath, tomei o famoso cream tea: chá quentinho servido com um leite cremoso e uns pãezinhos doces fofos, nos quais você espalha creme (tipo chantilly) e geleia. Eu ADORO coisas de padaria, então imaginem a minha alegria infantil diante de uma mesa assim.

Sol!

Depois de 3 dias gelados, o sol! E o meu desespero europeu de aproveitá-lo ao máximo. Porque o frio aqui é cortante, venta bastante em muitas regiões de Londres. Quando o sol dá o ar de sua graça, eu e todo mundo (provavelmente hahaha) compramos comida em algum lugar e levamos para o parque ou para a praça, fazendo uma espécie de piquenique improvisado. É realmente uma urgência aproveitar os raios solares ao máximo, mesmo que isso não necessariamente signifique que o tempo estará quente. É bacana visitar as áreas verdes perto da Universidade de Londres e de outros locais de ensino e ver as pessoas comendo até mesmo pizza nos gramados.

Ah, água de torneira aqui é potável, exceto se tiver algum aviso dizendo o contrário. E não é permitido beber álcool em espaços públicos, como parques ou na rua. Jean, a minha anfitriã aqui, disse que o governo tenta, dessa forma, diminuir o consumo de álcool pelos moradores de rua. Ela disse que tem gente que bebe em lugares assim, mas se a polícia pegar a pessoa, ela é multada. Então, já sabe, piquenique só com suco!

Pessoas!

Os londrinos são bem bonitos, algo que contrariou minhas expectativas. Dá gosto de pegar o metrô de manhã ahahaha.

No geral, achei as pessoas bem educadas e relativamente abertas. Até hoje, tive sorte até mesmo com a minha host mum, a Jean, que é um amor e responde pacientemente às minhas perguntas políticas ou bobas.

Bom, está um sol lindo lá fora e tenho coisas para fazer neste domingo. Em breve, farei mais um relatório dos meus dias londrinos 😉

Até mais!

P.S.: da próxima vez, coloco mais fotos bacanas!

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