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Mistério em areias catarinenses

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O episódio 131 do podcast 30:MIN sobre o aclamado livro de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, deixou-me curiosa. Apesar de já ter ouvido falar bem de Barba, dois participantes do cast não pareciam muito empolgados com o livro. Tinha terminado um outro livro e estava sem nada para fazer (ahã, até parece), então resolvi ver por mim mesma qual é a desse cara.

O romance traz a história de um professor de educação física cujo nome nunca conhecemos. Ele se muda para Garopaba, no litoral catarinense, compelido a desvendar o mistério de seu avô, o qual teoricamente foi assassinado há muitos anos na cidade. O protagonista tem uma condição neurológica que o impede de lembrar o rosto das pessoas. O autor usa recursos bem interessantes para mostrar como o professor faz para reconhecer os demais – o andar, o cabelo, tatuagens, acessórios. Ele precisa manter uma foto de si com uma legenda, tal é a seriedade de sua condição.

O que foi bastante criticado no cast foi o desenvolvimento das personagens femininas. De fato, as mulheres retratadas são bastante estereotipadas, superficiais: há a jovem inconsequente, a universitária intelectual, a velha doida, a prostituta, a ex; por isso tive mais empatia com a cachorra Beta do que com qualquer uma dessas mulheres. Essa relação do autor com suas personagens femininas me incomodou, mas, para ser honesta, após um tempo de leitura, isso foi minimizado, porque entrei no protagonista e adotei o olhar dele. Como ainda não li outros trabalhos de Galera, não posso afirmar que lhe seja inata a dificuldade para desenvolver personagens femininas ou se, em “Barba”, a apresentação delas se deve muito à própria natureza do protagonista, um rapaz jovem e um pouco bronco (a relação dele com Viviane deixa isso evidente).

A narrativa faz com que você viva em Garopaba até a derradeira página. Aliás, essa é uma grande qualidade do livro. Fica claro que Galera conhece bem a cidade catarinense e seu entorno, o que coloca o leitor com os pés na areia. A proximidade do mar, que assusta e fascina o professor de educação física, é uma ameaça constante e silenciosa.

Por outro lado, as descrições de alguns eventos do qual o protagonista participa são enfadonhas. Em determinado ponto, há uma apresentação no circo que pulei sem dó. Corria os olhos pelas linhas até encontrar novamente o protagonista. No entanto, há momentos inspirados, como no início, quando o narrador fala de uvas “transpirando açúcar após meses de seca e calor”.

Enfim, o livro tem alguns problemas, mas diverte. Não é uma obra excepcional da literatura contemporânea, mas vale pelo talento de Galera com as palavras. O enredo é bastante simples, mas o mistério acerca da morte do avô vai prendendo o leitor, enquanto litoral catarinense é descortinado. Certamente procurarei outros romances do autor, que tem quatro publicados (incluído Barba).

Barba

Info:

Leia aqui um trecho do livro.

Mais info sobre o autor e suas obras aqui.

Podcast 30:MIN – episódio 131.

Foto da abertura: Embratur.

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Violência, Darwin e livros usados

Capa de Passageiro do Fim do DiaToda vez em que decido escrever um artigo, coloco música. Mas desta vez, o silêncio é merecido.

Acabei de ler Passageiro do Fim do Dia, do escritor e tradutor carioca Rubens Figueiredo. E o que restou foi um incômodo e, ao mesmo tempo, admiração pelo talento desse autor.

O livro, de pouco menos de 200 páginas, acompanha uma viagem de ônibus de Pedro do centro de uma cidade grande até o Tirol, bairro pobre em que a namorada, Rosane, mora.

Apesar de se tratar de uma viagem, nosso olhar é pouco direcionado para fora, para a paisagem poeirenta do caminho. Acompanhamos as lembranças e os pensamentos de Pedro, que percorre os eventos de seu passado e suas impressões sobre a vida à volta.

Há quatro pontos centrais nesse passeio pela mente de Pedro:

– a lembrança de quando foi pisoteado por um cavalo, ao ficar no meio de uma briga entre ambulantes e guardas há alguns anos;

– Rosane, sua família e conhecidos, seu corpo ossudo e seus planos;

– um livro de Darwin que ele carrega na mochila, contando a viagem do cientista à região onde hoje fica a cidade em que Pedro mora;

– o sebo especializado em livros jurídicos que o rapaz tem no centro da cidade.

Todas as reflexões e pensamentos de Pedro partem basicamente desses pontos e se estendem para outras coisas, muitas vezes se interligando. Um fator comum entre todos eles é a violência, que parece ser a coadjuvante do livro.

Rosane vive nesse bairro periférico bastante pobre, sem infraestrutura e assolado pela violência. Pense em um bairro desse tipo da sua cidade e você terá o Tirol, local que abriga desde trabalhadores com poucas perspectivas a traficantes de drogas e matadores de aluguel. Por isso, todas as lembranças que Rosane têm (e que são evocadas por Pedro, porque enxergamos tudo somente a partir de seus olhos) são ligadas à violência: o menino esfarrapado e meio animalizado sentado no meio-fio quando Pedro e Rosane passam; a amiga dela que perdeu o bebê aos 17 anos por causa de um tiro acidental de um ladrão; o amigo do pai de Rosane, o guarda-vidas, que desistiu da carreira militar em razão dos sucessivos abusos que sofria dentro do quartel à época da ditadura militar.

Darwin aparece repetidamente como um personagem secundário da trama. No dia em que Pedro tem o calcanhar pisoteado pelo cavalo da polícia, em meio à confusão, ele vê um livro sobre a viagem do naturalista inglês ao Brasil sendo destroçado na correria. Coincidentemente, anos depois, um ex-juiz habitué de seu sebo encontra o livro em sua lojinha e comenta que a introdução daquela edição era muito boa. Pedro pega o livro e começa a lê-lo no caminho para o Tirol. O que mais o impressiona (eventos que sempre voltam à narrativa) são duas cenas presenciadas por Darwin: o embate entre uma vespa e uma aranha, e o escravo que conduz o cientista em um barco e se assusta quando ele levanta a mão, achando que o inglês ia agredi-lo.

Em seu sebo, Pedro recebe a visita de muitos advogados, já que o seu foco são livros jurídicos. Lá acontece uma cena aparentemente banal, mas que achei carregada de significado.

Há uma lan house do outro lado da rua, em que dois meninos de classe média ficam entretidos no computador com um jogo muito violento (que parece ser o Grand Theft Auto) e são observados por garotos de rua. Os meninos com uniforme escolar parecem jogar sempre, porque conhecem os cheat codes e sabem o que fazer para conseguir pontuações altas (o que inclui agir com frieza e matar sem motivo). O interessante é o contraste entre a realidade dos meninos de classe média (do conforto, sendo o jogo uma diversão, ficção) e dos garotos de rua (a violência é algo trivial, e não parecem saber a diferença entre certo e errado).

Passageiro do Fim do Dia recebeu o prêmio São Paulo de literatura em 2011, e não é por menos. Virei fã do Rubens Figueiredo escritor, pois já admirava o tradutor, com suas traduções bem trabalhadas. 

E não dá para largar esse livro. Ele não tem capítulos, é texto corrido, o que achei uma escolha incrível de Figueiredo. Esse recurso mantém a fluidez dos pensamentos de Pedro de forma que nos sentimos dentro da mente da personagem.

Ah, o incômodo. Ele não me abandonou até a última linha, confesso. A causa acho que foi a presença constante da violência e da injustiça social. Há uma angústia em ver como aquilo tudo não vai mudar e que as pessoas que vivem naquele cenário não têm muitas perspectivas de melhorar de vida. É uma rua sem saída.

Por fim, quero agradecer a Renata, a culpada por eu ler um livro tão bom 🙂 Obrigada, Rê!

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A Visita Cruel do Tempo

Na primeira semana de julho fui a Paraty conferir a 10ª Festa Literária Internacional. Esse ano o homenageado foi o grande Carlos Drummond de Andrade e estavam presentes alguns dos autores internacionais mais comentados. Não resisti à tentação de vê-lo.

Um desses autores é a norte-americana vencedora do Pulitzer Jennifer Egan. O último livro dela lançado no Brasil pela Intrínseca é o A Visita Cruel do Tempo. Já havia visto nas livrarias, mas com toda a falta de tempo em que ultimamente tem se resumido a minha vida, acabei não comprando antes. E me arrependi.

Com a autora na Flip, comprei esse livro e lhe pedi um autógrafo, que ela me deu entre uma mordida e outra de seu sanduíche, pois era uma da tarde e tinha diante de si uma fila imensa de fãs. Chegando em São Paulo, foi o primeiro livro que peguei para ler.

A Viagem Cruel do Tempo é sobre música, pessoas que trabalham direta ou indiretamente com música, sobre o passado recente e o futuro próximo. E a música é tão importante, que a própria Egan contou na Flip que escreveu o livro inteiro ouvindo algumas bandas antigas e outras atuais. Mais para o final, descobrimos algumas das pérolas que fizeram parte da escrita de A Viagem: Young Americans (aquela boa sonoridade gingada do David Bowie), Good Times Bad Times (incrível do Led Zeppellin), The Time of the Season (amo essa do Zombies), Foxey Lady (clááássica do Jimi Hendrix) e Roxanne (tão final dos anos 70 do Police), entre outras.Para fazer jus ao livro, estou ouvindo essas mesmas músicas ao escrever este post.

Os personagens são os mais variados possíveis. Um produtor musical que vive profundamente o estilo “sexo, drogas e rock’n’roll”, uma cleptomaníaca que passou anos vivendo em cortiços em Nápoles, uma RP, cinco adolescentes da década de 70, punks, uma menininha de 9 anos que chama a mãe pelo primeiro nome, um jornalista preso por tentar estuprar uma estrela do cinema, um ditador sanguinário de algum regime oriental. E cada capítulo parece autônomo, pois é dedicado a um personagem, mas, não, não é como a série Game of Thrones, de George R. R. Martin. Em A Viagem, há diversos “protagonistas”, e a alguns é emprestada voz, a outros, um narrador onisciente. No início, você acha que Egan quer traçar um panorama das vidas ligadas à música, mas, no final do livro (sem spoiler), você consegue entender a rede de relações que unem essas personagens aparentemente desconectadas.

Mas descobrimos que o verdadeiro protagonista, no final das contas, é o tempo, que inclusive aparece no título. Ao passar das páginas, vemos o que ele “fez” com as personagens, como levou algumas à decadência (moral, corporal) e outras, à redenção.

Só um adendo: a Intrínseca teve a feliz ideia de chamar o quadrinista Rafael Coutinho para fazer a capa. O trabalho dele ficou incrível, captou com perfeição a ideia do livro, de biografias interpostas, com traços de rostos misturados, e aquele clima meio rock’n’roll de caos visual. Amei.

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