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Quem tem medo da loba má?

Há pouco mais de uma semana, estreou no Teatro Raul Cortez, em São Paulo (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista), a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf? com os atores Daniel Dantas, Zezé Polessa, Ana Kutner e Erom Cordeiro. Sou apaixonada pela adaptação para o cinema dessa história de Edward Albee com a belíssima Elizabeth Taylor e o maduro Richard Burton nos papéis principais e fiquei grata por trazerem-na para os palcos paulistanos.

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?

Marta (Zezé Polessa) e Jorge (Daniel Dantas) formam um casal de meia-idade com uma relação bastante turbulenta que alterna entre momentos de ternura e violência. Eles são apresentados de maneira honesta logo na cena inicial: Marta é uma bela mulher impetuosa e sádica e Jorge, um marido cansado e frustrado com sua carreira de professor de História na universidade da qual seu sogro é reitor.

Duas da madrugada. Ao voltar para casa após uma festa do reitor com os professores e suas esposas, Marta informa ao marido que convidou Nick e Mel, um casal de jovens (Ana Kutner e Erom Cordeiro), para continuar a festa lá por sugestão de seu pai. Jorge protesta, mas os dois logo chegam e não há mais o que fazer. Quando a porta da frente é aberta a Nick e Mel, eles já presenciam algumas das deliciosas (não, deliciosas, não. Sádicas e assustadoras) provocações que Marta dirige a Jorge. Naquela situação de saia justa, o convidado até sugere voltarem uma outra hora, mas o casal os impele a ficar. E começa o embate.

Mel e NickNick é claramente o motivo pelo qual Marta os chamou (tanto que ela troca de roupa e coloca um vestido vermelho provocante após a chegada dos convidados). Já Mel, coitada… Albee e o diretor da montagem brasileira tiveram êxito em criar uma personagem feminina tão insossa – uma “ratinha sem quadris”, como dizem os bons anfitriões Jorge e Marta. Na apresentação dos jovens, o autor deixa de lado aquela sinceridade do início da peça e nos traz duas personagens caricatas: Mel e Nick, o casal interiorano e ingênuo começando uma nova vida juntos em outra cidade. À medida que o álcool nos copos vai substituindo a água dos corpos das personagens, as máscaras deslizam e somos confrontados com duas pessoas completamente diferentes.

Os minutos passam e Marta vai mostrando a mulher autodestrutiva e cruel que é. Jorge suporta muitas provocações e retruca, mas quase não resiste quando a esposa comenta à jovem sobre o filho dos dois. Não fica evidente se esse filho está vivo ou não, pois Jorge reage violentamente à sua menção. Aliás, pouco sabemos sobre as quatro personagens. Eles revelam algumas informações bem delicadas, e isso acontece o tempo todo, mas só temos um pouco mais de segurança sobre a veracidade dos fatos quando conversam em pares, após muitos conhaques, uísques e vodcas.

Marta e JorgeMel vai se mostrando uma mulher recalcada e insatisfeita e Nick, um jovem professor de biologia inescrupuloso que vai fazer de tudo, inclusive destruir casamentos, para conseguir ascender na universidade. Marta reforça a ideia que temos dela de uma mulher impiedosa. No entanto, vemos, também, que ela é apaixonada pelo marido e é retribuída, mas odeia as fraquezas de Jorge e o culpa por não ser ambicioso. E Jorge… Jorge é o que é: um professor universitário que, no fundo, só queria ter uma vida tranquila, mas que fez a besteira de se casar com a filha do reitor, seu chefe. Ao mesmo tempo em que parece desfrutar das ameaças e provocações da esposa, sofre com elas e rebate os insultos. Marta o leva ao extremo e, por diversas vezes, tem-se a impressão de que ele vai sucumbir. Ou explodir.

Ah, os insultos e as provocações… De alguns, eu e o público rimos. Com muitos outros, só conseguimos murmurar um “vish” ou “nossa…”. Alguns diálogos são extremamente incômodos e escandalosos, meio que uma recordação de que não se pode sair falando o que se deseja, especialmente em relacionamentos. São coisas que, simplesmente, não se diz; porém, as falas dos anfitriões são permeadas de segredos íntimos jogados em nossas caras e nas faces dos convidados. Não se pode escolher não ouvir: você está lá, na sala com aquelas pessoas desestruturadas, mas tão normais.

Elizabeth Taylor e outrosFaz bastante tempo que vi a versão cinematográfica da peça, mas senti que Zezé Polessa (linda, aliás) conferiu à sua Marta certa dose de humor ácido que não vi na personagem de Elizabeth Taylor, tão escandalosa e sexy quanto a versão
brasileira, mas com menos senso de humor. Daniel Dantas ficou ótimo no papel de Jorge, mesmo sem o charme de Burton. Acho que o único problema é o preço do ingresso nos finais de semana: R$ 90! Como voltei a ser estudante, paguei meia entrada, mas considero um preço excessivamente salgado. Sei que a situação dos atores de teatro brasileiros não anda fácil, mas é igualmente difícil frequentar peças pagando esse preço.

Mesmo assim, foram duas horas de risos e insultos que valeram a pena. Mas acho que, se me oferecessem, eu aceitaria uma bebida.

Info: a música (linda <3) dos Beach Boys que toca no início e no final da peça – God Only Knowshttp://grooveshark.com/s/God+Only+Knows/4iSt1h?src=5

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?
Em cartaz até 27/07
Teatro Raul Cortez
De sexta a domingo
Classificação: 14 anos

Ficha do filme Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de 1966, no IMDb (em inglês): http://www.imdb.com/title/tt0061184/

 

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Fora do eixo – Edimburgo, Dublin e os londrinos

Já faz duas semanas que voltei de viagem e, nesse meio-tempo, decidi que precisava encerrar esse meu “salto inglês”, como diz Enrique Vila-Matas em seu Dublinesca, aqui no Silence Reports.

Vista dos Queen Street Gardens

Vista dos Queen Street Gardens

A surpresa desse mês britânico foi realmente a bela Edimburgo. Fui mais por sugestão de uma amiga do que por escolha própria, e a cidade me deixou boquiaberta. Da Princes Street, vê-se o castelo e o parque Queen Street Gardens, com seus esquilos. Anda-se pelo centro “novo” (entre aspas, porque não é tão novo) e se ouve alguém tocando gaita de foile. É engraçado, porque lá é possível encontrar homens com o traje escocês completo (aqueles kilts lindos, que vontade de trazer um!) tocando essa gaita típica em troca de uns pounds (libras).

Em Edimburgo (ou “Edinbru”, como dizem por lá), aprendi que os homens apenas usam o traje típico completo em ocasiões muito especiais, como casamentos e eventos oficiais. A exceção vai para os dias de futebol e rúgbi, em que os rapazes se reúnem em pubs vestindo kilts para torcer pelos seus times.

A capital escocesa possui um dos melhores museus nacionais que já visitei. Para ter uma ideia, passei quatro horas entre suas galerias e não vi tudo. Há peças históricas, artefatos arqueológicos, obras de arte e coisas que vão deixar qualquer criança de 6 ou 60 anos bem ocupada. E, em minha humilde opinião, achei a exposição egípcia muito mais organizada e interessante do que a do British Museum, de que tanto falam.

Sol na Ha'penny Bridge em Dublin

Sol na Ha’penny Bridge em Dublin

Outra parada foi Dublin. Confesso que minha visita à Escócia reduziu a força de minhas memórias da capital irlandesa, mas posso dizer que adorei o lugar. Os dublinenses, ao contrário dos escoceses, são faladores e alegres. Quando precisei descobrir qual ônibus  pegar no aeroporto para ir até o hostel no centro da cidade, fui auxiliada por um casal de idosos, que me mostrou o mapa e fez-me perguntas até acharmos a melhor opção. E a culinária irlandesa é uma alegria. Ao contrário dos ingleses, a Irlanda possui uma cozinha típica, muito saborosa, por sinal.

Dublin é a capital da Irlanda e da Guinness, a senhora cerveja que tem um gosto bem diferente em sua terra natal. A fábrica, ou storehouse, vale a pena ser visitada pelos amantes de cerveja, pois se tem a chance de conhecer o processo de feitura da bebida, a começar pela escolha da água. E, como não podia deixar de ser, no final pode-se tomar um pint (pouco mais de meio litro) de Guinness no bar envidraçado no alto do prédio, com vista para a Catedral de São Patrício, entre outros.

Algo que me irritou em Dublin foi o tempo. Sempre ouvi que o clima lá era “miserável”, mas eu o classificaria de louco mesmo. Porque dentro de dez minutos choveu, caiu gelo e abriu sol. Eu não acreditei nisso. Tudo bem, quem me conhece sabe que podem cair blocos de gelo, que eu não me importo e vou para a rua curtir a cidade hahaha. Não sou uma boa companhia de viagem para preguiçosos.

Mas voltemos a Londres. Mais especificamente aos londrinos.

Como filha de um país em desenvolvimento (olha o eufemismo), estou acostumada (não conformada) com certas coisas, como ruas esburacadas, oferta pública de lazer insuficiente, falta de segurança. O que via frequentemente na Inglaterra é a insatisfação das pessoas diante de certos assuntos. Por exemplo, eles se queixam de ser caro possuir um automóvel em Londres em razão do preço da gasolina, dos estacionamentos, do trânsito e do pedágio que você precisa pagar ao circular por certas áreas da cidade. No entanto, os londrinos têm acesso a um metrô que funciona muito bem e com uma malha gigante (desafio: tente encontrar rapidamente uma estação menos conhecida apenas olhando o mapa do tube). É caro? Pode ser, mas existem cartões especiais, com os quais você paga uma tarifa menor. E se você quer sair de balada sem pagar táxi, há os night buses que circulam entre meia-noite e quatro da manhã. Eles não cobrem todas as zonas londrinas, claro, mas já são uma ajuda para chegar na casa de algum amigo.

Em Londres, juro que não vi um pedinte, ao contrário do que aconteceu em Dublin e Edimburgo. Estou lendo uma autobiografia do George Orwell em que ele conta os dias de miséria que viveu na capital inglesa, no início do século XX (aguardem a resenha em breve). Não sei se aí estaria uma explicação para o que observei em Londres, mas ele diz que havia uma lei na época proibindo as pessoas de pedir esmolas nas ruas. Quem burlasse a lei, podia ser preso.

A Inglaterra enfrentou as turbulências da crise financeira como muitos países europeus, mas os seus efeitos sobre o cotidiano das pessoas não me pareceram proibitivos. Adoro conversar com taxistas, pois eles conhecem muita gente e veem a vida nas ruas, não só na televisão e nos jornais. Em meu último dia no país, um argelino me disse que não há crise, é tudo propaganda para os governos conseguirem o que desejam. Não concordo com ele, não seria radical a esse ponto, mas acredito que hoje os ingleses não sofram privações como os gregos ou os espanhóis padeceram nos últimos tempos.

Veja bem, não estou dizendo que os ingleses desconhecem o que é uma vida difícil, nem tenho moral para isso. Eles são um povo que passou pelas dificuldades e pelos terrores de muitas guerras (se tiver a oportunidade, visite o Museum of London e suas exposições bacanas com objetos e relatos de moradores da cidade que enfrentaram os bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial), mas, como todo ser humano, os londrinos olham apenas para os problemas, apesar de possuírem tantas coisas positivas. Confesso que houve momentos em que me cansei das queixas, mas não posso me esquecer de que eles têm um padrão de comparação imensamente diverso do nosso aqui no Brasil. E isso me fez ver como as pessoas (independentemente da nacionalidade) muitas vezes reclamam de barriga cheia. Meu incômodo, acredito, seja devido especialmente aos acontecimentos em São Paulo, com a nossa Polícia Militar que, ao invés de nos defender do crime, covardemente ataca pessoas pacíficas que estavam trabalhando ou protestando contra uma situação que não mais se sustenta.

Da próxima vez, vou ainda falar da questão da mídia no caso do suposto atentado terrorista no sul de Londres em maio. Aguardem 🙂

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