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Branca de Neve toureira e os seis anões na Espanha

Cartaz de BlancanievesPara escrever sobre este filme, precisava escolher uma trilha gótica. Como não quero estragar meu atual estado de espírito (fugindo do inferno astral no mês do meu aniversário rs), resolvi não colocar nada muito dark para tocar. Por isso, estou ao som do primeiro disco dos holandeses do Within Temptation, época em que ainda eram góticos. Acho que vai combinar perfeitamente com o filme de hoje.

A semana em que vi o maravilhoso O Barão foi especialmente proveitosa, pois além dele assisti também o espanhol Blancanieves. Sim, um remake não-remake do clássico conto de fadas dos irmãos Grimm!

A película de Pablo Berger chegou ao Brasil traduzida como Branca de Neve, mas, para evitar confusão com outras versões, aqui adotarei o título original, em espanhol.

Vocês já devem saber que, sempre que vejo novas versões de velhas histórias, tenho cautela. Mas o que me levou a ver Blancanieves é que, primeiramente, as resenhas todas diziam ser uma versão gótica, em preto e branco, muda e ambientada na Espanha das touradas no pós-Primeira Guerra. Tudo bem, vocês vão me dizer que sou louca por filmes pb mudos. Só que podia sair tudo errado, e paguei para ver.

Blancanieves é um filme com uma longa gestação: foram quase dez anos até que o diretor conseguisse financiamento para o seu projeto. Por isso, o resultado teria de ser, no mínimo, aceitável. Ainda bem que é muito mais do que isso.

A história é a seguinte: Carmen de Triana, no mês final de gravidez, assiste a seu marido, o famoso Antonio Villalta, tourear. Apesar de sua habilidade, o toureiro desvia o olhar do último e mais feroz touro e é atingido por ele. Sua esposa entra em trabalho de parto e o homem é levado em estado grave ao hospital. Ela dá à luz Carmencita (sim, a Branca de Neve não é Branca, é Carmem!), mas morre. Ele, por outro lado, sobrevive e fica preso a uma cadeira de rodas. Encarna, a enfermeira responsável por seu cuidado, descobre que Villalta é muito rico. Abalado pela morte da esposa, o toureiro acaba rejeitando a filha, que fica sob a tutela da avó, e é convencido pela interesseira a se casar novamente.

Algumas das cenas mais belas do filme estão nesse período em que Carmencita vive com a avó. A menina herda da mãe o gosto pelo flamenco e, quando dança, a sala de cinema é inundada pelas palmas e pelo violão da música espanhola. O efeito é arrebatador. Encontrei uma amostra da trilha sonora de Alfonso Villallonga no SoundCloud. Vale a pena acessar: https://soundcloud.com/milanrecords/sets/alfonso-villalonga

Bom, mas como em um drama gótico a alegria não dura, a avó morre e Carmencita, já com uns 10 anos, é enviada com o seu galo de estimação para a mansão em que o pai vive infeliz com a ex-enfermeira sadomasoquista (não é metáfora). Encarna é a perfeita madrasta má, e coloca a enteada para trabalhar como empregada, além de fazê-la dormir em um celeiro. Maribel Verdú e seus olhos enormes e expressivos conseguiram transmitir à personagem uma perversão e crueza egoísta escondida sob joias, maquiagem e classe.

A madrasta torna a vida da menina um inferno, especialmente depois que descobre que Carmencita visita o pai frequentemente. Um dia, ao perseguir o galo que sumiu, a garota encontra Villalta na cadeira, sozinho no quarto. Os dois acabam por ficar amigos e o pai lhe ensina técnicas de tourada.

Os seis anõesQuando Carmencita já está mais adulta, Encarna manda o motorista matá-la. Ele não é bem-sucedido, e cinco anões e uma anã (tenho minhas dúvidas sobre seu sexo) de um show mambembe a resgatam e passam a viajar com ela. Não, não há sete anões nesta versão e, ao contrário dos personagens caricatos dos irmãos Grimm e fofos da Disney, os seis do filme mais parecem saídos de algum daqueles freakshows antigos, em que eram exibidas pessoas com deformidades. Na verdade, a apresentação que levam de cidade a cidade tem esse teor, e o mais velho é um toureiro-anão que enfrenta animais menores. O final (que não vou contar) volta a explorar esse aspecto, mas de forma bastante brutal.

Carmencita, agora com amnésia, passa a ser chamada pelos anões de Branca de Neve. Apesar de não se lembrar do próprio nome e ignorar seu passado, as habilidades de toureira da moça afloram, trazendo notabilidade para o grupo. Ela é convidada para tourear na arena em que seu pai se acidentou e, aos poucos, suas memórias começam a voltar. Um amigo de Villalta a reconhece e vai falar com ela. A madrasta se surpreende ao vê-la na arena, viva e aplaudida por todos.

Não contarei o fim, pois ainda dá para ver Blancanieves no único cinema de São Paulo que o exibe, a Reserva Cultural. Só posso dizer que, quando apareceram os créditos na tela, a plateia estava quieta e atônita.

Mesmo sendo em pb, o filme espanhol não é dominado por sombras como O Barão. E diferentemente de O Artista, no qual o contraste entre o som e o silêncio é sempre ressaltado na comparação entre o cinema mudo e o falado, em Blancanieves nos esquecemos que nada mais há do que a trilha sonora. Há telas com algumas falas escritas, mas a expressividade dos atores preenche o espaço deixado pela ausência das vozes humanas.

Para terminar, recomendo acessar o site oficial do filme, http://blancaniev.es/, que é supercaprichado e passa bem o clima de Blancanieves. Dá para ver o teaser na página inicial e conhecer um pouco mais sobre esse drama mudo-pb-gótico.

Ah, a minha trilha sonora para este texto você encontra aqui: http://grooveshark.com/album/Mother+Earth/163244

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Magia e outras coisas

Cena do filme Viagem à Lua, de Georges Méliès

Estava pensando nestes dias, visitei a incrível exposição Georges Méliès, O Mágico do Cinema no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e nem contei para vocês.

Apesar do meu interesse (e amor) pelo cinema mudo, confesso que não sabia quase nada sobre esse francês. Shame on me, eu sei. E fiquei extasiada com a exposição do MIS. O homem era, na verdade, um multi-homem: desenhista, mágico, decorador, diretor de teatro, ator, técnico, produtor, diretor e distribuidor dos seus mais de 500 filmes. E esse aspecto de Méliès fica muito evidente no MIS, por meio dos inúmeros rascunhos de figurinos, esquemas de cenários e maquinário, planos de efeitos especiais, o pouco material (original, claro) salvo e diversos filmes que ficam passando ininterruptamente no Museu.

Um deles, A Conquista do Polo (1912), conta a história de exploradores cujo avião cai no Polo. Eles logo se deparam com um gigante que sai do chão e tenta atacá-los. Fiquei parada, em pé, olhando aquilo. Não se esqueça, estamos no comecinho do cinema, no início do século XX, e George Lucas estava muito longe de nascer. Eu, mulher do século XXI, com meu iPod e celular a tiracolo, preocupada com o trânsito, dona de minha vida, incomodada com aquela imagem. Méliès era tão mágico (e no sentido daquele que domina as artes maravilhosas), que achei aquilo real a ponto de me transportar para o filme e sentir o choque das personagens. Nessa mesma sala, encontrei o esquema criado pelo diretor para aquele boneco gigante. Não vou contar, vá lá conferir você mesmo.

O Museu também exibe A Viagem à Lua (1902), o mais conhecido filme desse francês e que inspirou o clipe Tonight, Tonight do Smashing Pumpkins (só me dei conta disso ao assistir a película francesa). Aqui, o MIS fez algo superbacana: criou uma nave espacial parecida com a usada em A Viagem e exibe o filme dentro dela. Amei a ideia.

George Méliès em sua loja

Mas a vida desse homem não foi só sucesso. Chegou uma hora em que as pessoas se cansaram dos efeitos especiais de seus filmes e ele acabou indo à falência. Seu lindo estúdio de vidro (juro, de vidro, e tem fotos dele. A luminosidade das cenas era controlada por venezianas) se despedaça (sem metáfora aqui). Méliès acaba abrindo uma lojinha de brinquedos na estação de trem. E a foto dele ali encerra a exposição (deixando-me melancólica, admito). Sim, essa é uma das primeiras cenas de A Invenção de Hugo Cabret, filme incrível com Sir Ben Kingsley no papel desse cineasta faz-tudo. Quando vi essa cena no filme, meus olhos se encheram de lágrimas. Reproduziram-na lindamente. Ufa.

Hugo Cabret, aliás, faz uma grande homenagem ao começo do cinema e a Georges Méliès. Mas se você não curte cinema mudo, não importa. A atuação dos atores e a fotografia do filme não vão te decepcionar, garanto.

Bom, se você gosta de cinema, mágica e de efeitos especiais, veja a exposição no MIS (que fica na Av. Europa, 158), que vai até 16 de setembro e custa humildes R$ 4,00, e assista o filme em seguida. Depois me conte 😉

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