Arquivo da tag: MIS

Magia e outras coisas

Cena do filme Viagem à Lua, de Georges Méliès

Estava pensando nestes dias, visitei a incrível exposição Georges Méliès, O Mágico do Cinema no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e nem contei para vocês.

Apesar do meu interesse (e amor) pelo cinema mudo, confesso que não sabia quase nada sobre esse francês. Shame on me, eu sei. E fiquei extasiada com a exposição do MIS. O homem era, na verdade, um multi-homem: desenhista, mágico, decorador, diretor de teatro, ator, técnico, produtor, diretor e distribuidor dos seus mais de 500 filmes. E esse aspecto de Méliès fica muito evidente no MIS, por meio dos inúmeros rascunhos de figurinos, esquemas de cenários e maquinário, planos de efeitos especiais, o pouco material (original, claro) salvo e diversos filmes que ficam passando ininterruptamente no Museu.

Um deles, A Conquista do Polo (1912), conta a história de exploradores cujo avião cai no Polo. Eles logo se deparam com um gigante que sai do chão e tenta atacá-los. Fiquei parada, em pé, olhando aquilo. Não se esqueça, estamos no comecinho do cinema, no início do século XX, e George Lucas estava muito longe de nascer. Eu, mulher do século XXI, com meu iPod e celular a tiracolo, preocupada com o trânsito, dona de minha vida, incomodada com aquela imagem. Méliès era tão mágico (e no sentido daquele que domina as artes maravilhosas), que achei aquilo real a ponto de me transportar para o filme e sentir o choque das personagens. Nessa mesma sala, encontrei o esquema criado pelo diretor para aquele boneco gigante. Não vou contar, vá lá conferir você mesmo.

O Museu também exibe A Viagem à Lua (1902), o mais conhecido filme desse francês e que inspirou o clipe Tonight, Tonight do Smashing Pumpkins (só me dei conta disso ao assistir a película francesa). Aqui, o MIS fez algo superbacana: criou uma nave espacial parecida com a usada em A Viagem e exibe o filme dentro dela. Amei a ideia.

George Méliès em sua loja

Mas a vida desse homem não foi só sucesso. Chegou uma hora em que as pessoas se cansaram dos efeitos especiais de seus filmes e ele acabou indo à falência. Seu lindo estúdio de vidro (juro, de vidro, e tem fotos dele. A luminosidade das cenas era controlada por venezianas) se despedaça (sem metáfora aqui). Méliès acaba abrindo uma lojinha de brinquedos na estação de trem. E a foto dele ali encerra a exposição (deixando-me melancólica, admito). Sim, essa é uma das primeiras cenas de A Invenção de Hugo Cabret, filme incrível com Sir Ben Kingsley no papel desse cineasta faz-tudo. Quando vi essa cena no filme, meus olhos se encheram de lágrimas. Reproduziram-na lindamente. Ufa.

Hugo Cabret, aliás, faz uma grande homenagem ao começo do cinema e a Georges Méliès. Mas se você não curte cinema mudo, não importa. A atuação dos atores e a fotografia do filme não vão te decepcionar, garanto.

Bom, se você gosta de cinema, mágica e de efeitos especiais, veja a exposição no MIS (que fica na Av. Europa, 158), que vai até 16 de setembro e custa humildes R$ 4,00, e assista o filme em seguida. Depois me conte 😉

5 Comentários

Arquivado em Cinema

Algemas, castigos e suspense

Quando fiquei sabendo que o Museu da Imagem e do Som começaria um curso de um mês sobre o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, pensei: “Uhm, não sei se gosto muito dos filmes dele, mas quem sabe?…” E me inscrevi. Uma coisa totalmente diferente é você assistir a um filme ciente das artimanhas do diretor. Mesmo que a película não agrade de todo, você reconhece esses elementos narrativos típicos e dá o devido mérito. E foi meio o que aconteceu depois desse curso, que terminei ontem (18/05/2012).

O curso foi ministrado pelo crítico Marcelo Lyra. Ele dava aulas a partir de montagens feitas com pedaços dos filmes de Hitchcock. Vimos desde seus filmes mudos (pois é, ele tem filmes mudos, e alguns excelentes, por sinal) passando pelos feitos para a TV, até Torn Curtain (Cortina Rasgada), de 1966 (não deu tempo de ver os 2 últimos). Aprendemos muitas coisas, não só sobre a técnica do diretor, mas também sobre a pessoa Alfred Hitchcock.

Conta-se que o pai de Hitchcock era amigo do delegado de um posto policial próximo à sua casa. Um dia, como o pequeno Alfred fez uma malcriação, seu pai pediu para o amigo policial prendê-lo, só para assustá-lo. Isso faria grande diferença na vida desse menino – e principalmente em seus filmes. Repare: em todas as suas histórias, a polícia nunca resolve nada, às vezes até atrapalha. Em The Lodger (O Pensionista, ou O Inquilino – 1927), há um serial killer de loiras que escapa o tempo todo da polícia, a qual, inclusive, acaba prendendo um inocente (o tal inquilino) como suspeito dos crimes. Em Vertigo (Um Corpo que Cai – 1957), logo no início há uma perseguição. O criminoso escapa e um dos policiais cai do telhado. E morre.

Outro ponto sobre essa história da polícia é que o diretor quase não usava algemas em seus filmes. Parece ser uma imagem muito forte para ele. Em The Wrong Man (O Homem Errado, 1956) uma das cenas mais impactantes é quando algemam um músico inocente por um crime que ele não cometeu. Você, espectador, sabe que ele é inocente, mas a polícia diz o contrário e tudo conspira contra o pobre homem. Aí, as algemas se tornam um símbolo de injustiça.

Outra história também vem da infância. Alfred estudou em um internato de padres. Quando um dos meninos aprontava alguma, os padres deixavam a criança escolher o horário em que ela seria castigada. O nosso diretor percebeu (já naquela idade, hein), que pedir para o castigo acontecer no último horário possível criava uma expectativa, uma tensão nele, que aumentava a dimensão da punição (olha que coisa mais perversa). Nesse momento, ele entende o efeito da ansiedade e, quando adulto, vai abusar do expediente. Em Sabotage (Sabotagem, 1936), um menino carrega um pacote para o seu padrasto. Ele não sabe, mas há uma bomba-relógio dentro que deve explodir na mão do remetente (que é um adulto). O menino fica preso no trânsito dentro de um bonde. Você começa a se desesperar, porque o menino sabe que tem que chegar numa determinada hora ao destino, não sabe sobre a bomba e o tempo está passando. Ele consegue ver o relógio da igreja, percebendo que está perto de se atrasar. Mas não tem o que fazer. Tudo acontece para atrasá-lo (e para deixar você agarrado na cadeira, de tanta tensão). Esse é só um de muitos exemplos da filmografia de Hitchcock.

Bem, tenho muuuuita coisa para falar sobre ele, pois o assunto é muito rico!

Agora deixa eu assistir o próximo filme da minha lista do Mestre do Suspense.

2 Comentários

Arquivado em Cinema