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Mendigo-monstro – Down and Out (final)

Casual Ward

Pessoas aguardam para entrar no albergue da Thomas Street, 1902.

Tentei pensar em uma trilha para este texto. Se colocasse músicas tristes para escutar, era capaz de deixar o post de hoje, que fala de algo tão delicado, algo sufocante. Então coloquei no shuffle e rolou até Alice in Chains 🙂

Nas semanas anteriores, escrevi como foi a vida de George Orwell em Paris e Londres contada no ótimo Down and Out in Paris and London. Hoje encerro com as reflexões do autor sobre o que viu nas ruas da capital inglesa. Se você chegou agora, leia aqui a resenha sobre os dias parisienses de Orwell ou aqui sobre a temporada em Londres.

Em dado momento da narrativa, Orwell decide refletir sobre a posição social dos mendigos. Após viver semanas como um, o autor não consegue entender a postura da sociedade diante dessas pessoas. Primeiramente, ele sente que existe uma distinção entre mendigos e trabalhadores “normais” que, na realidade, não existe, nem faz sentido. “Eles são seres humanos normais”, diz Orwell.

A sociedade inglesa, segundo o autor, rejeita mendigos como se fossem criminosos e parasitas, sem valor algum. Mesmo assim, eles são tolerados somente porque a Inglaterra de sua época é “mais humana”; as coisas ainda poderiam ser piores.

Em defesa desses miseráveis obrigados a viver andando sem descanso, Orwell debate o significado de trabalhar, porque ele percebe que o desprezo se deve ao fato de os mendigos não trabalharem. Diz que contadores trabalham somando números, construtores de canais trabalham brandindo picaretas, e mendigos trabalham ficando de pé ao relento sob sol ou chuva e contraindo bronquite e varizes. O trabalho do mendigo é bem inútil, admite Orwell, mas muitas profissões têm atividades igualmente inúteis. Em seguida, ele mostra como a sua sociedade é cruel ao raciocinar que o mendigo paga pelo pouco que consegue da sociedade (alojamentos praticamente inóspitos e uma alimentação insuficiente) com o seu sofrimento.

Orwell conclui essa reflexão dizendo que o desprezo social se deve ao fato de esses homens não ganharem dinheiro suficiente que lhes permita ter uma vida decente. A questão aqui não é a utilidade do trabalho ou o que ele produz de concreto, mas a sua lucratividade. Mendigos não ganham dinheiro – portanto, não merecem respeito da sociedade em que estão inseridos.

Como no relato parisiense, mais adiante Orwell dedica um capítulo inteiro apenas a reflexões sobre o grupo do qual fez parte durante um mês. Nele, o autor conta que já na infância se aprende que mendigos são homens vis (ou salafrários, palavra tão em desuso quanto o termo do original, blackguards): criaturas (note: criaturas, não pessoas) repulsivas e perigosas que preferem morrer a trabalhar ou tomar banho e que gostam de mendigar, beber e roubar galinheiros. E porquê (diabos, acrescento eu) alguém se tornaria vagabundo? Para fugir do trabalho, mendigar com mais facilidade, praticar crimes ou porque simplesmente gosta de vagabundear. Na realidade, Orwell mostra que o único motivo para uma pessoa se tornar mendigo é a lei. Sim, porque se o homem não tem dinheiro e sua comunidade não o mantém, ele é obrigado a viver nos alojamentos públicos, o que, consequentemente, o mantém em permanente movimento (lembre-se, ele não pode ficar mais de uma noite no mesmo spike).

Voltando ao mendigo-monstro, Orwell afirma que a realidade é completamente diferente (como poderíamos facilmente deduzir). Para começar, os mendigos são pessoas pacíficas. A prova disso são os spikes, que nem existiriam se eles fossem violentos. Segundo, mendigos não eram alcoólatras, porque cerveja era uma bebida cara e eles mal tinham dinheiro para comprar uma xícara de chá. Terceiro, não é da índole do inglês ser parasita; portanto, mesmo que se tornasse miserável, uma pessoa dessa nacionalidade não se tornaria aproveitador.

A figura do mendigo-monstro me fez lembrar de uma matéria que li há alguns anos, não sei se na Revista Ocas”. É uma pena não ter certeza. Mas a questão é que o texto apontava para o fato de a sociedade brasileira ter uma opinião completamente distorcida da população em situação de rua. Muitos têm uma visão generalista, acreditando que todos os moradores de rua são loucos, drogados, alcoólatras. É certo que há inúmeros escravos de vícios, mas não são todos, e cada um tem a sua história – na verdade, muitas histórias para contar. Eu gostava de conversar com os vendedores da Ocas” na frente do então Espaço Unibanco de Cinema, na rua Augusta. Eles são ex-moradores de rua treinados pela revista. Alguns eram mais tímidos, outros mais falantes, todos eram educados. Faz tempo que não os vejo.

Bem, voltando ao Orwell e à sua Inglaterra (muitas vezes parecida com o nosso Brasil), ele trata inclusive de um tema muito delicado, a sexualidade dos mendigos. O autor afirma que é praticamente impossível um homem nessa situação se envolver com uma mulher. Primeiramente, era raríssimo encontrar mendigas – Orwell atribui a isso o fato de o desemprego afetar menos as mulheres e, como último recurso e se forem apresentáveis (mancada, Orwell), elas ainda podiam se unir a um homem (provedor). Dessa forma, os homens em situação de rua são submetidos a um celibato involuntário, o que faz com que se envolvam sexualmente com outros homens ou cometam estupros. E ele acrescenta: como o impulso sexual é algo tão básico, a privação de sexo para essas pessoas pode ser tão desmoralizante quanto a falta de comida. O fato de o mendigo não ter possibilidade de casar o afeta profundamente.

E o que fazer para diminuir o sofrimento do miserável? Orwell sugere começar pelos albergues, tornando-os habitáveis. No entanto, a questão central para ele é como fazer com que o mendigo deixe de ser uma pessoa semiviva, ociosa e entediada e se torne um ser humano com respeito próprio – e a solução não está apenas em lhe proporcionar conforto. O autor entende que a saída é encontrar uma ocupação para ele. Uma opção seria os spikes disporem de pequenas fazendas ou jardins em que se pudesse trabalhar. A produção poderia ser convertida para o benefício dessas pessoas, alimentando-as com algo melhor que pão-com-manteiga-e-chá. Assim, não seria criado nenhum ônus para o governo e a vida de muitos poderia ser melhorada. Orwell faz essas sugestões de forma humilde, mas com a propriedade de quem conhece bem o assunto.

Aqui terminam as reflexões de Orwell e o meu texto. O que vocês acharam? Muito próximo da nossa realidade? Compartilhe suas impressões com a gente aqui no blog!

Imagem de abertura: foto de Peter Higginbotham (The Workhouse – Whitechapel).

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A Londres de Orwell – Down and Out II

Londres Antiga

Nesta segunda parte da resenha de Down and Out in Paris and London, vamos acompanhar George Orwell pelas ruas de Londres. Se você não leu sobre os meses em Paris, clique aqui.

Ao contrário do que planejava, precisei subdividir a parte londrina do livro de Orwell. A resenha ficou muito mais longa do que eu esperava. Por isso, nesta falarei de aspectos mais práticos da vida do autor nas ruas londrinas. Já o próximo texto será dedicado apenas às reflexões e críticas de Orwell.

Bem, quando começa o relato da volta para Londres, em uma conversa com um casal de romenos no barco, Orwell oferece uma pista do que virá pela frente, dizendo “A Inglaterra é um ótimo país se você não é pobre”. Nesse momento, ele está muito animado com a perspectiva de um trabalho fixo e bem remunerado: cuidar de uma criança com necessidades especiais. Tudo parece bem, até descobrirmos que a família para quem trabalharia viajou e ele só poderia assumir o emprego dali a um mês. Com quase nada nos bolsos e envergonhado em pedir para o amigo um pouco de dinheiro, Orwell decide guardar seus pertences no armário da estação e trocar um casaco por roupas baratas – quanto pior, melhor, segundo ele. Honestamente, eu estaria em pânico nessa situação, mas acho que o autor: a) se acostumou com a pobreza; b) não conhecia Londres tão bem; ou c) voluntariamente queria ter a experiência da miséria em Londres. Ele chega a dizer que é praticamente impossível morrer de fome na cidade e que, se precisasse, mendigaria. Mal sabia ele que as coisas seriam piores na Inglaterra do que na França.

Algo que corrobora a minha terceira teoria (c), é que Orwell troca seu casaco por roupas “com uma aura de sujeira antiga”. Ele as veste e, na rua, vê um mendigo vindo em sua direção. Quando se dá conta, olhava para o próprio reflexo em uma vitrine. A sujeira já parecia tomar conta de seu rosto, diz. Orwell inclusive evita falar com as pessoas, com medo de elas perceberem a disparidade entre suas roupas e seu sotaque. Mais adiante, percebemos que a grande maioria dos mendigos é composta de ingleses com baixo nível de escolaridade. Por isso a sua preocupação.

Orwell era uma pessoa muito observadora. Assim, nesse primeiro dia em vestes de vagabundo, ele percebe que a atitude das mulheres muda de acordo com a roupa. O autor conta, por exemplo, que, quando um homem mal vestido passa por uma mulher, ela não disfarça a sua repugnância, como se visse um animal morto na rua. “Roupas são algo poderoso”, diz, ao notar como se sente envergonhado naqueles trajes.

Então, ele começa a “via crucis”, indo de alojamento a alojamento. No início, ele se hospeda em albergues baratos, mas sujos, gelados e com cheiro de urina. Depois, descobre os spikes, uma espécie de alojamento muito simples exclusiva para pobres. Nesses locais, a pessoa chegava no final da tarde e só podia sair de manhã, e a refeição padrão eram duas fatias de pão com manteiga e uma xícara de chá.

Fiquei curiosa com o termo que Orwell emprega, spike, e descobri que era uma gíria usada pelos mendigos. Uma provável explicação era que as camas desses lugares pareciam serem feitas de pregos (spikes em inglês). Aliás, em vários momentos de Down and Out, Orwell se dedica a investigar o jargão e os termos usados pelos andarilhos de Londres.

Os tais spikes eram terríveis. Havia um espaço muito pequeno entre as camas, contribuindo para a disseminação de doenças e tornando o sono difícil. Além disso, existia outro problema: era proibido se hospedar no mesmo lugar no prazo de um mês. Dessa forma, os sem-teto ingleses fatalmente se tornavam andarilhos, percorrendo milhas de um alojamento a outro. Não podemos esquecer que a dieta desses homens era composta exclusivamente, salvo raras exceções, de pão com manteiga e chá. Caminhar nessas condições devia ser ainda mais cansativo.

Nas semanas pelas ruas de Londres, Orwell acaba fazendo amizade com um mendigo irlandês, Paddy, e um “artista de calçada”, Bozo. O autor descreve Paddy com uma humanidade comovente e, na verdade, involuntária. Vê como a miséria não tira de um homem a sua dignidade, ao observar o zelo do irlandês com suas roupas já surradas, mesmo assim tentando manter um ar de respeitabilidade. Paddy morria de vergonha de ser vagabundo, apesar de ter todas as características de um.

Já Bozo é extraordinário. Orwell se surpreende com o seu conhecimento sobre arte e as estrelas, além de sua coerência. Como não podia deixar de ser, o autor dedica boas páginas a esse personagem tão singular.

A história de Bozo é trágica. Após ter servido na Índia e na França durante a guerra, tornou-se pintor de casas em Paris e ficou noivo de uma francesa. Tudo ia bem, até que a moça foi atropelada por um ônibus e morreu. Inconformado, passou uma semana bebendo. Ao retornar ao trabalho, ainda abalado, despencou de uma obra e a queda destruiu o seu pé direito. Depois disso, voltou para a Inglaterra e tentou diversos empregos. Como nenhum deu certo, passou a desenhar nas calçadas em troca de moedas.

No final do livro, Paddy, Bozo e Orwell se separam e seguem seus caminhos. Algum tempo depois, um conhecido lhe diz que o amigo irlandês havia sido atropelado e morto, mas Orwell não dá muito crédito à história. Quanto a Bozo, o autor fica sabendo que estava preso por quatorze dias em Wandsworth  por pedir esmola.

Orwell encerra dizendo que ainda gostaria de viver mais um tempo na miséria, para explorar esse mundo e saber o que se passa nos espíritos de pessoas como Paddy e outros mendigos com quem conviveu nas ruas.

Algo que me surpreendeu é a série de proibições que existiam contra os mendigos na Inglaterra do início do século XX. Além da regra dos spikes, era proibido mendigar e dormir ao relento, sob a pena de prisão ou trabalho forçado. Na verdade, desde o século XIV, havia leis na Inglaterra relacionadas exclusivamente aos pobres. Além de regulamentar o que os mendigos podiam fazer, elas tratavam de todo o sistema que os atendia, incluindo os spikes.

É curioso que, apesar de o pobre inglês da época não mais mendigar por força da lei, Orwell emprega a palavra beggar para se referir aos homens com quem convive. Esse termo em inglês, segundo o Dicionário Michaelis, apresenta as seguintes traduções: mendigo, pedinte e indigente. Como esta última opção é pouco empregada (salvo nas situações em que pessoas são sepultadas sem identificação no Brasil), decidi por mendigo, que, neste caso específico, parece mais adequado do que pedinte.

No próximo post, falarei sobre as reflexões de Orwell sobre a vida e o significado dos mendigos para a sociedade inglesa.

(Imagem: Survey of British Literature)

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Orwell pelas ruas de Paris – Down and Out I

Cafe em Paris

Nas minhas férias, enquanto estava na enorme livraria Waterstones em Piccadilly, deparei-me com uma autobiografia de George Orwell. Já li A Revolução dos Bichos e 1984 desse mestre da distopia e fique muito curiosa para ler algo autobiográfico, ainda mais no original. Tomei em minhas mãos e fui para o caixa.

É incrível. Sou muito suspeita, por ser fã de suas obras. E o que mais despertou a minha atenção foram os breves capítulos em que Orwell se dedica a curtas críticas sociais a partir do que vivencia durante a sua estadia miserável em Paris e Londres. Por isso, acho que esse livro merece duas resenhas, cada texto dedicado a uma cidade e aos respectivos comentários do autor.

Down and Out in Paris and London (hoje editado pela editora Penguin) conta os dias de extrema pobreza que Orwell viveu quando tinha vinte e poucos anos. Tudo começa quando é roubado na capital francesa por um jovem italiano hospedado no mesmo hotel barato em que ele se encontrava. Ao ler a ótima introdução escrita por Dervla Murphy, sabemos que, na realidade, não havia italiano algum: Orwell foi roubado por uma namorada que fugiu após o crime. A partir daí começa a aventura do inglês pelo submundo.

No início de sua fase miserável, Orwell passa dias a fio sem comer e sem vontade de fazer nada. Decide encontrar um amigo russo, muito doente, mas que já fora garçom em restaurantes caros franceses, para pedir uma indicação de emprego ou algo que o ajudasse a ganhar o suficiente para comprar comida. Os dias que passam em busca de trabalho são terríveis: ficamos entre o quarto sujo e cheio de insetos e as caminhadas longas e famintas em busca de emprego.

Nesse ínterim, Orwell nos faz retratos das pessoas que encontra pelo caminho. Um deles é Charlie, um rapaz que conta, com orgulho, a quem se aproximar sobre sua maior conquista amorosa: uma menina que estuprou. Orwell tenta ser imparcial, especialmente nesse caso, mas é possível sentir seu asco nas entrelinhas.

Pois que, enfim, Orwell consegue o emprego de plongeur. Na função, ele lava de pratos e prepara chá em um hotel de alta classe em Paris. Após algumas semanas, deixa esse trabalho para assumir outro em um restaurante recém-aberto, função na qual fica por pouco tempo. Então, o autor é chamado por um amigo para trabalhar na Inglaterra cuidando de uma criança com séria deficiência intelectual. Aí está um dos pontos altos do livro.

Ao deixar a Cidade Luz, o autor pede licença ao leitor para expressar a sua opinião sobre a vida de um plongeur em Paris e faz um ensaio muito lúcido sobre a situação do trabalhador no início do século XX, mas que, acredito, seria de grande valia para pensarmos o trabalho no nosso tempo.

Orwell classifica o lavador de pratos de escravo do mundo moderno, ao dizer que o único aspecto que o diferencia do escravo é o fato de não ser comercializado. Outros pontos em comum são o trabalho servil, uma renda suficiente para sobreviver, a impossibilidade ou dificuldade de casar (o salário é tão baixo que, se o plongeur tiver uma esposa, ela também deve trabalhar) e a ausência de alternativas – não se consegue sair dessa vida, exceto se for preso.

O que sentimos em seus dias no subsolo quente e sujo do hotel é um tédio pegajoso, um correr de tempo que não permite saber em que dia se está. O resultado que esse trabalho tem sobre Orwell (e ele reconhece muito bem isso) é anestesiante, pois não pensa mais em nada – apenas em dormir e acordar para voltar ao hotel. O autor culpa esse efeito pelo fato de os trabalhadores nunca terem se unido em sindicatos para reivindicar melhores condições.

Em seguida, o escritor tenta entender o motivo dessa escravidão persistir e traça uma crítica social audaz. Orwell afirma que as pessoas costumam dizer que mesmo os empregos horríveis e desgastantes são indispensáveis para a “civilização” (palavra que emprega). Mas o que ele questiona é se especificamente o trabalho de plongeur é de fato fundamental para a sociedade, colocando em dúvida, antes de tudo, a necessidade de restaurantes caros e grandes hotéis que empregam centenas de pessoas. Sob seu ponto de vista, ao invés de fornecer um luxo (comida boa e pronta), esse tipo de estabelecimento proporciona tão somente uma simulação de luxo. Ao trabalhar na cozinha do hotel, ele percebe a falta de higiene que envolve a preparação de pratos cujos preços são, muitas vezes, exorbitantes. Orwell critica, ainda, a estrutura ineficiente dos hotéis e restaurantes caros de Paris. Para ele, se houvesse organização e o trabalho fosse mais eficaz, o pobre plongeur poderia trabalhar seis ou oito horas diárias, não dez ou quinze, como ele vivenciou.

Não satisfeito, Orwell vai além e tenta achar um motivo mais humano para a questão do trabalho estafante e inútil. A resposta? As classes dominantes temem a turba (“mob”) e consideram mais seguro mantê-la ocupada em um trabalho que não lhe deixe tempo livre para pensar em sua situação. Essa ordem das coisas é adequada para os mais ricos e, por isso, assim deve permanecer.

Ele critica esse medo da turba, dizendo que é supersticioso. Para Orwell, esse temor se fundamenta na ideia de que existe uma diferença misteriosa entre ricos e pobres, como se pertencessem a raças diferentes. Não há sentido nessa teoria, diz ele, porque o que distingue o rico do pobre é somente sua renda, e talvez suas vestimentas. Aí o autor reprova os ricos que, por serem mais educados e inteligentes, deviam ter ideias mais liberais. No entanto, a realidade, segundo Orwell, é que esses indivíduos nunca se misturam com os pobres, por considerá-los perigosos, ou talvez simplesmente por puro desconhecimento (tememos o que não conhecemos). Sempre assustadoramente atual.

Assim, Orwell encerra os seus dias parisienses e fecho este texto. Da próxima vez, falarei sobre Londres. Não a minha, mas a dos mendigos que o autor de Down and Out in Paris and London conheceu.

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