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Entre muros de pedra (e fantasmas?)

Acho que estou na época dos livros tensos.

O novo da lista é O Torreão, de Jennifer Egan. É o segundo que leio dessa norte-americana vencedora do Pulitzer (o primeiro foi A Visita Cruel do Tempo, cuja resenha você pode ler aqui).

Vou começar por um dado curioso. O Torreão foi lançado no Brasil pela Editora Intrínseca durante a Flip deste ano, em julho, e A Visita Cruel do Tempo entrou em nosso mercado em janeiro. No entanto, o primeiro é de 2006 e este, de 2010. Não consegui descobrir o motivo de publicarem as obras de Egan fora da ordem cronológica – parece que não há uma razão específica.

Bem, O Torreão mostra o encontro de dois primos norte-americanos, Danny e Howard, em um castelo medieval decadente localizado na Europa Oriental. O segundo comprou a propriedade para reformá-la e transformá-la em um resort meio mágico, onde as pessoas ficariam totalmente desligadas do mundo. Danny vai até o local para ajudar o primo na reforma. Mas sua chegada já é digna da abertura de um filme de terror: depois de alguns percalços, ele chega à noite a um castelo sinistro caindo aos pedaços sob silêncio.

A autora cria magistralmente uma tensão ao redor dessa personagem – o cara errado no lugar errado. Danny é um nova-iorquino superconectado, que consegue saber se há internet sem fio no ambiente pelas sensações que ela causa em seu corpo. Ele é solteiro, tem aparência gótica e trabalha em restaurantes e baladas. Some a tudo isso uma mágoa com o próprio pai (com quem não fala mais) e um quase assassinato (ele abandona Howard quando eram apenas crianças em uma caverna, da qual o primo sai após muitas buscas da famílias e conhecidos).

Então, coloque um homem desses isolado em um castelo sinistro, sem sinal de celular e com o primo que quase matou na infância, agora acompanhado da esposa, dos filhos, de uma babá meio estranha, um homem misterioso e calado e uma equipe de estudantes de restauração.

Nesse cenário de isolamento e de tantos sentimentos confusos, o leitor se perde com Danny. Há momentos em que você não sabe se ele está vendo um fantasma (o Torreão, torre principal do castelo, é habitado por uma baronesa idosa – mas será mesmo?), se o lugar está mexendo com a cabeça de um homem acostumado a uma cidade louca como Nova York (ele leva uma parabólica ao castelo para poder usar o celular, mas ela cai na piscina de águas negras, o que o deixa desesperado) ou se as duas coisas estão acontecendo. O livro termina e você não tem certeza do que foi real ou não.

Egan é Egan. Como em A Visita Cruel do Tempo, há mudanças de narrador e histórias correm paralelas. E, claro, no final você entende como elas se ligam.

Não posso falar demais desse livro, para não dar spoiler. Mas coloque na sua lista, porque O Torreão é “um daqueles raros livros que nos fazem lembrar por que amamos ler”, como escreveu o jornal Daily Mall.

E reparem na capa. Ela também foi feita por Rafael Coutinho (que assina a capa de A Visita e do novo conto de Egan também publicado no Brasil pela Intrínseca, Caixa Preta). São as escadas claustrofóbicas do Torreão que sobem para os aposentos da baronesa.

Por fim, queria agradecer a Renata Pochini, por me emprestar gentilmente sua edição autografada (mas ela levou a minha A Visita Cruel do Tempo autografada como refém ahahaha).

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No ar e no chão

Decidi começar a escrever este texto ouvindo a Nona Sinfonia de Gustav Mahler em uma noite como muitas outras. E é em uma noite dessas que começa Open City (Cidade Aberta, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), o livro de estreia do escritor nigeriano radicado nos Estados Unidos Teju Cole.

A história se passa na Nova York pós-11 de setembro e na mente de um jovem médico nigeriano que faz residência em psiquiatria. Vivendo já há muitos anos na Big Apple, repentinamente Julius, o protagonista, adquire o hábito de caminhar sem rumo pela cidade. Por horas muitas, bairros diversos, motivos inexistentes. E ele vai nos contando os dias solitários e sua infância na Nigéria.

Gostei de Julius logo no início: temos o mesmo hábito de ouvir rádios estrangeiras na web e ficar imaginando como está o tempo naquele país, o que as pessoas estão fazendo no momento, quem está ouvindo conosco. Acho que é um costume de quem gosta de passar algum tempo sozinho. Por opção ou força das circunstâncias.

Mas Julius é o narrador. Ah, leitor inocente que se deixa levar pelas palavras… Porque ele é muito honesto com seus pensamentos (ou você acha que é). Tão honesto, talvez, que muitas vezes achei estar conversando com Cole (aliás, um cara muito gente boa, como percebi ao falar rapidamente com ele na Flip, com a desculpa de pegar um autógrafo). Há momentos em que essas duas vozes se fundem claramente, como quando Julius visita museus de Nova York em seus dias vazios (Cole estuda arte antiga dos Países Baixos).

Aliás, o vazio é só externo. Julius tem uma vida mental muito agitada, o tempo todo está refletindo sobre alguma coisa — desde o ataque de bed bugs (um tipo de percevejo que frequentemente atormenta os nova-iorquinos) até a questão árabe no pós-11/09. Só ouvimos sua voz dirigida a outras personagens quando fala casualmente com um taxista, nas raras vezes que encontra seus amigos, ou seu ex-professor de literatura inglesa, o Professor Saito.

Um dos pontos mais interessantes do livro é quando Julius viaja para a Bélgica para tentar encontrar a sua avó, com quem perdera o contato há alguns anos. Lá ele conhece Farouq, um muçulmano que trabalha em uma espécie de lan house em Bruxelas. Os dois encontram o melhor amigo de Farouq em um restaurante e passam horas conversando, mas especialmente sobre a relação dos muçulmanos com o mundo ocidental nesse novo ponto da história, em que foi criado um estereótipo de que todo árabe é muçulmano, e todo muçulmano é terrorista.

Open City também acaba sendo um roteiro de viagem para Nova York e um livro de história. Com o hábito de caminhar longamente e sem rumo, Julius acaba nos apresentando uma cidade um pouco diferente — na verdade, bem mais apaixonante. Você lê a última linha e tem vontade de comprar uma passagem para lá.

E você lê a última linha e fica desconfortável. Não, não é aquela depressão pós-livro que a gente tanto conhece quando termina uma obra incrível. Bom, também. Mas o desconforto é por perceber que Julius enganou você por 259 páginas, e com algo muito grave. E por mais que você o ache um cara interessante e legal, a revelação que ele faz nas últimas 15 páginas (e a postura leviana que adota para contar) deixa esse azedo na boca. As pessoas mudam, acreditam alguns (me incluo nessa), mas não dá para ignorar. Ele contou isso como se não fosse nada, para fazer você acreditar que não foi nada mesmo? Ou ele não acredita que tenha feito mal? Se for este o caso, então temos um problema.

Mas aqui estou, terminando o texto sem chegar ao fim da longa Nona Sinfonia de Mahler, uma das preferidas de Julius e que serve de prelúdio para a revelação, que o protagonista faz logo em seguida no livro. Na verdade, essa sinfonia podia muito bem ser a trilha de Open City.

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A Visita Cruel do Tempo

Na primeira semana de julho fui a Paraty conferir a 10ª Festa Literária Internacional. Esse ano o homenageado foi o grande Carlos Drummond de Andrade e estavam presentes alguns dos autores internacionais mais comentados. Não resisti à tentação de vê-lo.

Um desses autores é a norte-americana vencedora do Pulitzer Jennifer Egan. O último livro dela lançado no Brasil pela Intrínseca é o A Visita Cruel do Tempo. Já havia visto nas livrarias, mas com toda a falta de tempo em que ultimamente tem se resumido a minha vida, acabei não comprando antes. E me arrependi.

Com a autora na Flip, comprei esse livro e lhe pedi um autógrafo, que ela me deu entre uma mordida e outra de seu sanduíche, pois era uma da tarde e tinha diante de si uma fila imensa de fãs. Chegando em São Paulo, foi o primeiro livro que peguei para ler.

A Viagem Cruel do Tempo é sobre música, pessoas que trabalham direta ou indiretamente com música, sobre o passado recente e o futuro próximo. E a música é tão importante, que a própria Egan contou na Flip que escreveu o livro inteiro ouvindo algumas bandas antigas e outras atuais. Mais para o final, descobrimos algumas das pérolas que fizeram parte da escrita de A Viagem: Young Americans (aquela boa sonoridade gingada do David Bowie), Good Times Bad Times (incrível do Led Zeppellin), The Time of the Season (amo essa do Zombies), Foxey Lady (clááássica do Jimi Hendrix) e Roxanne (tão final dos anos 70 do Police), entre outras.Para fazer jus ao livro, estou ouvindo essas mesmas músicas ao escrever este post.

Os personagens são os mais variados possíveis. Um produtor musical que vive profundamente o estilo “sexo, drogas e rock’n’roll”, uma cleptomaníaca que passou anos vivendo em cortiços em Nápoles, uma RP, cinco adolescentes da década de 70, punks, uma menininha de 9 anos que chama a mãe pelo primeiro nome, um jornalista preso por tentar estuprar uma estrela do cinema, um ditador sanguinário de algum regime oriental. E cada capítulo parece autônomo, pois é dedicado a um personagem, mas, não, não é como a série Game of Thrones, de George R. R. Martin. Em A Viagem, há diversos “protagonistas”, e a alguns é emprestada voz, a outros, um narrador onisciente. No início, você acha que Egan quer traçar um panorama das vidas ligadas à música, mas, no final do livro (sem spoiler), você consegue entender a rede de relações que unem essas personagens aparentemente desconectadas.

Mas descobrimos que o verdadeiro protagonista, no final das contas, é o tempo, que inclusive aparece no título. Ao passar das páginas, vemos o que ele “fez” com as personagens, como levou algumas à decadência (moral, corporal) e outras, à redenção.

Só um adendo: a Intrínseca teve a feliz ideia de chamar o quadrinista Rafael Coutinho para fazer a capa. O trabalho dele ficou incrível, captou com perfeição a ideia do livro, de biografias interpostas, com traços de rostos misturados, e aquele clima meio rock’n’roll de caos visual. Amei.

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