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Heróis impróvaveis

Punishment

Um grupo de pessoas que mal fala sua língua, um herói nacional, o maior poeta, preconceito, amigas das quais seria melhor manter grande distância, um casamento desfeito e um Natal solitário. Esses podem parecer elementos para um grande drama de lavar a alma com lágrimas, mas Peter Luisi conseguiu juntá-los e fazer a excelente comédia Heróis Improváveis (2014).

O filme, exibido na (minha amadíssima) 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi minha grata surpresa desse festival. Na verdade, uma comédia dramática (ok, enganei vocês um pouquinho) de superação dirigida pelo suíço nascido em Zurique Peter Luisi, Heróis Improváveis acompanha a história de Sabine, a maravilhosa e até então desconhecida (para mim) Esther Gemsch, mulher que se vê forçada a começar uma nova vida. Após se dedicar à família por 15 anos, período em que deixa de lado seus interesses e suas atividades, seu marido pede-lhe o divórcio. Dispondo de tanto tempo livre e com a filha já criada, Sabine começa a ter aulas particulares de direção teatral. Sua professora não deposita um grama de fé nela, mesmo sem lhe dar oportunidade para mostrar o que aprendeu.

O Natal se aproxima e, como aconteceu na última década, Sabine prepara-se para passar a data acompanha de casais de amigos no interior da Suíça, até que esses amigos lhe comunicam uma mudança de planos – e substituem-na por outra pessoa. Infeliz com a ideia de passar a data sozinha (a filha está viajando com o pai e a madrasta), a mulher sai para caminhar e é derrubada por um homem que corre na neve sem camisa, com a cara lambuzada de creme de barbear e com policiais em seu encalço. Sabine é orientada a procurar o abrigo para refugiados do parque para receber o valor do celular quebrado. Lá, ela descobre que o voluntário que sempre passa o final do ano com os estrangeiros não poderá ir.

CasalInduAo encontrar as “amigas” sem querer em um café (elas haviam marcado o encontro e não a convidaram), ela lhes diz, por orgulho, que dirigirá uma peça no abrigo local. Apesar de as peruas velhas zombarem dela, Sabine sai triunfante. A alegria dura somente até a primeira aula com o grupo.

Os refugiados formam um grupo de pessoas das mais diversas nacionalidades e graus de domínio da língua alemã. Há Punishment, do Zimbábue, e mais outros poucos que a entendem. Seu objetivo, na realidade, era usar psicodrama para ajudá-los a lidar com sua situação, mas eles não se soltam. No terceiro dia, quase desistindo, Sabine propõe-lhes que interpretem heróis de seus respectivos países. Ninguém aparece com nenhuma ideia, até que um deles começa a falar de Guilherme Tell. A professora fica pasma quando o grupo decide que quer interpretar a clássica peça sobre o herói suíço escrita pelo maior poeta da língua alemã, Friedrich Schiller. Então começa a saga de Sabine.

Sabine e seu padrinho

Ela enfrenta resistência por todos os lados, desde sua professora até seu padrinho, um grande ator de teatro que aceita ajudá-la com a condição de que não cite seu nome (ele repete isso durante o filme inteiro e sinaliza os momentos em que se comove e reconhece o esforço hercúleo da afilhada). Quando a mídia local descobre que um grupo de refugiados que mal fala alemão vai interpretar uma das maiores obras em língua alemã, há tiros e rosas;  parece, no entanto, que, quanto mais Sabine se envolve nas vidas e nas histórias de seus atores improvisados, mais ela obtém forças das profundezas de seu espírito. Chega um momento em que até a instituição que cuida do abrigo exige que ela cancele a peça (a poucos dias da estreia). No final, as pessoas que mais a apoiam são uma funcionária do abrigo, sua família, a mulher de seu ex e seu padrinho, que chega a dar uma aula para os aspirantes a atores.

Heróis Improváveis consegue intercalar momentos graves com cenas cômicas. Nele, a política europeia para refugiados é apresentada com crueza. A sociedade e o governo fingem que estão ajudando, mas a farsa acaba quando se trata de conceder auxílio real e humano. Tratados podem ter sido assinados, mas, na prática, não há preocupação pelas pessoas. O motivo para o pedido de cancelamento da peça, por exemplo, é que as autoridades não querem que os refugiados se integrem à sociedade suíça, que eles sejam deixados à parte. O máximo que fazem é promover cursos de alemão, apenas, para ocuparem-nos. Quando isso fica claro para Sabine, há um choque. Apesar de ser um grande obstáculo, ela toma a execução da peça como questão de honra para ela e para aquelas pessoas que fogem de uma vida impossível em seus países natais. Há uma mãe viúva que perdeu os filhos, há um pai que deixou a família para tentar melhorar de vida e levá-los, há histórias de pobreza e morte na vida de todos eles. E a chegada da correspondência que lhes negará o refúgio é iminente. Alguns já a receberam, mas não têm para onde ir e permanecem na Suíça até serem pegos pela polícia.

Gessler

Ao longo do filme, o espectador percebe que não se trata apenas da superação de Sabine, mas de todas aquelas pessoas marginalizadas que vivem em um lugar onde os outros mal querem saber de sua existência (tanto que o abrigo fica no alto de uma montanha, isolado da cidade).

Não tem como não torcer por Sabine. E tenho certeza que você também vai torcer por ela se tiver a sorte de cruzar com esse filme por aí.

Info:

Trailer de Heróis Improváveis: http://youtu.be/XOZahzexFMM

Trilha do texto: Guilherme Tell, ou Guillaume Tell, de Rossini: http://grooveshark.com/album/Guillaume+Tell/6784571

Site oficial da 38º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: http://38.mostra.org/br

Artigo curtinho da Revista Superinteressante sobre o herói suíço: Guilherme Tell existiu mesmo?

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Quem tem medo da loba má?

Há pouco mais de uma semana, estreou no Teatro Raul Cortez, em São Paulo (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista), a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf? com os atores Daniel Dantas, Zezé Polessa, Ana Kutner e Erom Cordeiro. Sou apaixonada pela adaptação para o cinema dessa história de Edward Albee com a belíssima Elizabeth Taylor e o maduro Richard Burton nos papéis principais e fiquei grata por trazerem-na para os palcos paulistanos.

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?

Marta (Zezé Polessa) e Jorge (Daniel Dantas) formam um casal de meia-idade com uma relação bastante turbulenta que alterna entre momentos de ternura e violência. Eles são apresentados de maneira honesta logo na cena inicial: Marta é uma bela mulher impetuosa e sádica e Jorge, um marido cansado e frustrado com sua carreira de professor de História na universidade da qual seu sogro é reitor.

Duas da madrugada. Ao voltar para casa após uma festa do reitor com os professores e suas esposas, Marta informa ao marido que convidou Nick e Mel, um casal de jovens (Ana Kutner e Erom Cordeiro), para continuar a festa lá por sugestão de seu pai. Jorge protesta, mas os dois logo chegam e não há mais o que fazer. Quando a porta da frente é aberta a Nick e Mel, eles já presenciam algumas das deliciosas (não, deliciosas, não. Sádicas e assustadoras) provocações que Marta dirige a Jorge. Naquela situação de saia justa, o convidado até sugere voltarem uma outra hora, mas o casal os impele a ficar. E começa o embate.

Mel e NickNick é claramente o motivo pelo qual Marta os chamou (tanto que ela troca de roupa e coloca um vestido vermelho provocante após a chegada dos convidados). Já Mel, coitada… Albee e o diretor da montagem brasileira tiveram êxito em criar uma personagem feminina tão insossa – uma “ratinha sem quadris”, como dizem os bons anfitriões Jorge e Marta. Na apresentação dos jovens, o autor deixa de lado aquela sinceridade do início da peça e nos traz duas personagens caricatas: Mel e Nick, o casal interiorano e ingênuo começando uma nova vida juntos em outra cidade. À medida que o álcool nos copos vai substituindo a água dos corpos das personagens, as máscaras deslizam e somos confrontados com duas pessoas completamente diferentes.

Os minutos passam e Marta vai mostrando a mulher autodestrutiva e cruel que é. Jorge suporta muitas provocações e retruca, mas quase não resiste quando a esposa comenta à jovem sobre o filho dos dois. Não fica evidente se esse filho está vivo ou não, pois Jorge reage violentamente à sua menção. Aliás, pouco sabemos sobre as quatro personagens. Eles revelam algumas informações bem delicadas, e isso acontece o tempo todo, mas só temos um pouco mais de segurança sobre a veracidade dos fatos quando conversam em pares, após muitos conhaques, uísques e vodcas.

Marta e JorgeMel vai se mostrando uma mulher recalcada e insatisfeita e Nick, um jovem professor de biologia inescrupuloso que vai fazer de tudo, inclusive destruir casamentos, para conseguir ascender na universidade. Marta reforça a ideia que temos dela de uma mulher impiedosa. No entanto, vemos, também, que ela é apaixonada pelo marido e é retribuída, mas odeia as fraquezas de Jorge e o culpa por não ser ambicioso. E Jorge… Jorge é o que é: um professor universitário que, no fundo, só queria ter uma vida tranquila, mas que fez a besteira de se casar com a filha do reitor, seu chefe. Ao mesmo tempo em que parece desfrutar das ameaças e provocações da esposa, sofre com elas e rebate os insultos. Marta o leva ao extremo e, por diversas vezes, tem-se a impressão de que ele vai sucumbir. Ou explodir.

Ah, os insultos e as provocações… De alguns, eu e o público rimos. Com muitos outros, só conseguimos murmurar um “vish” ou “nossa…”. Alguns diálogos são extremamente incômodos e escandalosos, meio que uma recordação de que não se pode sair falando o que se deseja, especialmente em relacionamentos. São coisas que, simplesmente, não se diz; porém, as falas dos anfitriões são permeadas de segredos íntimos jogados em nossas caras e nas faces dos convidados. Não se pode escolher não ouvir: você está lá, na sala com aquelas pessoas desestruturadas, mas tão normais.

Elizabeth Taylor e outrosFaz bastante tempo que vi a versão cinematográfica da peça, mas senti que Zezé Polessa (linda, aliás) conferiu à sua Marta certa dose de humor ácido que não vi na personagem de Elizabeth Taylor, tão escandalosa e sexy quanto a versão
brasileira, mas com menos senso de humor. Daniel Dantas ficou ótimo no papel de Jorge, mesmo sem o charme de Burton. Acho que o único problema é o preço do ingresso nos finais de semana: R$ 90! Como voltei a ser estudante, paguei meia entrada, mas considero um preço excessivamente salgado. Sei que a situação dos atores de teatro brasileiros não anda fácil, mas é igualmente difícil frequentar peças pagando esse preço.

Mesmo assim, foram duas horas de risos e insultos que valeram a pena. Mas acho que, se me oferecessem, eu aceitaria uma bebida.

Info: a música (linda <3) dos Beach Boys que toca no início e no final da peça – God Only Knowshttp://grooveshark.com/s/God+Only+Knows/4iSt1h?src=5

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?
Em cartaz até 27/07
Teatro Raul Cortez
De sexta a domingo
Classificação: 14 anos

Ficha do filme Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de 1966, no IMDb (em inglês): http://www.imdb.com/title/tt0061184/

 

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